domingo, agosto 26, 2007
quinta-feira, agosto 23, 2007
Felizes são os gatos

Trabalhando e digitando essa tarde inteira, pensando em frases, autores e prazos de entrega da dissertação...
Daí olhei pela janela e vi o Gordolino, o nosso gato folgado deitado no telhado, o sol se pondo, a tranqüilidade do bichano...
Tentei fotografar mas não achei a câmera. (Onde diabos ela está?) Ainda assim, achei o momento tão bacana, tipo uma realização tão completa da palavra "serenidade", que eu tinha que registrar.
Acabei usando a webcam mesmo...
Nossa, imagine poder ficar tranqüilo assim.
Felizes são os gatos.
The Authority
“Os personagens de HQ existem apenas para viver intensamente”.
A frase é de Pierre Fresnault-Deruelle, um pesquisador francês que escreveu muitas coisas interessantes sobre as histórias em quadrinhos e teorias da representação e semiótica. Esses europeus parecem levar os quadrinhos muito a sério...
Estréia do Super-Homem em 1938 por Jerry Siegel e Joe Schuster
Quando a gente fala de histórias em quadrinhos, é legal pensar também o lance de indústria cultural. A indústria cultural produz bens de consumo relacionados ao entretenimento, caracterizados pela produção em série e distribuição em grande escala. Por exemplo: as novelas da TV, os romances do Dan Brown, a música do Franz Ferdinand, os filmes da Meg Ryan... e as histórias em quadrinhos. Todos esses exemplos são produtos culturais. Não se trata aqui de discutir estética ou se qualquer um dos exemplos citados é “bom” ou não. Nada a ver com a qualidade dos produtos.
Produtos culturais são criados dentro de uma série de parâmetros com objetivo de preencher as expectativas do espectador e conquistar sua preferência. A principal função de um produto cultural é criar algo que as pessoas queiram possuir e despertar nelas a disposição de pagar por isso.
Há quem diga que eles também promovem a alienação e a manipulação de opinião. Serviriam pra manter os espectadores narcotizados e incapazes de formular uma opinião crítica a respeito da sua realidade. Também incutiriam valores que ajudariam no controle comportamental das pessoas, como o respeito as leis, o valor da família e os desejos de consumo.
Na década de 1930, os super-heróis surgiram nas histórias em quadrinhos. Era uma época de incertezas e medos. Os EUA se recuperavam da Grande Depressão Econômica de 1929, que tinha levado muita gente à falência da noite para o dia. Na Europa, o nazismo e o fascismo ganhavam forças. Faltava dinheiro, emprego. Dias sombrios.
Os super-heróis foram uma criação completamente original das histórias em quadrinhos. Eles misturavam elementos fantásticos de diversas procedências de um modo totalmente original. O Super-Homem, por exemplo, o primeiro e maior dos super-heróis, tinha algo como os poderes divinos dos deuses antigos, a integridade dos santos e a roupa dos ousados artistas de circo. Ele salvava pessoas, resolvia injustiças, prendia os criminosos.
Talvez o super-herói tivesse sido uma tentativa de total fuga da realidade ou de tentar criar uma nova realidade mais empolgante, maravilhosa. Talvez mais justa. Mas a questão de justiça está diretamente ligada à questão de cultura. E cultura não é só uma “manifestação artística”... também é um código de conduta de uma sociedade. O Super-Homem salvava as pessoas e prendia os criminosos, mas ele jamais tentou entender ou resolver os “reais” problemas do mundo. Nunca tentou entender o que levava uma à criminalidade e, em suas histórias, a pobreza não parecia existir. Na verdade, com todas as suas habilidades extraordinárias, o Super-Homem dedicava-se a manter o mundo do jeito que era: ordinário. Sem grandes mudanças. O importante era manter a lei, a ordem e o status quo.
Assim, nas HQs do Super-Homem da década de 1940, o leitor escapava para um fantástico mundo paralelo, feito de cidades imaginárias, como Metrópolis e Gotham City. Um mundo mais simples, sem grotescas desigualdades, sem injustiças, sem ambigüidades. Era muito fácil saber o que era certo ou errado. Além de escapar para esse mundo, o leitor também aprendia a respeitar a lei, a obedecer as autoridades, a ser um “bom moço”.
Esse era o mundo dos super-heróis em 1940.
No começo da década de 90 os quadrinhos de super-heróis iam muito bem, obrigado. Mas, a idéia era que, sendo os quadrinhos um produto, não interessava quem os fazia. Isto é, as pessoas continuariam comprando o gibi do Batman, porque era o Batman e não interessava quem o escrevia ou desenhava. Acontece que os fãs sabiam reconhecer o estilo de desenho de seus artistas favoritos e existiam, por incrível que pareça, pessoas que compravam uma revista mais por causa dos desenhos do que pelo personagem (sim, eu confesso, sou um desses loucos). Assim, um grupo de desenhistas extremamente popular na época decidiu abandonar as grandes editoras e montar uma editora própria: a Image Comics.
A Image Comics fez história.
Porque aprendemos que não é só com desenho que se faz uma história em quadrinhos.
Jim Lee, Todd McFarlane, Rob Liefeld entre outros desenhistas montaram a sua editora e começaram a fazer seus gibis, que eram basicamente um decalque de tudo que já existia no mercado. Em maio de 1992, McFarlane criou Spawn que basicamente era um cruzamento de Batman, Motoqueiro Fantasma, Doutor Estranho e Venom. Acompanhei as primeiras edições. Na minha opinião, era o caso típico de quem tinha um personagem e não tinha história pra contar. Uma seqüência de desenhos em uma história que não contava nada. Ruim. Muito ruim.
