terça-feira, janeiro 22, 2008

assuntos inacabados, dias incertos...

Fazendo faxina juntei uma pilha de livros que emprestei de um monte de gente e nunca li. Comecei a resolver certas pendências.

Li rapidinho Cobras e Piercings, da Hitomi Kanehara, uma japonesinha que nasceu em 1983 e já tem livros premiados e traduzidos aqui no Brasil.

Tentei retomar a leitura de O Homem Duplicado de José Saramago, mas não consigo entrar no mood da coisa. Estou parado na página 213 desde fevereiro de 2006. Ainda bem que o Jabá não tem pressa em ter o livro de volta.

Talvez livros sejam como pessoas, sei lá. Começar a ler é como começar um relacionamento e existem relacionamentos inesquecíveis e outros nem tanto.

E há os relacionamentos inevitáveis.

Fatais.

De qualquer forma, relacionamentos simplesmente começam, acontecem e forçar não é um bom caminho.

Comecei a ler Amigos e Vinhos, Mulheres à Parte, de Rex Pickett. O livro que virou um dos meus filmes favoritos: Sideways, com os ótimos Paul Giamatti e Thomas Haiden Church.

Miles parte com seu amigo Jack em uma viagem de uma semana visitando os vinhedos da região. Jack vai se casar e essa é uma espécie de “despedida de solteiro”. Além do vinho, os dois acabam encontrando Maya e Terra, duas mulheres bem interessantes e... uma coisa leva à outra.

O interessante é o personagem Miles. Sua grande paixão são os vinhos, que degusta e analisa como um expert. Miles quer ser escritor, mas não tem sido bem sucedido e acumula uma pilha de cartas de rejeição de diversas editoras. Também ainda não se recuperou do divórcio. O espaço deixado por Victória, sua esposa, jamais foi preenchido. A lembrança dela o acompanha diariamente, esvaziando-o, consumindo-o. E ainda tem a sua situação financeira, tão miserável quanto sua situação moral: chega a furtar sua própria mãe para conseguir o dinheiro da viagem.

Miles se agarra à sua depressão. Carrega bem apertado junto ao peito cada lembrança dolorosa, cada não. E diante de novas possibilidades ele se fecha. Assume atitudes auto-destrutivas e parece se sabotar a cada passo. Como se estivesse se punindo. Quando Maya, um mulherão espetacular, começa a lhe dar bola, o cara simplesmente não consegue acreditar que ela realmente esteja interessada e comete uma cagada atrás da outra.

Enfim...

Assuntos inacabados. Coisas do passado que você olha hoje e fica pensando por que não resolveu, por que não levou em frente, por que...

Como uma história de fantasma. O cara que morre, mas não consegue partir, não consegue descansar, porque não consegue aceitar que acabou. Porque tem uma porta que deve ser fechada ou aberta em algum lugar lá atrás. Um nó pra ser desatado.

Uma coisa, um pensamento.

Uma sensação.

Que sempre está lá.

Incansável.

Imortal.

Você percebe que a coisa é pra valer quando se olha no espelho, quando se escuta à noite. Você pode dar um tempo, dar voltas, mas esquecer não é uma opção. Você tem que voltar e resolver. Talvez usando novos olhos, talvez sujando as mãos, talvez até com leveza... mas, cedo ou tarde, de um jeito ou de outro, você tem que voltar, encontrar o nó e resolvê-lo.

Não importa como.

Isso não pode ficar assim.

2 comentários:

racg68 disse...

Ainda bem que não é só o Jabá que não tem pressa em ter o livro de volta.

Bernardo disse...

oi! Muito bacana o blog. gostei das idéias sobre os livros inacabados e o sideways, um dos meus filmes prediletos. Conheci teu blog pelo blog do Paulo Biscaia. Abraço,

bernardomoraes.blogspot.com