domingo, janeiro 06, 2008

Feliz Ano Novo

Eu vinha pela estrada quando o acidente aconteceu lá longe, lá na frente. Não vi direito o que aconteceu, só sei que um carro estava onde não deveria e, de repente, aqueles carros, lá longe, parecendo tão leves, se desfazendo em tiras feito papel. Lá longe, lá na minha frente. Tão rápido. Primeiro vi a colisão, só depois de um tempo chegou o som. A freada, a batida. Como um quebrar de ovos. E talvez um grito. Súbito demais, curto demais. Foi um grito? E daí eu sabia que gente tinha morrido.

O trânsito estrangulou, quase parou. Ganhou aquele ritmo de cortejo fúnebre. O acidente ia chegando perto. Algumas pessoas tinham parado. Sinalizavam, caminhavam em volta. Um carro em chamas fora da estrada.

Chegando mais perto dava pra sentir o cheiro. Foi o que mais me marcou. Não o motoqueiro caído e torcido de um jeito impossível, o rosto virado pra trás invisível. Não o chinelo, as mudas de roupa espalhadas pelo asfalto. Foi o cheiro. Mais forte que a fumaça, que a borracha queimada na freada. Era o cheiro do ferro que corre nas nossas veias. Cheiro quase visível, rubro. Sol se pondo.

Passa o acidente o carro ganha velocidade de novo. Mãos geladas. Uma maré ácida dentro de mim. O cheiro. No banco de passageiro ao meu lado o bloco de viagem aberto nas resoluções de ano novo.

Voltar a correr, tocar com a banda, aprender a dançar tango. Uma lista boba de pretensões. As palavras me vêm à cabeça junto com a imagem do motoqueiro. Ainda sinto o cheiro.

Paro o carro no posto. Vou ao banheiro. Mijo tremendo. Compro uma água mineral. Sento no carro e pego o bloco. Risco uma a uma das resoluções. Ao final escrevo “NÃO PENSE, FAÇA”.

Retomo a estrada.

2008 começa com o cheiro da vida e o gosto da morte.

2 comentários:

racg68 disse...

Uau!
Que agouros para este ano, hein?!

Anônimo disse...

Velho Amigo,

Este foi um post EMO ?

Pois é, a morte, e em ordem de preferência, a dos outros; nos faz pensar em nossas pequenas e frágeis vidas...

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LVR