Virou fórmula na editora criar personagens com nomes que misturavam duas palavras em inglês. Witchblade, Deathblow, Youngblood, Shadowhawk. Parecia haver a busca desesperada de criar algum personagem símbolo, algo que pudesse marcar o mercado. De toda essa cria, o mais próximo de ícone comercial foi o próprio Spawn. Virou filme e desenho animado. Foi o único título com publicação ininterrupta desde aquela época e hoje dizem que as histórias são boas e tem até uma tese de mestrado sobre ele.
Mas na maioria das vezes, os títulos apareciam e sumiam. Havia uma confusão generalizada, uma ausência de proposta ou conceito que desse substância às histórias e conseguisse captar o interesse do leitor mês a mês.
Foram “criadas” muitas super-equipes. Os X-Men, título de muito sucesso na época, foi clonado de todas as maneiras possíveis e virou até fórmula para montar super-equipes. Devem ter 7 elementos, na seguinte composição: um cara grandalhão que é o forçudo do time, o líder bom moço, o cara das lâminas, a gostosa boa de briga, a gostosa ingênua e super-poderosa, a gostosa fria e com poderes misteriosos e o marginal peludo bom de briga pra quem todas as meninas querem dar. Ocasionalmente, há um mentor da equipe, um tipo de professor ou chefe que fica nos bastidores organizando tudo. Assim foram criados WildC.A.T.s, Cyberforce e Stormwatch. Tudo muito bonito e sem proposta nenhuma. Eram o supra-sumo do produto cultural completamente vazio de significado.
Acontece que além de desenhistas, histórias em quadrinhos também são feitas por escritores. Então, quando ninguém estava olhando, sabe lá Deus por quê, gente do calibre de Alan Moore foi pra Image e começou a trabalhar com as tralhas. Moore literalmente conseguiu tirar leite de pedra. De repente, além de ver, dava pra ler um gibi da Image. A partir daí começaram uma série de pequenas mudanças e lançamentos e hoje em dia, por incrível que pareça, há quadrinhos que a Image lança que não tem nada a ver com super-heróis e são inacreditavelmente bons, como o álbum Put the book back on the shelf, uma coletânea maravilhosa de diversos artistas criando histórias curtas em cima das músicas da banda Belle & Sebastian.
Mas os super-heróis são difíceis de morrer (ou de matar) e continuavam as inúmeras tentativas. Do meio dessa bagunça toda, às vezes aparecia algo realmente bom.
Como The Authority.
The Authority. Da esquera para direita: Apollo, Rapina, Doutor, Jenny Quantum (no colo)e Maquinista, Jenny Sparks, Jack Hawksmoor e Meia-Noite. Arte de Brian Hitch.
Uma super-equipe. Sete elementos. Mas com algumas coisinhas diferentes...
As 12 primeiras histórias do Authority foram feitas por Warren Ellis (texto) e Brian Hitch (arte). The Authority é o refugo, as sobras de uma série chamada Stormwatch. Basicamente, há uma moça, fumante inveterada, mau-humorada e personalidade fortíssima, de quase 100 anos de idade, chamada Jenny Sparks. Após o fim da Stormwatch (que é absolutamente irrelevante para o entendimento da história), Jenny decide recrutar a sua própria equipe de super-heróis. Mas Jenny é uma maluca anarquista. Fuma, bebe, fala palavrões e tem uma série de idéias subversivas. The Authority não vai apenas combater supervilões e também não será uma equipe convencional. Apesar dos elementos básicos estarem lá, Warren Ellis subverte maravilhosamente o conceito de super-herói.
Pra começar, o exagero. Tudo em The Authority é monumental. No primeiro número da revista, Moscou é destruída por um exército de clones super-poderosos. Os desenhos de Hitch são fabulosos e vemos pessoas serem queimadas, destroçadas, arrasadas junto com a cidade. Milhares e milhares de mortos. A seqüência é impactante. Segue-se um exagero visual de combates, destruições em escala colossal. A partir daí, sempre há alguma cidade sendo violentamente atacada, com centenas de milhares de vítimas fatais.
A própria base do Authority é uma nave gigantesca de 70 quilômetros de extensão que vaga num espaço interdimensional, que pode estar em contato com qualquer ponto do planeta terra. (E que, segundo Grant Morrison, parece um focinho de cachorro). Isso já confere à equipe a aura de deuses, vivendo num castelo além do horizonte humano, oniscientes e prestes a intervir em qualquer lugar a qualquer hora.
As primeiras histórias são sobre o combate contra terroristas tecnológicos, inimigos interdimensionais, invasores cósmicos. Tudo super-exagerado, tudo super-intenso, super-violento, super-alucinante.
Toda essa linguagem gráfica do exagero fez a série se destacar, mas não foi apenas isso.
Ao contrário do Super-Homem dos anos 40, Jenny Sparks decide que é da sua responsabilidade não só proteger o planeta Terra dos inimigos da humanidade, como também proteger a humanidade de si mesma. O que Sparks quer é tornar o mundo um lugar melhor e está disposta a fazer o que for preciso pra isso. Aqui começou o elemento que realmente iria distinguir Authority dos demais heróis de HQ.
Nesse momento Mark Millar (texto) e Frank Quitely (arte) assumem o gibi. The Authority invade um país dominado pela guerra civil e derruba o governo. Abriga refugiados em sua nave. Começa a atacar indústrias que poluem o meio ambiente. Seus membros aparecem em programas de televisão dizendo que pretendem “tornar o mundo um lugar melhor”. O bacana é que Millar começa a usar nomes de países, governadores e empresas reais na história. Ele começa a usar a ficção alucinada da revista para mostrar seus pontos de vista usando representações de pessoas e entidades reais.
