quarta-feira, janeiro 16, 2008

Expectativas



Uma imagem pode gerar muitas expectativas. Palavras também. É como se fosse feita uma promessa. A imagem nos atrai, desperta nossa imaginação. Ficamos fantasiando possibilidades, preenchendo as lacunas, os detalhes...

Mais ou menos em maio de 2003 eu andava meio ansioso. Entrava no site da livraria, ia na loja especializada. Estava pra sair uma graphic novel chamada 30 Dias de Noite.

Sempre gostei de histórias de terror. Quando tinha 12 anos me deliciava com os livros de Stephen King. O conto Jerusalem’s Lot, que está no livro Sombras da Noite, é uma história de vampiros. Se lembro bem, porque já vão umas duas décadas desde que li, era uma história boa pra caralho sobre vampiros e livros malditos. Do tipo que me fez ficar acordado à noite olhando pras sombras dos cantos do quarto esperando algum tipo de movimento... História de terror das boas!

Daí começaram as notícias sobre este 30 Dias de Noite. No site da editora Devir eles publicaram o texto de apresentação da história feito pelo Clive Barker (ninguém menos que o criador da série Hellraiser) e mais alguns textos do que a crítica especializada norte-americana tinha dito sobre o álbum, na época de seu lançamento em 2002.

“A história em quadrinhos em suas mãos tem muito da energia crua, até mesmo brutal, de um filme de terror dos bons e velhos tempos. Curto, afiado e impiedoso”.
Clive Barker

“O escritor Steve Niles brinca com medos comuns de isolamento, escuridão e monstros numa história que dá mais calafrios que o seu cenário. Um bom escritor poderia extrapolar qualquer um desses temores numa história excitante, mas Niles foi bem-sucedido ao apertar todos esses botões com a freqüência certa para produzir uma história que não é apenas de dar calafrios, mas realmente assustadora”.
The A-List, Jim Johnson, Comic Buyer’s Guide


“Acima de tudo, 30 Dias de Noite funciona como um filme de terror – um grande filme de terror. Se você tem sede de algo com a garantia de assustá-lo até arrancar suas calças, você precisa escolher este livro. Mas vá por mim: leia com as luzes acesas”.
Casey Seijas, Wizard Magazine


Baaaaaa, tchê! Tri-legal!


A sinopse era promissora: no norte do Alaska está a mais setentrional das cidades norte-americanas – Barrow. Ela se encontra dentro do Círculo Polar Ártico. Portanto, além do frio animal, lá o “sol não se põe entre 10 de maio e 2 de agosto e não nasce entre 18 de novembro e 17 de dezembro”. E são esses “trinta dias de noite” que atraem para a cidade um grupo de vampiros sedentos de sangue. Sem a luz do sol, a única coisa capaz de deter os sanguessugas, só resta aos habitantes tentar sobreviver ao fim da mais longa das noites...

Eu mal podia esperar pelo lançamento.

Então a revista saiu.

Que bosta.

Que... bosta.

Tem um monte de coisas nessa história que me incomodaram. Pra começar, a história em si.

Atenção: a partir daqui... SPOILERS!!! Isto é, vou entregar a história. Mas como ela é muito ruim, vai por mim, leia aqui e se poupe.

Pra começar o desenho. Na introdução o Clive Barker escreve: “Ben Templesmith forneceu a 30 dias de noite um estilo gráfico reduzido ao essencial. Todas as redundâncias foram removidas”. Isso é uma maneira bem educada de admitir que o Ben é um preguiçoso da porra que não quis desenhar cenário nenhum. Toda a arte é um monte de efeitos e cores de photoshop, filtros e desfoques. Os personagens são alguns narizes e olhos fotografados e aplicados de qualquer jeito em cima de um desenho muito jaguara. Não há detalhes. Talvez até o Templesmith seja um pusta ilustrador (curti muito as capas) mas a escolha de rumo pra arte da história foi muito infeliz.

(Ah, as três primeiras capas lá em cima não são do Ben, são do Ashley Wood. Acabei de ver no site...)

Bom, e tem o Niles, o escritor...

Ele não faz uma história de terror. Ele faz, na melhor das hipóteses, uma premissa pra RPG. Os diálogos soam falsos, forçados, não convencem, não tem emoção. Os vampiros são organizados como um grupo de gangsteres. Eles têm um chefe, organização política e tudo. Podia ser legal, mas do jeito que se mostra fica parecendo mais um decalque dos vampiros da Anne Rice em Entrevista com o Vampiro. Aliás, tem até a menininha vampira.

