sábado, março 15, 2008

Tropa de Elite em Três Momentos

Primeiro momento: Uma Piadinha.

Um advogado dirigia distraído quando, num sinal PARE, passa sem parar, mesmo em frente a uma viatura do BOPE. Ao ser mandado parar, toma uma atitude de espertalhão:


Policial: Boa tarde. Documento do carro e habilitação.

Advogado: Mas porquê, policial?

Policial: Não parou no sinal de PARE ali atrás.

Advogado: Eu diminuí, e como não vinha ninguém...

Policial: Exato. Documentos do carro e habilitação.

Advogado:Você sabe qual é a diferença jurídica entre diminuir e parar?

Policial: A diferença é que a lei diz que num sinal de PARE deve parar completamente. Documento habilitação.

Advogado: Ouça policial, eu sou Advogado e sei de suas limitações na interpretação de texto de lei, proponho-lhe o seguinte: se você conseguir me explicar a diferença legal entre diminuir e parar eu lhe dou os documentos e você pode me multar. Senão, vou embora sem multa.

Policial: Muito bem... Pode fazer o favor de sair do veículo, Sr. Advogado?

O Advogado desce e é então que os integrantes do BOPE baixam o cacete, é porrada pra tudo quanto é lado, tapa, botinada, cassetete, cotovelada, etc. O Advogado grita por socorro, e pede pra pararem pelo amor de DEUS.

E o Policial pergunta: "Quer que agente PARE ou só DIMINUA?"



O bacana dessa piada é que ela pega uma parte especial espírito do filme Tropa de Elite. Muita gente falou que uma das razões do filme ter feito o sucesso que fez, foi o fato de servir de catarse pra todo rancor que os brasileiros têm contra os espertalhões, os corruptos e toda aquela gente que aparece com a maior cara de pau nos noticiários. E essa piadinha faz isso: o espertinho que quer tirar vantagem com o velho discurso do "veja bem...", sorriso malandro e ginga é tratado na base da bicuda de coturno. Pra mim, essa piada apresenta bem o problema de personalidade dividida de brasileiro: ao mesmo tempo em que temos essa suposta "malandragem" e ginga, estamos cansados de ser passados pra trás. E, embora a violência não seja a solução, é legal de, pelo menos na ficção, ver os espertinhos levando os tapas na cara que merecem.


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Segundo momento: Uma Conferência.

Era um evento de Publicidade e Propaganda e um dos conferencistas era representante de uma dessas grandes empresas de software americanas, que domina a maioria esmagadora do mercado. O cara tinha aquele discurso de vendedor, muito parecido com o de pastor evangélico, e falava sobre o mercado, sobre a dura competitividade, sobre como os softwares deles nos dariam vantagem em produtividade sobre nossos concorrentes (como se a empresa dele não vendesse para os nossos concorrentes...)

Em dado momento, o cidadão estava falando dos novos produtos de sua empresa, dizendo que eram a maior maravilha do mundo, comparando-os com a segunda vinda de Cristo à Terra e toda aquela conversa de vendedor. Daí ele disse que os programas estavam sendo utilizados pela indústria do cinema e citou alguns grandes filmes de estúdios hollywoodianos. E falou pra nós, com o ar de autoridade e sabedoria:

“Ah, vocês sabiam que a piratarira de Tropa de Elite foi um golpe de marketing? Foi tudo calculado. Eles liberaram uma cópia pra causar toda aquela polêmica e promover o filme.

Certo. Pense comigo. Você é diretor de cinema no Brasil. No Brasil, onde tem um monte de gente ishpérta e onde o cinema nacional tem lucros muito inferiores às produções estrangeiras. Daí você é diretor de cinema, nesse Brasil lindo, Uô-Uô, e você tem essa idéia genial:

“Já sei, vou divulgar o meu filme inteiro (INTEIRO) em qualidade de DVD via cópias piratas de R$3, oo e daí o pessoal vai ver que o filme é bom e vai pagar R$13,00 pra ver DE NOVO o mesmo filme no cinema!!!! Cara, eu sou um gênio!”.

É. É um gênio. Vai pra Cannes, meu filho. Palma de Ouro.

Daí nosso conferencista partilhou dessa pérola de sabedoria conosco e eu, na hora (não pude me conter), perguntei pra ele:

“Ah, então a pirataria de softwares é uma estratégia de marketing da sua empresa pra divulgar os produtos?

Foi mais ou menos como perguntar pra onde vai o dinheiro do dízimo no meio do culto. Sensação de desconforto total pro cara e pra platéia. Ele respondeu meio resmungando que a pirataria era a nível caseiro e que não atrapalhava os negócios. Sei.