Na época que Authority começa a ser publicada (1998), ela era produzida pelo estúdio WildStorm, que tinha sido uma dissidência da Image e que agora trabalhava para a DC Comics (a editora do Batman e do Super-Homem). Essa iniciativa de usar nomes de entidades reais nas histórias chapadas do Authority rendeu uma série de atos de censura por parte da DC Comics e mais tarde iria culminar em seu cancelamento.
Assim, onde antes se lia “Jacarta” como o nome do país que a equipe estava atacando, a editora DC escreveu “Em algum lugar do continente asiático”. Era a tentativa de manter um mundo fora do nosso, sem contatos com os problemas da nossa realidade.
Mas o espírito anárquico de Authority (ou de Millar e Ellis) ia além. Antes os super-heróis eram símbolos dos mais altos valores morais, da perspectiva conservadora norte-americana. Em Authority há um desacato constante a essa perspectiva. Para começar há o relacionamento homossexual assumido entre Apollo e Meia-Noite. O mais engraçado nisso é que os dois personagens são uma referência direta à Batman e Super-Homem (pro Meia-Noite passar por Batman só faltam os “chifrinhos”). Um dos mais poderosos membros da equipe, o Doutor, é um mago capaz de transformar qualquer coisa em qualquer coisa, detentor da sabedoria de milhares de gerações de outros magos. E também é um hippie viciado que vive fumando maconha ou viajando com heroína. A Maquinista é uma cientista que aprimorou seu corpo de maneira extraordinária, usando nanotecnologia. Ela é super-poderosa e super-promíscua, transando com qualquer um ou qualquer uma da equipe (exceto Apollo e Meia-Noite, que formam um casal fiel).
O bacana ainda é que o tempo todo a postura do grupo de intervir em todos os assuntos é questionada. “Como vocês esperam não se tornar tão repressivos e cruéis quanto os governos que ajudam a derrubar?” perguntam os repórteres e a equipe responde evasivamente. Em outro momento, o presidente (na época) Bill Clinton aparece em uma das histórias alertando a equipe: “Tomem cuidado com suas ações” e recebe como resposta “E o senhor tome cuidado com as suas, senhor presidente”. Os autores mostram que as intenções destes personagens truculentos e moralmente ambíguos realmente são boas, mas por trás disso tudo há um questionamento ético. E você, se tivesse o poder de mudar o mundo, mudaria? O poder dá esse direito a quem o possui, seja uma pessoa ou uma nação?
Desenhos sensacionais, ideologia anárquica, subversão de um gênero “infantil”, total ambigüidade moral, Authority conquistou fãs e muitas críticas. O que poderia ter sido uma das obras em quadrinhos mais originais e instigantes dos últimos anos acabou sofrendo com o próprio sistema que lhe deu origem: a tal indústria cultural. A censura da DC e do grupo a que pertencia, a AOL / Time-Warner, simplesmente não podia permitir certas idéias que poderiam ofender outras instituições ou países. Isso já levantava uma séria dificuldade para a série exercer todo o seu potencial.
Além disso, havia a questão da continuidade. Uma série como Authority teria que ter um fim, o modo como as idéias se desenrolavam iriam cobrar por parte do autor um desfecho, uma conclusão. Dentro do Universo de Authority, pelo que a própria equipe se propunha a fazer só haviam duas possibilidades: ou ela teria sucesso e mudaria o Mundo para melhor ou pior, ou fracassaria.
O que aconteceu foi o 11 de setembro de 2001. O Atentado Terrorista às Torres Gêmeas. A Queda do World Trade Center.
Quando isso aconteceu, uma comoção geral tomou conta dos EUA. De repente, estavam todos estarrecidos. De repente, filmes como Independence Day já não pareciam legais com toda a sua espetacular destruição em massa.
O 11 de Setembro se tornou uma ótima desculpa para censurar qualquer idéia que questionasse as autoridades e a política norte-americana da época.
Não que os chefes precisassem de desculpas para simplesmente demitir o escritor e desenhista e colocar ali uma equipe mais submissa, mas o 11 de Setembro dava uma certa legitimidade pública para essa ação. “Vamos mandar esses caras embora porque eles são muito violentos e estamos cansados de violência. Em respeito à memória das vítimas...”
Curiosamente, Authority tinha começado um arco de histórias, que viria a ser seu arco-final, em janeiro de 2001, muito antes do tal 11 de Setembro. Em janeiro foi publicada a primeira parte de “Bravo Mundo Novo”, com texto de Millar e desenhos de Frank Quitely. Na história o Authority ameaça interferir nas decisões do G7 (o grupo dos países mais ricos do mundo) caso elas prejudiquem as outras nações do mundo. Essa é a gota d’água que leva as multinacionais e nações ricas a projetar um super-assassino que é enviado para acabar com a equipe. E consegue. Capturados e subjugados, os Authority são substituídos por uma nova equipe de super-seres, uma espécie de paródia do grupo original e totalmente obediente àqueles que “realmente mandam no mundo”. Então, essa história foi publicada na revista The Authority nº22 em janeiro de 2001 e tinha no final o famoso “continua no próximo número”.
The Authority nº23 chegou às bancas em agosto de 2001. E trazia a primeira parte de “Transferência de Poder”. Millar e Quitely não estavam mais na revista. Havia um novo escritor e um novo desenhista que escreveram uma seqüência de quatro histórias com o “novo” Authority. Eram histórias de humor, uma espécie de sátira a tudo que tinha sido feito na revista até ali... o engraçado era a sensação de que Millar e Quitely, assim como o Authority original, haviam sido capturados e substituídos por paródias de si mesmos. Um paralelo entre ficção e realidade que eu curti bastante.
