domingo, fevereiro 24, 2008

Podemos rir de Deus?


Assisti O Nome da Rosa. Era uma daquelas lacunas inexplicáveis na minha bagagem cinematográfica (que não é lá grande coisa, mas enfim...)

Filme de 1986, já tinha passado algumas vezes na tv, nas noites da Band. Vi alguns trechos, mas nunca inteiro. Daí uma amiga emprestou o dvd.

O que mais atraía minha curiosidade em O Nome da Rosa era o fato de ser baseado em um romance do Umberto Eco. Tenho esse livro na minha estante há alguns anos, mas também nunca li. (Mais um causo pra série "lacunas inexplicáveis"...)

Mas li textos teóricos do Umberto Eco. Seis passeios pelos bosques da ficção, Apocalipticos e Integrados, Tratado Geral de Semiótica. Queria ver como o teórico se saía na prática. Lógico que então eu deveria ler o livro, mas como o filme literalmente "caiu" no meu colo, eu o vi primeiro.

Produção muito bem feita. Diretor francês, atores de diversos países, fotografia legal. E a história, que eu já mais ou menos conhecia, é muito bacana. Misto de aventuras de detetive com medievalismo. Lógico que Umberto Eco vai um pouco mais longe que isso e, nas entrelinhas, podemos ver muito mais coisas. O filme me deu uma vontade danada de ler o livro e, enquanto não fizer isso, não posso estabelecer comparações significativas.

Mas olhando só para o filme dá pra encontrar muitas qualidades específicas da imagem. A escolha do elenco por exemplo. Além do Sean Connery no papel principal, encontramos atores com formatos de rostos bem característicos, expressivos, como o Ron Perlman. Com o reforço de uma iluminação adequada, esses rostos fazem lembrar as pinturas da época, principalmente de Hieronymous Bosch, e ajudam a construir a identidade visual do filme. É o bizarro feito cotidiano.

Ron Perlman como o corcunda Salvatore

Obra de Hyeronimous Bosch

A religião é o sistema que ordena o mundo de O Nome da Rosa. Ela organiza os comportamentos e o sentido da vida. E a Igreja Católica dita todas as regras da religião. Olhando bem, a religião fica em segundo plano e tudo passa a ser uma questão de dominação política. Idéias que questionam a veracidade das Escrituras ou que apresentam outras visões de mundo são ameaças ao status quo. Daí vem a Santa Inquisição, mais interessada em punir e manter a Ordem do que em salvar almas, é óbvio.

Em O Nome da Rosa a religião é fundamental para compreender o mundo e os embates entre a razão e a fé sempre são instigantes. Guilherme, o personagem de Sean Connery, é uma espécie de Sherlock Holmes. Onde os outros vêem mortes sobrenaturais e prenúncios do Apocalipse, Guilherme enxerga a ação humana movida por um propósito.

No fim trata-se de saber quem está com a razão, quem está com a Verdade. E veja como é essa questão de cultura e visão de mundo: certos conceitos independentes acabam tornando-se sinônimos. Por exemplo, nesse filme, religião e igreja católica são indissociáveis, quando, a meu ver, não é bem assim. Depois, a Razão e a Verdade são apresentadas como sinônimos através do personagem Guilherme. Mas a questão é muito mais complexa e vai muito mais longe.

À parte essas elucubrações sobre Verdade, Razão e Fé, tem um diálogo no filme que eu acho muito legal. Há uma biblioteca labiríntica (outra jogada visual muito bacana) onde os personagens Guilherme e Jorge se confrontam. Tudo gira em torno de um livro sobre comédia, escrito por Aristóteles e a determinação de Jorge de que monges não devem rir.


“Mas o que há de tão alarmante em relação ao riso?” pergunta Guilherme.

“O riso mata o temor”, responde o venerável Jorge. “E sem o temor, não pode haver fé. Pois, sem temer o demônio, não há necessidade de Deus.”

“Mas não eliminarás o riso eliminando esse livro.”

“Certamente que não. O riso continuará sendo a recreação do homem comum. Mas o que acontecerá se, graças a esse livro, homens cultos admitirem ser permissível rir de tudo? Podemos rir de Deus?”

Boa pergunta.



2 comentários:

Wilton Pacheco disse...

Muito legal tua crítica ao filme, a comparação aos quadro do Bosh foi surpreendente.

Kiki­ disse...

Também gostei dessa crítica. Eu assisti o filme na escola, durante uma aula sobre medievalismo. Gostei tanto e vi mais uma vez em VHS, uma vez na TV e qualquer dia alugo para ver em DVD. Mas também tenho essa lacuna inexplicável porque nunca li o livro. E pior, nunca li nada de Umberto Eco! =[