quinta-feira, dezembro 20, 2007

A light of meaning in the darkness of mere being

Até onde podemos perceber, o único propósito da vida humana é buscar um lampejo de significado na escuridão do mero existir.
Carl G. Jung – Memórias, Sonhos, Reflexões.

Fulaninha passou em biologia, depois de tentar medicina veterinária por quatro anos. E já no primeiro semestre, encontrou Beltraninho, que seria seu parceiro para vida toda. Nas mesas de cerveja, Fulaninha e suas amigas riam e comentavam: “Era pra ser assim”.

Acaso, destino e livre-arbítrio estão entre as questões mais clichês e batidas da filosofia de boteco. Mas também são ferramentas fundamentais pra qualquer bom ficcionista. O jogo é muito divertido. Tudo começa com “E se...?”

E se Fulaninha tivesse passado em medicina veterinária na quarta tentativa? E se tivesse decidido tentar uma quinta vez? Ela encontraria Beltraninho? Quem ela poderia ter encontrado?

E quem não fica se perguntando “E se...?” sobre a própria vida?

E se eu tivesse sido mais esperto e não tivesse deixado você escapar?

Divagar sobre o que poderia ter sido não é uma coisa muito útil, mas é irresistível e inevitável, principalmente nessa época. Chegando o fim do ano, as famílias juntinhas, esse clima de Natal que mais parece lavagem cerebral via todos os canais possíveis de mídia. Não dá pra deixar de pensar. Olhando para os acentos vazios à mesa.

E se não tivéssemos perdido o bebê? Que nome ele teria?

Mas, mais bacana do que imaginar o que poderia ter sido é prestar atenção em como as coisas se tornaram o que são.

Saia pra rua e veja as coisas acontecerem. Um congestionamento de trânsito, você decide pegar outro caminho e encontra alguém que não via há tanto tempo. Dá uma carona pra pessoa e ela confessa que não deveria estar ali naquela hora, que foi um contratempo que a fez escolher aquele caminho. Se você ou ela tivessem passado um minuto antes ou depois, não teriam se encontrado. Mas estavam ali, naquele instante.

E assim começa alguma coisa.

Particularmente, acho uma bobagem essa conversa de Destino. Fico lembrando daquele cara ridículo que aparecia na tv dizendo com a voz anasalada “na vida nada acontece por acaso”. Fico pensando nos criacionistas que defendem o “design inteligente”. A vida é complexa demais pra ter acontecido por acaso, eles dizem. Tem que ter uma “mão” por trás de tudo.

Claro que tem. Só porque você quer.

As coisas acontecem e ficamos procurando conexões, explicações, relações de causa e efeito. Procuramos dar significado a eventos que provavelmente não tem nenhum. Mas, afinal, não é esse ato de procurar (e inventar) o sentido das coisas que nos define como humanos?

Há dias em que eu me assombro. As coisas funcionam com um sincronismo assustador. Pequenas coincidências que se desdobram ao longo do dia. Uma música que me faz lembrar de uma pessoa pela manhã e de tarde me ligam dizendo que ela morreu. Aprendemos a pensar em termos de causa e efeito, mas às vezes as coisas simplesmente acontecem. Sem razão ou propósito. E isso pode dar um parafuso na cabeça de muita gente. Principalmente na minha.

E, apesar de clichê, batida e óbvia, a questão permanece: há um padrão? Existe um sistema pré-ordenado ou as coisas simplesmente acontecem ao acaso? Ou um pouco dos dois?

Um padrão que se repete, uma rede de eventos, uma maldição, uma sina inescapável.

Estamos presos a um destino? Há como fugir dele ou mudá-lo?

E se for tudo uma invenção, podemos reinventar? Vamos parar com tudo e ir pra casa assistir tv bem cobertinhos no sofá? Você vem comigo?

“Faça as coisas acontecerem”, disseram. “A sorte não vai vir bater na sua porta procurando você”, disseram. Mentira. Ela veio sim. Ela veio bater em minha porta uma vez. Disso eu nunca vou esquecer. Dela eu nunca vou esquecer.

Uma música toca pela manhã e à tarde uma pessoa está morta.

Mas eu ainda não morri.

Ainda estou aqui pra andar pelas ruas, pra pensar nas coincidências. Pra fazer a minha sorte e a sua também. Jogar dados e marchar na lama. Beba comigo. Ria comigo. Eu ainda não morri.

E lá vamos nós de novo...

2 comentários:

racg68 disse...

É que os idiotas ficam olhando para o resultado, e tentando achar significado em coisas que estão aquém de nossa vontade e do escopo de nossas ações, quando os gênios olham para o processo, e constroem o significado a a partir de suas ações.

Anônimo disse...

Não sei se é coincidência, mas "e lá vamos nós" é o nick no meu msn agora.