segunda-feira, dezembro 24, 2007

Feliz Natal




Fui pra praia.
Praia, praia, praia, sol, areia e bundinhas gostosas.
Aquele calor insuportável que aprendi a gostar.
Amo muito tudo isso.
Curtindo o apartamento do primo em Florianópolis, curtindo a cidade, a comida, tudo de bom. Daí uma hora eu estava sentado lá no banheiro e comecei a fuçar na pilha de revistas que tem ao lado da privada. Acabei achando uma Superinteressante com "A Verdadeira História do Natal". Ah, é! É natal! 25 de dezembro e tal!

Natal, a época em que comemoramos o nascimento de Jesus. Não que isso fique muito evidente nas decorações natalinas. Pinheiros, simulação de neve, ursos mecânicos que cantam e dançam. Não consigo enxergar a ligação com o nascimento de Jesus, mas é lógico que há uma explicação.

Daí essa Superinteressante. Muito legal. Antes do menino Jesus, tipo assim, uns sete mil anos antes, já tinham festas nessa época que comemoravam "o solstício de inverno, a noite mais longa do ano no hemisfério norte, que acontece no final de dezembro". A partir dessa noite, o sol fica mais tempo no céu, os dias ficam mais longos e tudo começa a nascer de novo, rumo ao clímax do verão. Era por isso que um monte de gente celebrava: era o retorno do sol, da luz da vida. E pra celebrar, muita festa, comida e bebida.

Segundo a Superinteressante, cada povo celebrava à sua maneira, com seus deuses e crenças. Gregos rendiam homenagens à Dionísio, deus do vinho, com bacanais sensacionais. Os egípcios festejavam em honra à Osíris, os druídas da velha Grã-Bretanha festavam o solstício ao redor das ruínas de Stonehenge, os chineses homenageavam a harmonia da natureza representada pelo símbolo do Ying-Yang.

Daí surgiu o cristianismo.

Bom, os cristãos não gostam de concorrência. Como não conseguiram sufocar as outras comemorações, incorporaram-nas. Na Bíblia (e me corrijam se eu estiver errado), não há nenhuma citação específica sobre a data de nascimento de Jesus. Assim, arbitrariamente, marcaram a data de 25 de dezembro e se "apropriaram" das comemorações de outras culturas. A Superinteressante cita o historiador André Chevitarese, da UFRJ: "Ao contrário do que se pensa, os cristãos nem sempre destruíam as outras percepções de mundo como rolos compressores. Nesse caso, o que ocorreu foi uma troca cultural".

Dessa "troca cultural" vieram símbolos e costumes que podem parecer um tanto estranhos em relação aos textos bíblicos originais. A árvore de natal, por exemplo, vem do
Yule, a festa que os nórdicos faziam em homenagem ao solstício. Um pinheiro cheio de lindas luzes e estrelinhas. Muito bonito, mas o que pinheiros tem a ver com a Nazaré da época de Jesus?

Aliás, essa é a parte mais engraçada! Tem a propaganda super-ultra-hiper-mega-jacu de um shopping de Curitiba que mostra o dito shopping durante a noite, erguendo-se imponente, coberto de neve e, diante dele, seus consumidores-zumbis com cachecóis e blusas sorrindo feito imbecis e olhando o infinito. Lógico que todo mundo já percebeu como esse clima de neve e de comemoração de solstício fica deslocado aqui por esses lados do Equador. Mas, fazer o quê? As tentativas de criar comemorações locais conseguiram ser mais rídiculas ainda que as tradicionais.

A surpresa pra mim foi a respeito do Papai Noel. Eu sempre pensei que a figura do bom velhinho tinha sido inventada pela Coca-Cola. Mentira! Foi um desenhista norte-americano chamado Thomas Nast que idealizou o visual do velhinho gordinho que conhecemos hoje, com base na figura do bispo Nicolau. Entretanto, foi
uma série de anúncios da Coca-Cola em 1931 que fizeram o Papai Noel bombar como o super-star do natal.

A título de curiosidade, achei na web a suposta primeira aparição do Papai Noel. O desenho de Thomas Nast é de 1863 e retrata um casal separado pela Guerra Civil Norte-Americana no Natal de 1862. O Papai Noel está ali, no canto superior direito, se preparando pra descer a chaminé...



Legal foi essa outra imagem de Papai Noel que achei na Wikipedia:


A foto foi tirada em 1902, nas ruas de Chicago. A placa diz: "Help the Volunteers of America send Santa down 10,000 chimneys". Algo como "ajude os Voluntários da America a enviar o Papai Noel para 10.000 chaminés". É uma outra coisa característica do Natal: o espírito de solidariedade e beneficência.

Nossa, vi um monte de reportagens sobre as crianças que escreveram cartas ao Papai Noel. Os correios recebiam as cartas, voluntários as liam e se organizavam de modo a atender aos pedidos. Fizeram uma série inteira de reportagens a esse respeito no jornal do meio-dia aqui em Curitiba. Em Florianópolis também vi algumas matérias semelhantes. Mostravam as cartinhas com pedidos singelos, como um caderno ou uma blusa. Geralmente eram escritas por crianças e mães pobres. Obviamente, essas reportagens apresentavam uma forte carga emocional. Muita gente chorando e tal.