Se a pirataria de Tropa de Elite foi golpe de marketing, foi um golpe mais suicida do que genial. Segundo o Padilha, diretor do filme, eles foram sacaneados mesmo e o filme foi tirado do estúdio por um cara ishpérto, da própria produção.

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Terceiro momento: Uma Entrevista.

Trecho da entrevista de Adriana Negreiros com José Padilha, diretor do filme Tropa de Elite, publicada na revista Playboy de março de 2008:

Você é a favor da legalização das drogas?

Sou favorável sobretudo à liberação da maconha, que é responsável por uma parcela significativa da receita do tráfico. Acho que a cocaína deveria ser tratada de outra forma. Legalizada, mas não do mesmo jeito que a maconha. Se o consumo de drogas diminuísse por algum motivo, isso reduziria a violência?

Reduziria?

Essa é uma questão complexa. Eu acho que sim. Primeiro porque existem estudos antropológicos que mostram que a violência é maior onde há traficantes. Existe o argumento de que a violência não vai cair porque os traficantes vão mudar de profissão. Eles iam começar a assaltar na rua. Pera aí, mas é muito mais difícil e arriscado assaltar na rua que vender drogas numa favela. A idéia de que a violência associada ao tráfico vai automaticamente se transferir para outro tipo de violência é equivocada. Tem outra coisa implícita aí: a violência do tráfico de drogas mata pessoas pobres e miseráveis na favela. Se a violência mudar para seqüestro e roubo, vai morrer gente rica e isso incomoda realmente. Tem essa hipocrisia no meio no argumento dessas pessoas. Violência na rua incomoda mais que violência na favela.

Você já usou drogas?

Já. A única droga que usei na minha vida foi maconha, quando era jovem, várias vezes... Todo mundo usa maconha [enfático]! Olha só: eu pesquisei muito para representar o policial do meu filme, pesquisei todo mundo, menos os estudantes. Não precisei, porque já fui um. Agora tem muito tempo que eu não uso porque me dei conta, sim, de que é um equívoco usar drogas. É um equívoco comprar drogas de traficantes armados do morro, sobretudo para as pessoas que não fazer campanha pela liberação das drogas. Eu não vejo o usuário de droga andando na rua pedindo para legalizar a droga porque ele quer ter o direito de escolher. O que eu vejo é uma posição cômoda do cara. Compra e pronto, que se ferre.

Você era um estudante como o retratado no seu filme?

Não, não era. Eu era diferente em algumas coisas e parecido em outras. Mas eu já fumei maconha várias vezes, no Brasil e fora. Por exemplo, eu não tenho problema nenhum com maconha. Se você plantar maconha em casa e fumar, cara, qual é o problema? Você plantar maconha em casa e fumar é qualitativamente diferente de você comprar maconha de um traficante armado que domina uma favela. Não é a mesma coisa. São transações econômicas que têm uma natureza diferente. Teu dinheiro tá indo pra outro lugar. Você poderia entender o filme assim. Qual é a mensagem do filme no que diz respeito às drogas? Plante sua maconha! [risos] Claro que eu não tô dizendo isso, não tô estimulando o tráfico e nem nada. Quero deixar isso claro para não ser mal interpretado e depois processado. O problema não é a droga em si. O problema é a regra do jogo.

Se você fosse para um país em que a droga é legalizada, você consumiria?

Se eu estiver a fim, sim. Eu não tenho clareza, não conheço e não sei, por exemplo, de onde vem o haxixe vendido num pub em Amsterdã. Não sei o que eu estou financiando, não tenho essa consciência. Mas eu sei que não vem de um grupo armado de uma favela da Holanda, certo?

Quando você se deu conta de que usar drogas era financiar um grupo armado da favela?

Cara, não demorou muito. Parei de fumar maconha cedo. Fumei dos 16 aos 20 anos. Fiz documentário. Filmei em favela e você começa a pensar sobre isso.

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Considerações finais.

1- Dá pra fazer uns dois ou três doutorados em cima de Tropa de Elite . A possibilidade de questões que o filme levanta é enorme: identidade brasileira, a moralidade versus a corrupção, fascismo, uso de drogas, pirataria da propriedade intelectual, etc...

2- Vendedores de software não são necessariamente entendidos em indústria cultural.

3- A entrevista completa de José Padilha está na edição da Playboy desse mês. De quebra, ainda tem três ensaios legais com uma gostosinha, uma gostosa e uma gostosona.

4- Há mil motivos pra conhecer Amsterdã.

5- Life is good. Enjoy it.

Um comentário:

Wilton Pacheco disse...

Gostei dos três momentos.
Eu me acho tapado perto de outros artistas, pois eu digo não as drogas, não a violência e dou vivas ao bom senso. Ehehe.
Tudo de bom para vc meu talentoso amigo. Quando for a tua defesa de Doutorado não esquece de me convidar.