A continuação da história que Millar tinha começado só foi sair em janeiro de 2002. O desenhista Frank Quitely nunca voltou e foi substituído por Art Adams (que também é bom pra caralho). Aos trancos e barrancos a última história foi publicada. Basicamente, dentro da trama, o Authority sofreu uma série de torturas e humilhações nas mãos dos seus captores. A morte era suave demais e eles precisavam ser severamente punidos por suas ações contra a ordem no mundo.
A censura da DC Comics teve com certeza muitas razões de origens práticas. Pra começar, os vilões da história eram simplesmente os empresários mais ricos do mundo e o governo dos EUA. O presidente George W. Bush aparecia desenhado em diversos momentos da história, observando os membros do Authority sendo torturados. Isso não era bom, principalmente naqueles meses pós-11 de Setembro. Então esses painéis foram redesenhados e o presidente Bush foi substituído pelo presidente interpretado por Peter Selers no filme de Stanley Kubrik, Doctor Strangelove.
Além das referências ao mundo real, a DC teve problemas com as próprias torturas impostas aos personagens. A idéia de Millar era mostrar a humilhação de cada membro do grupo para enfatizar a completa e total derrota da equipe. Por exemplo, a personagem Rapina (Swift) era uma feminista, mulher de personalidade forte e independente. Ela passa por uma série de lavagens cerebrais, no estilo de 1984 de George Orwell e acaba se tornando a esposa submissa de um dos “malvados”. A seqüência que mostra a moça como empregada doméstica teve duas versões.
Na versão publicada, ela aparecia cozinhando para o marido, que apagava o charuto no bolo que ela tinha feito e dizia que não tinha mais fome. Uma lágrima de Rapina no último quadrinho denunciava que ela ainda mantinha um traço de humanidade.
A outra versão vazou na internet e seguia mais fielmente o roteiro de Millar: Rapina lavava a louça suja usando a própria língua e, numa posição que insinuava escancaradamente sexo oral, deixava seu “marido” jogar as cinzas do charuto em sua boca. Não havia nenhum traço de emoção em suas feições. Ela tinha sido completamente transformada em objeto, desumanizada.
Muito doente na minha opinião. E por isso mesmo, muito bom!
Dentro dessa rede de degradações impostas aos personagens, o que mais me impressionou foi a punição imposta à Maquinista. A personagem em diversos momentos da série dava voz ao maravilhamento diante das paisagens cósmicas fabulosas, diante das situações extraordinárias. “Amo tudo isso aqui”, ela dizia. Privada da nanotecnologia que lhe dava poderes, ela sofre lavagem cerebral e tem sua memória apagada. Implantam novas memórias (coisa muito comum em gibi, sabia?) e transformam a Maquinista, super-mulher da tecnologia, em uma mulher mãe de sete filhos, que trabalha por um salário mínimo num mercadinho de esquina e mora num muquifo no Brooklyn com o marido que a espanca diariamente. O que me fascina nessa situação é o terrível castigo que é jogar um super-herói na ordinária vida real.
E, finalmente, há uma insinuação de necrofilia. Um dos substitutos do Authority, o Coronel (um hooligan inglês) menciona a seus superiores que tinha tesão pela falecida líder do anti-grupo, Jenny Sparks. Na versão publicada, os tais superiores enviam três prostitutas, sósias de Jenny, para o Coronel se divertir. Na versão original de Millar, o corpo da própria Jenny era exumado e entregue ao Coronel. Além de desconcertante, a seqüência revela bastante sobre o caráter dos substitutos do Authority, um bando de monstros preconceituosos e pervertidos...
Você vai ficar feliz em saber que no fim desta história toda, o grupo Authority consegue escapar de seus captores, castigar os malvados e re-assumir seu posto. Esta é a última história publicada e tenho minhas dúvidas se esse era o final apropriado.
Mais tarde o título seria relançado, mas daí já pasteurizado, com outra equipe, usando como único atrativo a ultra-violência em histórias enfadonhas. Mais do mesmo, sempre e sempre.
Isso é indústria cultural.
Por isso achei essa história tão bacana. Ao contrário das outras, ela realmente podia levar os personagens a situações extremas em todos os sentidos. Poderia matar qualquer um deles e não-haveria repercussões comerciais, uma vez que não eram personagens tradicionais. Podia brincar com a suposta inocência dos quadrinhos e usar as aventuras de um bando de loucos pra provocar os leitores a pensarem sobre o que realmente pode estar errado no nosso mundo. Mas no fim, existiam as travas. O legal da série foi ter batido nelas, foi ter provocado e feito o pessoal lá de cima mostrar que existe um padrão de comportamento a ser passado sim. Toda a subversão tem limite. Toda a liberdade de expressão tem um limite.
Mas acima de tudo, valeu a diversão das altas piras de Authority.
Sabe, acho que nunca escrevi um post tão longo. Se você leu até aqui, espero que tenha gostado.
Até a próxima.
(PS: Pensando bem, tudo isso que falei de Authority o Alan Moore já tinha feito nos anos 80 com Watchmen... possivelmente com muito mais classe e complexidade. Mas Authority vale pela porralouquice divertida...)
domingo, agosto 19, 2007
O trabalho consome o homem
Hellblazer nº61, janeiro de 1993, arte de Glenn FabryNunca se teve acesso a tanta informação quanto hoje, eu acho. Podemos acessar fácil fácil aqueles filmes bacanas que antes a gente tinha que ficar gravando de videocassete pra videocassete em velocidade 16 pra poder caber mais coisas na fita, embora a qualidade ficasse uma merda. E também não tem mais aquela história de ficar esperando a postos no rádio os caras tocarem nossa música favorita pra gente gravar no k-7. (Putz, quando o locutor começava a falar no meio da música... que merda!)