O tal "espírito de Natal" encontra uma de suas mais célebres manifestações no Cântico de Natal (A Christmas Carol) de Charles Dickens. Você com certeza já viu essa história ou alguma similar: um velho avarento e explorador é visitado por três espíritos na noite de Natal, o Passado, Presente e Futuro. Eles o levam a ver os erros que cometeu e comete em função de sua ganância e o triste fim que o aguarda. Na manhã seguinte, o velho surta e vira um bonzinho generoso. Feliz natal para todos. Fim.



Eu particularmente gosto muito dessa história. Ela foi publicada em 1843, na Inglaterra. Mais de vinte anos antes de Marx publicar o primeiro volume de O Capital. E, de certa forma, tem mais a ver com O Capital do que parece. A exploração do trabalhador em busca do lucro desmedido é exatamente o que o velho avarento faz em Cântico de Natal. A miséria está presente ainda em outras histórias de natal. Histórias de sofrimento, privação e um milagroso ou redentor final, que traz lágrimas aos olhos. O espírito de Natal é exatamente essa redenção e talvez mais. Talvez seja o desejo sincero de quebrar com a ânsia de lucro e exploração desmedidas que impregna todas as esferas de relacionamento humano. Natal é trégua, época de fingirmos que somos todos iguais e nos tratarmos mutuamente com respeito e, talvez até, legítima afeição.

Pelo menos, essa é a teoria.

O que eu vejo é que, embora seja muito bonito e emocionante realizar os pequenos pedidos de Natal das crianças pobres, ao longo do ano não parece haver esforço algum para alterar as condições de penúria em que essas crianças vivem. Não há interesse ou vontade de tornar as condições sociais mais justas. Será que não há como mudar as condições que fazem essa criança escrever uma carta pedindo coisas tão simples quanto uma bola ou um caderno de escola?

Mas esse tipo de pensamento é coisa de comunista subversivo e comunista tem que queimar no inferno. Graças ao bom Deus existe o Natal, em que nós podemos exercer nossa generosidade e solidariedade, pra depois curtirmos férias na praia e voltarmos renovados para um novo ano produtivo de trabalho e conquistas. Deus abençoe a América.

E por falar em Deus... Natal, solidariedade, enfeites bonitos, compra de presentes... ei, e onde fica Jesus nisso tudo? Ah, ele fica quietinho, deitado na manjedoura no meio do presépio. Honestamente, o aspecto cristão do Natal não me parece ser o mais celebrado, embora ainda seja forte. Não me agrada a idéia de que é uma data arbitrária, criada para estimular a divulgação do cristianismo, apropriando-se dos símbolos e valores de outras culturas. O que temos hoje é um culto ao comércio encoberto com neve de isopor. O Natal é fake.

Curiosamente está para estrear justamente no Natal o filme infantil A Bússola de Ouro (The Golden Compass). Ele é baseado na série de livros de Philip Pullman, que é ateu convicto. E isso perturbou muito as autoridades eclesiásticas, como por exemplo a Liga Católica dos Estados Unidos e o próprio Vaticano, que descreve o filme como uma "saga ' fantasy' gnóstica com molho 'soixante-huitard' [alusão ao movimento de rebelião estudantil na França, em 1968], além de anti-Natal" que promove "uma ideologia atéia e inimiga de todas as religiões, tradicionais e institucionais, do cristianismo e do catolicismo em particular".

Uau, estou louco pra ver esse filme.

Talvez essa seja a idéia da polêmica. Talvez a Igreja Católica esteja de conchavo com o Philip Pullman e ganhe uma grana por divulgar o material dele através desse bafafá. O fato é que as vendas do livro aumentaram em 500%, embora o filme tenha ido muito mal nas bilheterias. Na verdade, o verdadeiro motivo da irritação da Igreja parece estar no fato de que, no mundo mágico criado por Pullman, as forças do Mal são representadas pelo "Magistério",
uma ordem religiosa que sufoca a individualidade e controla as almas das crianças. Hmm... por que será que a Igreja se ofendeu? Vou assistir o filme para melhor formar uma opinião.



Enfim, é Natal.

Complexo, intenso, paradoxal, emocionante, fajuto, onipresente Natal.

Boas festas pra você. Aproveite com quem você ama. Junte a família, dê muito abraço e beijo. Curta bastante. É o melhor a fazer.

Feliz Natal.
Ho
ho
ho.


(Para ler na íntegra a matéria citada da Superinteressante, "A verdadeira história do Natal", de autoria de Thiago Minami e Alexandre Versignassi, clique aqui).



4 comentários:

Anônimo disse...

Velho amigo,

Bastaria dissecar a palavrinha NATAL... lá estaria JESUS.

FELIZ NATAL, Líber.
---
LVR

Liberland disse...

Feliz Natal pra você também, Anonymous.

Fico morrendo de curiosidade de saber quem é vc.

"Velho amigo", hein? Hmm...

racg68 disse...

Thomas Nast realmente criou a imagem do velhinho gordo, mas ele fumava, era um elfo baixinho e vestia um macacão de pêlo que cobria todo seu corpo. Foi Haddon Sundblom quem completou a transformação, mudando-o de um elfo para um homem; e vestindo-o com casaco e calça, vermelho e branco, as cores da Coca, e botas de couro.

Anônimo disse...

Será que a lógica também se aplica a outras línguas?
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