domingo, abril 06, 2008

Arqueologia dos Sonhos

Ando fissurado em Planetary.

Antes que você pergunte, Planetary é um gibi. Nunca tinha dado muita bola, mas daí uma exposição lenta e gradativa acabou me contaminando irremediavelmente. Até os ossos.

O primeiro gibi do Planetary que folheei era uma publicação bem pouco atraente, muito mal impressa. Me lembro de ter visto uma mariposa gigantesca morta, caída por entre montanhas. Um amigo me disse que era a Motrha, um monstro gigante daqueles filmes japoneses. E naquela história que eu estava folheando, o pessoal do Planetary ia parar numa ilha misteriosa, que estava cheia de carcaças gigantescas desses monstrengos. Me lembro que na época eu pensei: tá, e daí?

Coloquei o gibi de volta na estante e esqueci o assunto.


Vez ou outra alguém me falava que Planetary era legal, que eles se encontravam com coisas clássicas da cultura nerd e do mundo pop. Até que batia uma certa curiosidade, mas as publicações brasileiras eram caras e não tinham continuidade. E ler gibi na internet não me agrada, cansa minha cabeça, parece que estou trabalhando. Sou mais chegado no papel.

Enfim, fui deixando pra lá.

Daí apareceu a tal Pixel Magazine que é uma publicação mensal bem bacana, com um monte de histórias legais de diversos personagens. Comecei a comprar principalmente por causa do John Constantine, que é um personagem que eu curto muito. E na revista vinha também uma historinha do Planetary.

Nessa história tinha um dos caras do Planetary, um maluco chamado Elijah Snow que sempre se veste de branco e que consegue congelar coisas (Snow = neve, sacou?). A história se passava em 1919 e o cara ia procurar alguma coisa num castelo da Alemanha. Só que o castelo era do Frankenstein. Tinha lá a mesinha onde o monstro tinha recebido o raio e tudo mais. Depois, na história, o Elijah ia pra Londres e encontrava o Sherlock Holmes, velhinho, velhinho. Junto do detetive estava o conde Drácula. É, o vampirão. Ele pula em cima do Elijah que usa seus poderosos poderes congelantes e transforma o conde num picolé. E dá um chute no saco do vampirão. Daí ficamos sabendo que o Drácula, Sherlock, Frankenstein e outros tinham formado tipo uma "Liga Extraordinária". Só que a coisa tinha meio que saído do controle e o Sherlock ficou feliz com a interferência do Snow e topou ser professor dele e ensinar tudo sobre a ciência da dedução e blábláblá.

Não gostei. Achei uma história boba, óbvia, forçada.

E deixei pra lá. Felizmente tinha John Constantine na revista, então eu estava feliz.

E os meses foram passando. Daí vieram outras edições da Pixel Magazine e outras histórias.

Eu não sei bem quando aconteceu. Vinham as histórias do Planetary na revista e meio que eu lia sem compromisso. Aos poucos eu fui entendendo a piada ... eu acho. Na verdade, eu não sei o que aconteceu.

Foi na edição número 6 da Pixel Magazine. Veio a história chamada O Clube do Canhão. Um cara chama o Elijah Snow e o avisa sobre algo que estava em órbita translunar, vagando entre a terra e a lua e que agora iria cair em nosso planeta. Não era um meteorito, mas algo artificial, provavelmente feito pelo homem, e que esteva circulando lá em cima pelos últimos 150 anos pelo menos.

Elijah e sua equipe fazem uma telemetria do local de aterrizagem do objeto e vão lá esperá-lo. E ele vem.



Era uma esfera de metal grande, com uns três ou quatro metros de diâmetro. Cai perto de umas construções abandonadas, perdidas no meio de uma vasta e desolada planície. Curiosos, Elijah e seus colegas abrem a esfera. E dentro dela...

Daí eles começam a olhar ao redor. Vêem uma grande estrutura tubular de metal. Um cano enorme. Elijah pergunta a sua colega:

"Jakita, essa coisa caberia naquele cano?"

"Você tá de onda."

"Olha em sua volta. Não há nada além das estruturas abandonadas que ele atingiu e aquele cano".

E eles entram em uma das casas abandonadas. Encontram um monte de papéis e pastas espalhados pelo chão. E nesse momento a imagem dos quadrinhos ganha um tom desbotado de fotografia muito envelhecida e vemos imagens mudas contando como a esfera e sua tripulação foram lançadas. Vemos o que foi que aconteceu.

Num dos livros de testemunhas do lançamento está a assinatura de Julius Verne. As referências à obra desse escritor são óbvias.