Hoje é tudo fácil. Música, filmes, imagens, pessoas. Seja o que for, o Santo Google acha pra você. Mas o que eu não esperava é que isso tudo fosse realçar ainda mais a efemeridade das coisas. Um dia você acessa uma página com um texto legal e no outro ela não está mais lá. As coisas parecem ainda mais frágeis do que antes, mais incertas, mais irreais. Páginas somem. Blogs somem. Perfis somem.
A sensação é parecida quando eu ia no shopinzinho do lado de casa pra comer e a cada dia aparecia uma loja diferente com as portas fechadas. Um dia estava lá, no outro não estava mais. Não é só no mundo virtual, é na vida real. Ir visitar um velho amigo e descobrir que ele não mora mais lá. Uma sensação estranha, um tipo de frio, uma ausência...
Claro que depois abrem novas lojas e depois fazemos novos amigos. É como as reposições nas prateleiras dos supermercados. Jamais ficaremos desamparados! Um viva! Eeeee!!!
A vida é assim, e eu preciso me acostumar com essas ausências súbitas. Feito página de internet. Feito essas pessoas que entram e saem de nossas vidas.
Puf! Feito fumaça!
Amor maldito, amor pisado, amor cuspido, amor escarrado, amor underground...
Escrever sobre quadrinhos me parece escrever sobre música. Às vezes sento pra pesquisar, pra escrever sobre a galera da Zap Comix e é inevitável ter a sensação de que estou diante de algo tão relevante para a cultura Pop quanto os Rolling Stones ou Janis Joplin. Na verdade, as coisas são bem mais próximas do que parecem. O maldito Crumb, o cabeça por trás da Zap Comix, foi chegado da Janis e chegou a fazer uns desenhos pro disco dela, o Cheap Thrills (que na verdade é um disco da Big Brother & The Holding Company, enfim...)
Ah, espere, estou sendo confuso. Você está chegando agora. Talvez você conheça a Janis Joplin, mas se você for uma pessoa normal, provavelmente não conhece a Zap Comix. Pra encurtar, ela foi uma revista alternativa produzida por uma série de artistas pirados em 1968. Robert Crumb estava na liderança desse grupo. Para saber mais sobre Crumb, procure nas locadoras o filme Anti-Herói Americano (American Splendor) que é um filme que fala sobre Harvey Pekar, mas o Crumb aparece e, enfim, acho que você vai gostar. De qualquer forma, o filme não fala sobre a Zap Comix, mas você pode encontrar em qualquer livraria a coletânea bacana feita pela Conrad Editora. Não precisa comprar, só chegue e dê uma olhada. Talvez você não goste, mas dá pra ter uma idéia do que os caras faziam na época.
Era o que se chamava Contracultura. Vamos foder com o Sistema! Paz e amor, bicho! Paz com você, amor com sua irmã... A Contracultura, os hippies, as drogas, a música... A maravilhosa e inebriante música, nosso grito de guerra, nosso mantra da libertação, a música! Janis, Hendrix, Jagger, Lennon e cia! E nos quadrinhos teve esses carinhas da Zap Comix, que atacaram de frente toda uma estrutura castrante e repressora que existia sobre os gibis. Mas eles não faziam isso pelos gibis, faziam pra atacar o Sistema. Fazia parte da luta contra o Sistema você escapar do esquema comercial. Você não podia ser vendido, não podia ser comercializado senão você faria parte do Sistema. Então esses loucos imprimiam seus trabalhos em gráficas pequenas e vendiam diretamente aos consumidores, geralmente hippies e outros loucos da época.
O trabalho dessa galera chegou ao Brasil a partir da década de 1970, em revistas como a Grilo e O Bicho e começou a influenciar as idéias de uma geração de desenhistas que ia tomar as bancas na década de 80 com Chiclete com Banana, Piratas do Tietê, Circo, Geraldão e Níquel Náusea, só pra citar alguns. Estou falando de Angeli, Laerte, Glauco, Luis Gê e uma galera de gente boa que produziu uns quadrinhos que davam voz às tribos das cidades que emergiam depois de anos de ditadura. Todo um clima, toda uma sensação que se mostrava em traços agressivos, caricatos, disformes, engraçados, pegajosos. Era época de Rê Bordosa, Bob Cuspe, Piratas do Tietê. Daí veio uma crise econômica violenta e o pessoal parou com as revistas e foi procurar abrigo nos jornais, aliás a Folha de São Paulo.
E é como a música, como a loucura dos anos 60, do movimento punk, toda essa energia pulsando num desenho grosseiro, na piada com a tragédia que parece permear nossas vidas e nós insistimos em não ver. (Ou simplesmente não conseguimos ver. Complexo demais pra entender, pungente demais pra ignorar). Não se pode vencer o sistema, e a Zap Comix está hoje completamente assimilada e à venda na Fnac. Não se pode pensar em amor livre, não se pode pensar em verdadeiramente usufruir todos os prazeres da vida, porque estamos imersos numa sociedade de consumo e consumir é nosso prazer, nosso sentido e nosso referencial de sucesso. O cartão Visa é o nosso limite. O amor é uma piada estranha, uma brincadeira que a gente pode comprar pela internet ou no barzinho hoje à noite, uma coisa descartável e vazia que insistem em vender em embalagem de luxo. E no fim todas as estradas nos levam para os caminhos do amor: o amor-próprio, o amor a nossa vida, o amor a nosso trabalho.
