quinta-feira, janeiro 17, 2008

Traços característicos...


Estou participando de algumas atividades do evento “Ilustrando em Revista”, promovido pela Editora Abril aqui na cidade por esses dias.

Ontem teve um bate-papo bem bacana lá no Memorial de Curitiba com os ilustradores Orlando Pedroso e Rogério Borges. Os dois são feras, começaram a carreira lá pelos anos 70 e tem muito, muito talento. Deram uns toques bem legais.

Por exemplo, mostrar a cara. Hoje com internets, blogs, orkuts e tudo mais é bem mais fácil mostrar a cara, apresentar os trabalhos e tals. Mas o problema é que antes disso você precisa ter realmente o que mostrar. É aí que a coisa pega. Pega mesmo.

Fiquei pensando nisso.


Arte de Rogério Borges

O desenhista (ou ilustrador) precisa achar seu traço tanto quanto o escritor precisa achar sua voz. Pra isso tem que ter comprometimento, tem que ter um tipo de relação que envolve dedicação e disciplina. Mas também é preciso muito cuidado pra não sufocar com o próprio perfeccionismo.

E é uma coisa engraçada isso. Porque o desenhar tem esse lance de ser uma dança com os espaços em branco, de ser uma brincadeira de movimento do braço, de suspensão da autocrítica e dos medos. O desenhar deve (ou deveria ser) como uma boa conversa, deveria fluir e a entrega deveria ser tão completa que quando nos damos conta... “nossa, como o tempo passou!”. O desenhar deveria ser prazer, como o cantar ou o musicar. Ou o amar.

Claro que tem dedicação, disciplina e comprometimento, mas não naquele sentido espartano. Não se pode sentar pra desenhar como quem vai pra academia pensando em perder peso. No desenho o mais importante não é o final, mas o processo. O caminho. Aliás, como praticamente tudo nessa vida.

Tenho saudades das aulas de desenho na faculdade, com o professor Sérgio. Ele enxergava esse lado mais zen do desenho. Ou pelo menos assim me parecia.

Lá na palestra com o Orlando e o Rogério falaram sobre aquela história de que todo mundo sabe desenhar. E é verdade. Quando crianças todo mundo desenha. Mas é aquele que continua desenhando quando adulto que vira o Desenhista.

Na verdade, eu diria que é aquele que não consegue parar de desenhar.


Arte de Orlando Pedroso

Eu tenho essa relação mal resolvida com o desenho. Uma mistura de autocrítica lazarenta com preguiça sem-vergonha. Quando piá, desenhava histórias em quadrinhos de longas páginas. Voltava da missa no sábado à noite e ficava desenhando até três, quatro horas da manhã. Eu tinha uns dez anos na época.

Daí fui deixando de lado. Sei lá. Às vezes voltava pro desenho, mas nunca por muito tempo. Tipo um escritor bissexto, sei lá. Acho que era uma autocrítica feroz, uma vontade de produzir algo indefectível, um perfeccionismo nocivo. Ou pura bobeira.

Eram meses, anos longe do papel, entremeados por períodos produtivos. Tive surtos de produção entre os 16 e 19 anos, depois veio a faculdade e entre os 26 e 27 anos fiz as ilustrações pro livro da Alice no País das Maravilhas como projeto de conclusão de curso na faculdade. Foi um parto, foi uma guerra. Quando os aviões se chocaram contra as torres gêmeas eu estava desenhando.

Minha Alice

Juntei-me com dois amigos e montamos um negócio de ilustração e animação. O problema é que não agüentei o tranco. À parte minhas nóias particulares com o desenho, tinha o pequeno detalhe do “mercado de trabalho” e o “mercado de trabalho” pra desenho é tão difícil quanto qualquer outro. Era dureza, às vezes de domingo a domingo, sem horário pra sair do estúdio. Acabei deixando a empresa. Enfim...

Ontem mostrei minhas ilustras pro Orlando e ele fez uns comentários bem pertinentes. Daí fiquei pensando num monte de coisas. Acho que esse ano vou tentar resolver de vez essa minha relação com o desenho. Essa coisa tão íntima e tão essencial.

Encontrar o traço perdido.

Mais ou menos como encontrar a si mesmo.

Ou aprender a voar.

(Pra ver mais coisas do Orlando, veja o site dele aqui. Já o Rogério Borges, eu procurei mas não encontrei muita coisa. Se alguém puder passar um link bacana, agradeço.)

4 comentários:

bristol calling disse...

ou fazer gravura, ou fazer animacao... eh, entendo perfeitamente! E nao desenho p... nenhuma por pura falta de coordenacao! Mas brincar de massinha eh legal! ;b

Liberland disse...

Isso, isso!
Desenhar, cantar, escrever, animar com massinha, de certa forma acho que o processo acaba sendo o mesmo. Digo, essa coisa de procurar uma linguagem própria, um estilo, uma voz.
Valeu, Rô!
Bjs

Anônimo disse...

Salve "Velho Amigo",

Bateu uma curiosidade...

Vc faz o quê da vida hoje ?

Fez Eletrônica, depois Desenho...
E depois ?


[]´s
---
LVR

Wilton Pacheco disse...

Tambem busquei mais sobre Rogério Borges, mas devo ter seguido o mesmo caminho que vc, o Google, deve ter um mundo maior lá fora eheh. Onde mostra todo o talento dele.