O casal protagonista é de doer. Dois policiais, casados e felizes (muito felizes, felizes mesmo) que assistem ao por do sol juntinhos. Fofo. Um amor lindo e verdadeiro. Que nem fruta de plástico.

Daí, no final, acontece a coisa que estraga, caga, destrói a história completamente. O Policial decide injetar sangue de vampiro em si mesmo pra virar vampiro e poder enfrentar os malvados.

É. É isso que ele faz.

Daí ele vira vampiro, sai pra rua e enfrenta o vampiro maioral, o líder, o mais poderoso e mais velho de todos, que tinha acabado de trucidar com facilidade um vampiro rebelde. E sabe o que acontece? O ÓBVIO. O Policial, vampiro há cinco minutos, vence o vampirão de mil anos de idade! Sabe por quê? Por que o bem sempre vence no final. Por isso. Legal, né?

Mas não é só isso. Os vampiros que assistiram tudo e que estavam em vantagem de 18 pra um, simplesmente vão embora. Eles não se juntam pra matar o Policial, eles vão embora, intimidados pela “moral” do homem.

Que... bosta.

E não acaba aí. O nosso policial apaixonado despede-se da amada com aquele discurso bem meloso: “Eu poderia viver para sempre, mas não quero respirar nem mais um segundo se não puder me lembrar de como é amar você”. E daí ele vira purpurina ao nascer do sol.

Ah, vatifudê!

Espere. Ainda tem os caçadores de vampiros. Uma dama vodu lá de Nova Orleans (outra referência à Entrevista com o Vampiro?) que manda seu filho (?) pra filmar o encontro da vampirada em Barrow e provar que os sanguessugas existem. Mas se esses dois personagens fossem cortados, não ia fazer diferença nenhuma pra história. NENHUMA.

Tanto é que na adaptação pro cinema, eles foram cortados.

Ah, é, deixa eu falar da adaptação pro cinema.


O filme foi adaptado e estreou nos cinemas norte-americanos em outubro do ano passado. Recebeu uma resenha muito boa do meu site favorito de assuntos aleatórios, o Omelete.

(Nessa mesma resenha, a história em quadrinhos é elogiada e considerada "ótima". Se você quer saber quem tem razão, eu ou o Omelete, compre 30 dias de noite na comic shop ou livraria mais próxima e tire a dúvida. Por própria conta e risco.)

Segundo o Omelete, o filme apresenta duas modificações sensíveis em relação à história em quadrinhos original:

a) Os caçadores de Nova Orleans não são nem mencionados.

b) O casal apaixonado dos quadrinhos está em crise, prestes a se separar.

E são essas pequenas mudanças que me fazem ter fé no filme (mesmo tendo o Niles como um dos roteiristas). Só o fato de que não vai ter o “estilo gráfico reduzido ao essencial”, livre de “redundâncias” já me deixa mais empolgado. Talvez no cinema a história seja aquilo que os quadrinhos tinham prometido e não cumpriram. Um filme que acaba sendo melhor do que a obra que o inspirou (o que, nesse caso específico, não é lá muito difícil). Seria bom que o final do filme apresentasse algo mais sensato que o “vampiro herói”, mas enfim...

Bom, e afinal quais as minhas expectativas?

Desde o começo, eu queria uma história que não mostrasse vampiros humanizados. Não acho bacana. Eles podem até ser racionais e tal, mas não deveriam mostrar eles conversando entre si e fazendo piadas. Isso corta totalmente o clima de horror. E o final teria que ser diferente. Não interessa se ia ter o "bem vencendo o mal", ou se ia terminar estilo tragédia (que seria mais apropriado para uma suposta "história de terror realmente assustadora"). A solução apresentada na HQ não é aceitável.

Na verdade, eu queria que ela fosse a "história de terror" prometida pelo Clive Barker. Acho que foi isso que mais me decepcionou. Propaganda enganosa.

Vou esperar pelo filme...

Tomara que vingue...



(30 dias de noite está em cartaz aqui no Brasil desde 07 de dezembro. Menos aqui em Curitiba. Aqui nem deu sinal de estréia. Em compensação Xuxa em Sonho de Menina está em cartaz em nove salas. Legal, né?)

Um comentário:

Anônimo disse...

Obrigado você me poupou de assistir a mais um engodo de Hollywood. Eu já suspeitava que esse filme seria uma merda, assim como os ultimos sobre vampiros. Espero que eles acordem a tempo e realizem meu sonho de ver um filme sobre vampiros que realmente me deixe de cabelos arrepiados e com medo de sair a noite...uhhh.