O trabalho enobrece o homem.
O trabalho define o homem.
O trabalho consome o homem.
Dos desenhos pegajosos de Angeli caímos nos traços lindos e maravilhosos dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá. Moças bonitas, rapazes bacanas, histórias poéticas e mágicas sobre o amor e fadas, sobre viagens para Londres e namoros em barzinhos, e lá estão os dois na lista dos 100 Top mais promissores da Entertainment Weekly. Eles são os Loucos Underground e o Underground hoje é um lugar cool pra se estar, todas as meninas são lindas e o seu maior problema é se a menina vai ou não entrar na sua.
O Underground.
Você pode dormir na rua e procurar comida no lixo, mas se você sabe que tem um lugar pra onde voltar, você nunca vai entender o Underground. E, acredite em mim, moça bonita de banho tomado, você NÃO quer entender o Underground. O Underground é uma canoa furada, uma rota suicida e não temos tempo pra casamento na igreja e trocar fraldas no lindo bebê. O Underground, o Verdadeiro Underground tem que fracassar pra ser bem sucedido.
Não se trata de escolha, não se trata de ideologia, não se trata de loucura.
Underground é apenas uma questão de que lado da cerca você nasceu.
sábado, agosto 18, 2007
Amor, sublime amor...

As tirinhas são do Paulo Gerloff, um dos responsáveis pela Banda Grossa, uma revistinha danada de bacana produzida por um pessoal lá de Joinville. Conheci o trabalho deles sábado passado, no encontro dos quadrinistas indenpendentes lá na Gibiteca.
quinta-feira, agosto 09, 2007
Comunicado (press release)
Um minuto de sua atenção. Aham...
"No próximo dia 11 de agosto, na Gibiteca de Curitiba (Rua Carlos Cavalcanti, 53), acontecerá a I Festa do Quadrinho Independente, com atrações para quem é fã de quadrinhos nacionais.
O evento apresentará as revistas Homem-Grilo #42, Garagem Hermética #3, Quadrinhópole #4 e Avenida #2.
Além disso, diversos outros títulos independentes estarão disponíveis para venda no local.
Também será realizada uma feira de quadrinhos novos e usados, com promoções especiais promovidas pela Itiban Comic Shop e pelo sebo Só Ler.
Confira a programação:
13h: Apresentação da personagem Ticlau, tema da Quarta Edição da Quadrinhópole;
14h: Mário Barroso: Mercado Editorial no Brasil;
15h: Liber Paz: Quadrinhos e Cotidiano Urbano;
16h: Cadu Simões e Leonardo Melo: Quadrinhos Independentes e o Mercado nacional;
17h: Cláudio Seto, José Aguiar e Antônio Éder: Produção de Quadrinhos Curitibanos, no meio comercial e artístico."
Então, eu vou dar uma palestra sobre Quadrinhos e Cotidiano. Vai ser um apanhado histórico geral desse século XX com uma série de historinhas curiosas. Além disso, a idéia é discutir como o mundo dos quadrinhos e o mundo real interagem. Vai ser bacana! Apareça!
Só pra dar uma palhinha, duas imagens da apresentação. Trata-se de uma página de Hogan's Alley (1896), a hq do Yellow Kid, considerada um dos marcos do início da história dos quadrinhos enquanto produto de indústria cultural. Abaixo, uma foto da Nova York contemporânea (de 1900). Como o quadrinho representava a vida urbana? Como a vida urbana reagia ao quadrinho?
Bacana, bacana!
Apareça!

domingo, agosto 05, 2007
Apocalíptico ou integrado?
Integrado. Definitivamente integrado.
Deixa eu explicar: outro dia eu estava com aquele livro “Apocalípticos e Integrados”, do Umberto Eco e um amigo me perguntou se eu era apocalíptico ou integrado. Nesse livro o Umberto Eco reúne uma série de ensaios sobre diversos tópicos em torno da tal indústria cultural. “Integrados” são as pessoas descerebradas que curtem tudo que é produzido, sem critério e sem senso crítico e são cúmplices do assassinato da verdadeira cultura e da sublime arte. “Apocalípticos” são os últimos guardiões dos verdadeiros valores, os últimos apreciadores da verdadeira arte, que assistem horrorizados a extinção da boa cultura diante da massificação. Os “apocalípticos” estão entre os pouquíssimos remanescentes, os pouquíssimos escolhidos que ainda apreciam e produzem obras de valor. Claro que o próprio Umberto diz que esse lance de rotular uma pessoa como Apocalíptico ou Integrado não funciona bem assim. São estereótipos, mitos e todo mundo vaga na grande faixa cinza entre esses dois extremos. Se bem que umas pessoas se aproximam mais de um extremo do que outras...
Enfim, eu tendo a ser um Integrado. Por opção. E quero ser alienado também. Não assisto jornal, não quero saber do novo imposto Simples, não quero saber do Calheiros, não quero saber de crise aérea. Não quero saber.
A ignorância é uma benção e quando você toma conhecimento de alguma coisa você passa a ser responsável. O problema é como você fica sabendo das coisas e o que você pode fazer a respeito.
Estava lendo o Blog dos Quadrinhos e encontrei um texto muito bacana sobre os discursos na mídia. Isso, mais uma matéria longa que a Carta Capital publicou em junho se somou ao mal-estar que sinto diante da tv. Sou um alienado por opção porque a mídia me irrita. E não é só por causa das notícias de situações desagradáveis, tragédias e desgraças que são mostradas, mas principalmente pelo modo como as notícias são mostradas. A mídia é descaradamente parcial, abusa de maneira vergonhosa de tragédias nacionais e as explora sem ética nenhuma, procurando criar estados de indignação irracional. Não há informação, há uma constante tentativa de instigar revolta e não questionamento.