Essa foi a história. A imagem dos três pilotos, os papéis espalhados pelo chão da sala, os fragmentos de vidas dispostos em fotografias rasgadas e as palavras de Snow. Achei bom, véio. Achei bom pracarai.

Dali pra diante comecei a prestar atenção nas histórias.

Planetary é uma super organização não-governamental voltada para a pesquisa e registro da história secreta do século XX. Eles são os Arqueólogos do Impossível. Todas as coisas extraordinárias que aconteceram e que foram ignoradas ou cuidadosamente encobertas são alvo do trabalho do Planetary. Seus principais agentes são Elijah Snow, Jakita Wagner e O Baterista.

Elijah Snow nasceu no dia primeiro de janeiro de 1900 e não parece ter mais que quarenta anos. Além da longevidade e do seu dom de congelar coisas, Snow vivenciou pessoalmente muitos dos eventos extraordinários que o Planetary estuda.

Jakita Wagner é uma mulher durona. É capaz de atravessar paredes, sobreviver a quedas de dezenas de metros, arremessar rinocerontes através de desfiladeiros e ganhar na corrida de um carro de fórmula um. E tem uma baixíssima tolerância ao tédio.

O Baterista. Primeiro nome: O. Segundo nome: Baterista. Ele fica andando de cima pra baixo com aquelas baquetas e parece um grunge autista. Até agora não entendi direito o que ele faz. Dizem que ele conversa com as máquinas e elas respondem. Dizem que ele consegue ler e manipular informações. Às vezes ele me lembra o Frank Black de Millenium, mas com 20 anos de idade, cavanhaque, baquetas e visual grunge.

Uma coisa a respeito de Planetary é que você sempre tem a impressão de que está faltando informação. Sempre parece que está rolando alguma coisa que você precisava saber, mas você não sabe. Isso é normal. Talvez tenha sido isso que me afastou das primeiras edições.

O fato é que a tal "história secreta do século XX" que o Planetary investiga engloba praticamente todos os universos fictícios criados nas diversas mídias da cultura pop. Os personagens dos livros de ficção científica do final do século XIX, os personagens dos quadrinhos e revistas pulp dos anos 30 e 40, os filmes de ação chineses dos anos 70, os filmes de monstros japoneses, os agentes secretos da década de 60, os monstros da ficção científica dos filmes norte-americanos dos anos 50, Matrix, Batman, O Incrível Hulk. É como se tudo isso tivesse existido e, principalmente, co-existido. Tudo misturado com as mais alucinantes teorias quânticas, vida após a morte, paranormalidade, super-poderes e conspiração.

Isso é Planetary. Uma imensa colcha de referências à cultura pop, algo como os filmes de Quentin Tarantino. Ou, como disse um amigo meu, o Arquivo X dos quadrinhos.

A arte da série é de John Cassaday. O texto é de Warren Ellis. E os dois trabalham juntos, um colaborando com o outro. O desenho ajuda a história a ser contada. É uma parceria indissociável.

Uma coisa que podemos ver em quase todos os números é a seqüência de imagens que conta a história e cria uma atmosfera narrativa instigante. Não é só o que o desenho mostra, mas o que ele insinua. São silhuetas ou enquadramentos que parecem mais provocar a curiosidade do leitor do que "ilustrar" a história. É suspense muito bem feito.

A disposição de seqüências, a edição, os quadrinhos silenciosos, a ausência de onomatopéias, o layout das páginas, tudo parece evocar mais a linguagem cinematográfica do que os quadrinhos. E há as capas também. A logo nunca se repete e cada capa brinca com o tema da edição.

Por fim, Planetary poderia ser apenas uma série de histórias que se amparam nas referências à cultura pop, mas não é. Por trás de todas as edições, há uma linha narrativa sólida e muito bem planejada. Quanto mais histórias se lê, mais se tem consciência dessa narrativa maior. Planetary é a história de uma guerra, de uma disputa de poder e conhecimento que caminha para um desfecho provavelmente violento. Contar mais que isso pode estragar seu prazer de leitura.

O problema é que esse "prazer de leitura" aqui no Brasil é meio dificultado pela dificuldade em acompanhar as publicações de Planetary. Na Pixel Magazine foram publicadas as histórias a partir da edição número 13 norte-americana. As 12 primeiras histórias de Planetary podem ser encontradas em dois encadernados publicados pela editora Devir: Planetary - Mundo Estranho (com as edições 1 a 4 mais uma historinha curta) e Planetary - O Quarto Homem (com as edições 5 a 12). O que mais dói nessas encadernações da Devir é o preço, pra lá de salgado.

