domingo, janeiro 27, 2008

Ensaiando



Antes de mais nada, não se trata de resenhas, são mais um apanhado de impressões pessoais.

Eu ia comentar que ando com sorte pra pegar filmes ultimamente. Semana passada peguei o Reine Sobre Mim, que me surpreendeu bastante. Pra começar tem o Adam Sandler. Não sou fã do cara e acho muitos dos filmes dele simplesmente dispensáveis. Estranhei ver o homem num drama e estranhei mais ainda ler um ou outro comentário positivo.

(Por outro lado, tinha visto ele no diferente Embriagado de Amor, e gostei bastante. Vai ver é só uma questão de superar preconceitos.)

Em Reine Sobre Mim o Sandler divide o filme com o Don Cheadle e a história versa sobre amizade e superação de perdas. No caso, a perda da família inteira em um acidente de avião.

Mas não é um dramalhão choroso. É bem bacana. Talvez seja uma questão de momento pessoal, mas gostei bastante. Acho que o modo como filme trata a amizade foi bacana. Uma amizade que não era só feita de "curtir os bons momentos", mas principalmente se ajudar, ajudar de verdade, quando a barra fica realmente pesada, quando o desespero se muda de mala e cuia pra nossa casa.

E ontem assisti Paris, Eu te Amo. É um filme formado por uma série de curtas dirigidos por várias figurinhas. Wes Craven, Alfonso Cuarón, Joel e Ethan Cohen, Tom Tykwer, Guns Van Sant, Walter Salles, Daniela Thomas e mais uma galera. Acho que no todo são uns 18 ou 19 contos de amor e as ruas de Paris estão lá, bem vivinhas.

O cartaz do filme é um barato. Como são histórias de amor em Paris, temos diversas fotos de vários ângulos da torre Eifel formando um coração que parece coberto de espinhos. Os vários ângulos das fotos parecem se referir aos vários pontos de vista dos curtas a respeito do mesmo tema, o tal amor.



Antes de começar a escrever esse texto dei uma olhada básica na internet e achei algumas resenhas a respeito do filme. Textos feitos por jornalistas e especialistas em cinema, pessoas supostamente com formação e conhecimento para discutir e analisar um filme. Digamos assim, "autoridades" no assunto.

Encontrei desde resenhas completamente neutras até análises do filme que incluíam depoimentos pessoais do jornalista. E achei uma resenha mais "séria" que, de maneira fria e metódica, dissecava o filme e "provava" que se tratava de uma obra menor e sem importância. Uau.

Particularmente, eu gostei do filme. Como é um amontoado de curtas feitos por diretores díspares como Wes Craven (de A Hora do Pesadelo) e Walter Salles (Diários de Motocicleta), é lógico que o filme tem um resultado bem heterogêneo e cada um vai gostar mais de uns filmes do que de outros.

Foi essa heterogeneidade, essa diversidade que me conquistou. Avaliando o final, temos ótimos resultados. Curiosamente, as resenhas que li antes de começar a escrever esse texto divergiam entre si em diversos pontos. Os curtas que um crítico considerava os melhores eram execrados por outro. As qualidades que um apontava eram vistas como defeitos por outro.

Essa semana uma moça me passou um conto que ela tinha escrito pra eu ler. Ela queria minha opinião. Uau, que responsa.

É estranho escrever algo, filmar, desenhar, e depois esperar o parecer de outra pessoa. Embora a crítica tenha uma função de diálogo e supostamente de auxiliar a pensar sobre padrões e qualidades, às vezes as resenhas parecem ganhar aquele peso de veredito. "Eu te sentencio a ser uma droga de filme".

É uma coisa meio complicada. Tem aquela história do Monteiro Lobato e da Anita Malfatti. Em seu artigo Paranóia ou Mistificação - a propósito da exposição Malfatti (publicado em 1917), Lobato faz uma crítica contundente aos artistas modernos através da primeira exposição de pinturas da Anita. Ela nunca mais pintou nada, nunca conseguiu se recuperar da paulada de Lobato.

Em parte, acho que muito da culpa era dela mesma. Ela poderia ter insistido e continuado a pintar. Sei lá.

Numa das palestras do Ilustrando em Revista da Editora Abril, uma ilustradora disse que, no começo de sua carreira, ela não se sentia segura e precisava de que alguém chegasse "com uma espada, tocasse meu ombro e dissesse eu a consagro sir ilustradora".

O filósofo Alain de Botton escreveu em seu livro Desejo de Status, que a busca por sucesso e aclamação da crítica na verdade é apenas a boa e velha busca por amor. Parece que precisamos de aprovação, mas antes de tudo, parece que precisamos ser ouvidos.

Li o conto da moça. Mas minhas impressões eu passei só pra ela.

Acabei relendo A mulher mais linda da cidade, aquele conto do Bukowski. Quando li A mulher mais linda pela primeira vez, achei muito bom. Mas dessa vez achei algo... comum. A velha história do personagem trágico com final trágico. Eu me sinto meio herege falando isso de um conto do velho Bukowski, mas tenho a impressão que a figura da "moça problemática com personalidade forte e alma boa que acaba sucumbindo diante da indiferença da vida" está meio batida. Sei lá.

E agora estou com essa idéia na minha cabeça. A idéia do conto, do seu funcionamento. Paris, Eu te Amo veio bem a calhar, pra ajudar a pensar sobre a história, o episódio, a quantidade de informações a ser colocada no momento do conto e as brechas a serem deixadas para o leitor preencher.

E no fim, tudo parece ser um longo ensaio antes do mergulho. Filmes, contos, diálogos de Reine Sobre Mim, enredos e modos de contar histórias de Paris, Eu te amo, longas resenhas, conversas sobre literatura, escrita automática, pensamento errático. Tudo é um longo ensaio antes do mergulho e a água está bem lá embaixo e parece longe, longe, longe.

Devia ser simples, devia ser só deixar o corpo cair e as coisas acontecerem. Porém, apesar de saber que é seguro, que um monte de gente mergulha todo dia e sai sem nenhum osso quebrado, há um medo irracional da queda. Um pavor do inapreensível momento em que o corpo se desprende no vazio...

Ainda do Bukowski estava lendo as Notas de Um Velho Safado, uma coletânea de textos que ele escreveu sem exigências ou pressões editoriais. No prefácio, datado de 1969, o velho escreveu:

"Então, um dia depois das corridas, sentei-me e escrevi o cabeçalho, Notas de Um Velho Safado, abri uma cerveja e a escrita se fez por si só. (...) Parecia não existirem pressões. Era só sentar próximo à janela, erguer uma cerveja e deixar que viesse. (...) Pense nisso você mesmo: liberdade absoluta para escrever qualquer coisa que você quiser. Foi mesmo uma época muito boa, e séria também, às vezes; mas eu senti principalmente, à medida que as semanas iam passando, que a escrita ia ficando cada vez melhor".

Palavras da salvação.

4 comentários:

racg68 disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Falar mal do Bukowski?
HERESIA, HERESIA, HERESIA...Você será queimado no fogo do inferno.

Abraço do seu amigo(adivinha quem?).

Anônimo disse...

Ei, este "anonymous" aí não sou eu.

Mais textos filosóficos, por favor.

Sobre a vida, o universo e tudo mais.

Vc tem potencial.

[]'s

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LVR

Anônimo disse...

Salve "velho amigo",

Qual é a marca do carro do Lex Luthor em Smallville ?

Vc é HQ maníaco, então acho que deve saber.

Thanks.
8-)))
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LVR