É revoltante, confuso e assustador.
Integrado e Alienado.
Melhor eu não saber.
Melhor eu não saber.
Mas uma hora a gente tem que encarar a vida...
Aqui o texto do Paulo Ramos do Blog dos Quadrinhos:
Que discurso você está reproduzindo? Será realmente seu?
Já há pesquisas lingüísticas suficientes para dar crédito à premissa de que o texto, qualquer texto, é um meio de reprodução de discursos. Resta saber quais discursos são esses.
As palavras e expressões utilizadas dão boas pistas.
Um exemplo clássico é a construção "MST invade fazenda" ou "MST ocupa fazenda". Esta tende a ser pró-sem-terra. A outra destaca no verbo "invadir" o conteúdo de ilegalidade da ação e, por conseqüência, do movimento.
As duas frases reproduzem termos diferentes, que explicitam discursos diferentes, com pontos de vistas diferentes.
Há algumas semanas, este blog questionou que discurso estamos reproduzindo neste momento no país, principalmente após o acidente com o avião da TAM em Congonhas, no dia 17 de julho, que matou 199 pessoas.
O assunto é delicado por si só, dada a dor que é a perda de qualquer vida, ainda mais de forma trágica. Isso tende a tornar mais emocionais discussões sobre o assunto, que tiram a necessária racionalidade da análise.
Há também a necessidade de um distanciamento histórico para permitir uma investigação das reais causas e conseqüências dos eventos que presenciamos.
Mas, mesmo sem o distanciamento histórico e a leitura nublada pela emocionalidade vivida pela sociedade, é possível enxergar que há algo no ar. E não é no ar dos aeroportos brasileiros.
Em terra firme, duas mil pessoas (números da Polícia Militar) fizeram nesse sábado um protesto em São Paulo contra a corrupção e contra o presidente Luís Inácio Lula da Silva. Outras capitais repetiram o gesto.
Cidadãos irem à rua para dar voz a qualquer queixa é algo próprio do sistema democrático e é um recurso ainda pouco utilizado no Brasil (em comparação, a título de exemplo, com os tradicionais panelaços argentinos).
O protesto –e o direito de fazê-lo- tem de ser democraticamente respeitados, mesmo que, eventualmente, haja divergência de opiniões. Mas os motivos que levaram a esse protesto específico revelam algo vago e contraditório.
O protesto paulistano foi organizado por meio do Orkut. Embora o Brasil seja o líder mundial de usuários do site de relacionamentos, quantos brasileiros possuem o sistema? A minoria. A maioria nem sequer possui computador, vítima da rotulada exclusão digital.
Outro ponto da argumentação do protesto: os manifestantes vaiaram o governo federal, na figura do presidente, e gritaram frases como "Fora Lula".
Ao mesmo tempo, deixaram claro que não se tratava de uma manifestação que procurasse dar um "golpe" no presidente.
A mesma contradição argumentativa é vista no movimento do "Cansei", encabeçado por parte da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e incentivado por empresários paulistanos, alguns ligados ao PSDB.
O verbo "cansei", na primeira pessoa do pretérito perfeito, é intencionalmente vago, posto que não explicita o seu objeto indireto. Cansei do quê?
Encaixa-se no complemento do verbo tudo o que for ruim, inclusive o subentendido lingüístico de um cansaço do atual presidente, eleito democraticamente há menos de um ano.
Reforça essa interpretação de contradição nos argumentos pesquisa do Datafolha noticiada neste domingo no jornal "Folha de S.Paulo".
O índice de aprovação ao presidente Lula está em 48%, mesmo número registrado em março, antes do acidente com o avião da TAM.
A pesquisa mostra também que a aprovação de Lula caiu sete pontos entre os mais ricos, com renda superior a R$ 3.500.
Entre os mais pobres, com até cinco salários-mínimos (R$ 1.750), a aprovação subiu dois pontos.
A história, sábia conselheira, sempre tem a melhor e mais precisa leitura dos fatos.
Mas do que se lê e se vê no calor dos acontecimentos, os fatos revelam que esses protestos são: democraticamente justificáveis, contraditórios e vagos nos argumentos centrais e feitos por uma minoria, dona de poder aquisitivo mais alto e de fácil acesso aos meios de comunicação.
Que discurso estamos reproduzindo?
O pesquisador da USP (Universidade de São Paulo) Flávio Aguiar arrisca uma resposta em artigo publicado na edição deste domingo do jornal "O Estado de S. Paulo".
Ele dá uma outra interpretação ao termo "golpe". Não se trataria, no entender dele, de uma tomada de poder, mas de um golpe de desgaste de condições administrativas da atual gestão, promovido por quem perdeu a eleição presidencial de 2006.
A voz desse movimento –ou desse discurso- seria vista na e pela mídia. Nas palavras dele:
"No presente momento, as chamas da tragédia em Congonhas ainda queimavam, e já havia dizeres no ar e artigos acusando o governo de ´assassino´, interpretação que as primeiras investigações descartaram."
Segundo ele, é assim desde o fim do segundo governo do ex-presidente Getúlio Vargas.
Rodrigo Sá Motta, em "Jango e o Golpe de 64 na Caricatura" (editora Jorge Zahar), mostra um detalhado levantamento de como as charges veiculadas nos jornais da década de 1960 contribuíram para o brasileiro formar uma imagem negativa do ex-presidente João Goulart, deposto pelos militares em 1964.