Tem mais um fator que complica a situação: a editora Pixel tem os direitos de publicação de Planetary no Brasil agora e as encadernadas da Devir não podem ser reeditadas. Então, as edições estão se esgotando. A esperança é que a Pixel relance essas encadernadas logo. E talvez por um preço mais em conta. Mas acompanhar Planetary no Brasil (aliás, acompanhar qualquer coisa em quadrinhos no Brasil que não seja Batman e Wolverine) é bem complicado.

Não que lá fora seja muito diferente.

Warren Ellis (o escritor) diz que a história termina no número 27, mas esse ainda não foi lançado nos EUA. A última edição lançada lá foi a número 26, em outubro de 2006. Desde então espera-se a tal edição 27. Aqui no Brasil, acabou de ser publicada a edição 24 de Planetary, na Pixel Magazine número 12.

E, lá nos EUA, a edição 16 saiu dois anos depois da edição 15 . Por quê? Num faço a menor idéia, bicho. Imagina, você estar adrenado com a história e ter que esperar dois anos pra continuar acompanhando...

Mas vale o esforço. Como disse Alan Moore, Planetary tem um valor não só estético, mas também reflexivo. Trata-se de uma história em quadrinhos que começou a ser escrita na virada do século, em 1999. A virada do Milênio. Era um momento em que as histórias em quadrinhos (e talvez todo mundo mais) repensavam seus caminhos, suas direções. Planetary representa esse momento de reflexão.

Os "Arqueólogos do Impossível" exploram os caminhos da imaginação, da ficção e da aventura trilhados durante todo o século XX. Muitos desses caminhos estavam esquecidos, outros encontram-se perdidos para sempre. Era outra época, outro espírito, outro olhar. Eram universos que serviram de cenários para sonhos de infância ou para pequenas fugas do insosso cotidiano adulto.

E a partir desse olhar ao passado, ao mesmo tempo, olha-se para o futuro, para todas as possibilidades narrativas que podem se abrir. Novas possibilidades, novos contextos, novos mundos.

Afinal, histórias são representações e representações não só refletem, mas também constituem a realidade.

Como não ficar empolgado?

Para saber mais:

E se você tiver realmente se interessado, boa sorte. Você realmente vai brincar de arqueólogo se quiser acompanhar essa série...

(Também acho esse logo sensacional. Ele parece aqueles logos das séries de tv dos anos 60...)

7 comentários:

José Aguiar disse...

Eu...preciso... ler...isso...
Me empreste por favor!

Paraiba disse...

Eu falei pra vc faz tempo! Planetary e' muito bom, tudo, desenho, argumento, desenho, personagens, desenho, roteiro, desenho... E' mais um dos trabalhos q numa realidade paralela queria ter feito antes. Toda essa nova cultura cross-genre ja tava profetizada ali! Uma palavra de Paraiba... excelente!

Marília Ribas disse...

“It's a strange world. Let's keep it that way.” Acho que Planetary é uma das coisas que mais gosto no mundo.

Anônimo disse...

Cara, muito legal seu texto.
Fico contente primeiro porque amo Planetary e também porque a nossa idéia lá na Pixel com a Pixel Magazine era exatamente de fazer com que leitores atraídos por Hellblazer descobrissem essa HQ menos conhecida e tão bacana.
abraço,
Cassius Medauar

liber disse...

Obrigado, Cassius, pelo bom trabalho que vc fez na Pixel.

Acho que alguma editora aqui devia publicar uma encadernação de Planetary, ainda mais que a série já acabou lá fora.

Fica a nossa vontade de ver a turminha do Elijah Snow de volta aí pelas livrarias e comicshops...

Obrigado a todos e a todas pelas visitas e comentários!

Abraço!

Pedro Obliziner disse...

Parabéns pelo texto cara.

Sou fãzaço de Planetary, mas lendo aqui percebi que não lembro de mais nada da história, vou pegar para reler (e vai ter que ser na base dos scans mesmo)

Abraço

Carla Umbria disse...

ahá! pela primeira vez na vida eu já curtia um gibi antes do Liber!! Vou dormir me sentindo vitoriosa hoje aahahaahhhha. Tô de onda,amigo. Mas vou te contar que comecei a ler Planetary por acaso, encontrei uma edição jogada na sala de espera de um consultório médico. Por certo alguém comprou,não gostou e largou por ali mesmo para a minha sorte. Curto desde então. É boa sim mas demora para vc se sentir confortável com a ideia dela. Passando esta fase, vc começa a adorar. Comparo ela a Heavy Metal dos anos 80: é tanta loucura junta e aparentemente sem fundamento ou grandes sacadas que vc dá atenção apenas a arte, que é boa demais. Mas com um pouco mais de atenção descobre um tesouro. Boa leitura!