Os desenhos dos jornais o reproduziam como um bobo. Motta diz que isso não teve necessariamente a ver com o golpe, mas contribuiu para a passividade dos brasileiros com a deposição de Jango. Afinal, "era um bobo".
A história se encarregou de desnudar o discurso por trás do desgaste de Goulart e as conseqüências disso para a vida democrática brasileira.
Pierre Bordieu, no livro "Sobre a Televisão" (Jorge Zahar), aborda o tema de outro ângulo. Ele postula duas premissas.
Primeira: a televisão, objeto da análise dele, é responsável pela criação da realidade dos acontecimentos. A TV é a principal fonte de informação na maioria dos países.
Segunda premissa: essa criação de realidade é permeada por discursos, que chegam enviesados à população.
Bordieu vê no mecanismo um risco à democracia e à saúde política de um país.
A história irá responder a tudo com mais precisão.
Mas não custa questionar que discurso estamos reproduzindo antes de emitirmos qualquer opinião -democraticamente soberana e respeitada, qualquer que seja ela- sobre os últimos acontecimentos.
Será que a opinião é realmente sua ou é o discurso de outrem camuflado na sua voz?
Novamente, a história dirá.
quinta-feira, agosto 02, 2007
De(ath)sign: Baseado em Fatos Estúpidos

O que você vai ser quando crescer?
Quando perguntam isso, o que eles querem realmente saber é “você vai viver do quê?”. É uma perguntinha inocente feita pras crianças, mais a tom de brincadeira. Só que essa pergunta meio que vai inculcando a idéia de que você é aquilo que você faz, o que é bem discutível. Existem pessoas que sabem separar direitinho o trabalho da vida. Elas sabem qual o tempo que vendem para o mercado e qual o tempo que têm para si mesmas. Admiro essas pessoas, mas não sou uma delas.
Eu acho que o trabalho é uma extensão da vida. Não consigo aceitar a idéia de fazer algo só pelo dinheiro, a menos que seja MUITO dinheiro. Ainda assim, a idéia de passar um terço ou mais do dia empenhado em uma atividade só pelo dinheiro do mês me parece meio com um seqüestro, uma vida em cativeiro. Sei lá. Pra mim tem que rolar um comprometimento maior com o trabalho que o mero salário.
Uma vez eu abri um estúdio com uns colegas. Recém tinha me formado na faculdade de desenho industrial, o tal do design gráfico. Sonhava fazer ilustrações, viver do mercado editorial e publicitário criando imagens. Admirava os carinhas “criativos”, a galera bacana que tinha seu automóvel, saía na balada e durante o dia fazia fotos, planejava imagens, campanhas de comunicação, conceitos visuais e tal... heheh. Era assim que eu sonhava minha vida como profissional do design. Parando pra pensar nisso hoje, é muito engraçado...
Outro dia uma amiga minha me passou um link desse site, o Deathsign. Meio que um blog em quadrinhos, ele apresenta histórias que misturam fantasia e um bocado de sólida realidade do cotidiano de um estúdio de design. Ler as aventuras de Marcos e seus colegas foi lembrar EXATAMENTE o que eu sentia no dia a dia do estúdio. Aliás, não só eu como provavelmente 99,9% de todos os designers viveram uma dessas situações pelo menos uma vez na carreira. Diziam até que o normal da profissão era assim mesmo: o feriado que não existia, o horário de saída que não existia, os preços de cada trabalho, que, na minha opinião, não compensavam o desgaste humano...

Enfim, meus sócios eram fantásticos, bons amigos, gente finíssima. Fiquei dois anos no estúdio. Foi o tempo que levei pra descobrir que aquela não era a minha praia. Na verdade, foi o tempo que levei pra aceitar a desilusão. Não tinha carro e balada e satisfação estética com o trabalho. Mas a realidade oferecia outras coisas. A pressão do mercado, por exemplo. Os prazos, os clientes, os valores comerciais. Na verdade, tudo parecia ser uma linha de montagem, uma coisa impessoal, crua, visceral, selvagem e irracional. Acho que pra coisa funcionar eu devia ter me desligado, deixar as coisas rolarem... mas não consegui. Acabei abandonando o barco.
Antigamente eu ficava pensando se não tinha sido fraqueza minha. Mas hoje eu acho que era mais uma questão pessoal mesmo. Afinal, todas profissões têm as suas pedreiras: medicina, direito, arquitetura, veterinária... Tenho muitos amigos que se deram muito bem na área de design, com tudo de bom e mais um pouco. Claro que as coisas não foram fáceis pra eles. Provavelmente enfrentaram os mesmos problemas que eu. Mas eles souberam contornar. Acho que eles, de certa forma, gostavam da pressão, da loucura do dia a dia. Olhando pra essas tirinhas do Deathsign, eu percebo que deve ter algo que essas pessoas adoram nessa área de trabalho. Esse “algo” que deve mantê-las na área. Uma paixão incompreensível, uma satisfação pessoal extraordinária que compense todas as mesquinharias.
Só não consigo imaginar o quê.

(Gente, eu gosto do design, tá? Só não curto o mercado...)
OPTIMUS PRIME

Sabe tudo aquilo que escrevi sobre o Barricade, lá embaixo?
O Optimus Prime é tudo aquilo e muito mais. É puro origami.
Optimus Prime "Leader Class".
Péssimo como brinquedo, mas é show de bola na estante.
Hehehhe...





(Dá pra imaginar o barulhinho de transformação?)






Simplesmente sensacional!
U-HUUUUU!!!
(Fotos do site seibertron.com)
(SIIIIIMMM, EU COMPREI UM!!!! HAHHAHAHAHAHHA!!!!!)













