sábado, abril 26, 2008

Imagens & Palavras


Não fez ainda um mês que o José Aguiar lançou seu novo álbum, o Quadrinhofilia. Eu tive a oportunidade de dar uma mãozinha, com o projeto gráfico e finalização de alguns arquivos. Foi muito gratificante colaborar na produção desse álbum.

Quadrinhofilia é uma coletânea de trabalhos, muitos não publicados, alguns produzidos há quase dez anos atrás. Enquanto eu montava o álbum, revia páginas que eu tinha visto enquanto ainda eram desenhadas, na prancheta do seu José.

Naquele tempo (e lá vem conversa de velho, mas nem faz tanto tempo assim, só uns dez ou doze anos) naquele tempo tinha uma casinha bem nos fundos de um terreno lá perto do Parque São Lourenço. Lá se juntava um punhado de caras que gostavam de quadrinhos, cinema, literatura e afins. Foi lá que foi criado o personagem Gralha, em reuniões animadas por refrigerante, salgadinhos e mil conversas.

Além do Gralha, também estivemos envolvidos no lançamento da revista Manticore. Ela apresentava um roteiro de Gian Danton, Antonio Eder e (nosso editor) Jeferson Arantes. Na época estava na mídia o ET de Varginha, que também podia ser o Chupacabra, e a gente tentou pegar carona na onda. A história mostrava um detetive investigando o caso do tal Chupacabra. Tinha muita conspiração e mistério, com toques fortíssimos de Arquivo X e, principalmente, Milênio.


Os desenhos também eram de Antonio Eder (lápis), com a cor fantástica do Márcio Freire.

O Márcio era um cara que pintava santos lá nas igrejas de Matinhos e um dia apareceu no estúdio com um portifólio de suas pinturas. Ele aprendeu a pintar copiando as capas da antiga revisa do Conan e sabia lidar com as tintas muito melhor que muito artista profissional por aí. A pintura do cara era bem impressionante e a curiosidade é que ele pintava sobre o papel com a mesma tinta que pintava nas paredes, porque estava acostumado e não queria mudar.

A Manticore trazia ainda páginas desenhadas por Luciano Lagares e José Aguiar. Em 1998, Manticore ganhou os troféus HQ MIX de melhor revista de terror e de desenhista revelação (para o Luciano).

A mim coube fazer o tal projeto gráfico e colocar os balões na história, o tal do letreiramento.

E naquela época a gente falava muito sobre histórias em quadrinhos, sobre o que fazia uma história ser boa e tals. Uma idéia que a gente tinha na época era que uma história com um bom roteiro e desenhos ruins tinha mais valor que uma história com roteiro ruim e desenhos bons. Ou: “Um bom roteiro pode salvar um desenho medíocre”, como a gente costumava dizer na época.

O problema com essa idéia é que ela parece defender que uma história em quadrinhos está dividida em dois componentes distintos: o roteiro e a arte. E que, entre esses dois fatores, o mais importante é o roteiro. Mas não é bem assim que a coisa funciona. Uma história em quadrinhos deve ser uma obra coesa, perfeitamente integrada. Se desenhista ou roteirista deixarem a desejar, a coisa não funciona. Uma história com roteiro bom e desenho ruim é tão meia boca quanto o contrário.



Esses dias eu comprei a encadernada Sangue Real, que trazia algumas histórias inéditas de John Constantine, todas produzidas lá pelo começo da década de 1990. O John Constantine era um dos personagens-título principais do selo Vertigo, da DC Comics, naquela época. Sua revista, Hellblazer, ao lado de Sandman e Swamp Thing, ditou os parâmetros das boas revistas “adultas” da época: capas sensacionais, bons roteiros e desenhos... como direi... desenhos que poderiam ser melhores.


No caso específico de Sangue Real, o desenho é de William Simpson. Pode ser que você curta o trabalho do Simpson, mas eu achei mal finalizado, feito nas coxas. Detalhes como cenários, anatomia, panejamento das roupas, layout das páginas... enfim, coisinhas pequenas que me incomodaram enquanto eu lia a estória. Acho que Sangue Real é uma história muito boa que podia ser melhor ainda se tivesse uma arte à altura. Nesse mesmo álbum tem duas histórias com desenhos do Steve Dillon, que, na minha opinião, mesmo não estando na melhor forma, sai-se muito melhor do que o Simpson.

E aqui entra uma questão de estética. É complicado (ou impossível?) definir o que é um bom desenho e não é esse meu propósito aqui. Às vezes um desenho rabiscado e aparentemente mal-acabado pode fazer parte da proposta da HQ, como em certos trabalhos underground. Geralmente é o fator subjetivo que afeta o julgamento da arte de uma HQ. Mesmo artistas com estilo e domínio técnico invejável, como Michael Mignola e Alex Ross, podem ser alvos de críticas por parte de leitores que não apreciam os “corpos de pêra” do primeiro ou que consideram a arte do segundo “estagnada”.

Um colega não consegue ler as histórias do Homem-Aranha, que trazem roteiros do ótimo Brian Michael Bendis, por causa dos desenhos do Mark Bagley. E, embora eu não me incomode com a arte do sujeito, ele é execrado por muita gente. Daí uma história com bom roteiro que acaba perdendo força por causa da arte.

(A série Marvel Millennium apresenta uma releitura modernizada de heróis como o Homem-Aranha,
que é mostrado como um adolescente de 16 anos).

Ter apenas um bom desenho, com domínio de técnica e estilo, não é suficiente para fazer uma boa história em quadrinhos. Também é importante toda uma série de conceitos de design e linguagem próprios do meio.

Nesse sentido, tem um desenhista que me faz a cabeça: o Frank Quitely. Sujeitinho meticuloso, cheio dos detalhes e ainda assim com um desenho limpo. E ele colabora muito com o roteirista, acrescentando muita coisa na história com disposições de quadrinhos inusitadas ou mesmo com sutilezas no estilo do desenho.

Em We3, Quitely apresenta um layout de páginas que ressalta ainda mais as qualidades do roteiro de Grant Morrison. São diversas seqüências mudas, sem texto, que narram perfeitamente os acontecimentos. Por exemplo, as 6 páginas com 18 quadrinhos cada (!) que mostram pontos de vista desordenados das câmeras de vigilância, que mesmo assim contam com eficácia a fuga dos três animais do centro militar. Uma seqüência de páginas supercarregadas de quadrinhos que de repente irrompe numa imagem de página dupla. Até parece música.





Tem também a seqüência de combate contra o exército, em que quadrinhos muito pequenos apresentando detalhes de diversas ações são dispostos sobre quadros maiores. Ou a utilização em perspectiva dos quadros, que se tornam “portas” por onde o gatinho Tinker passeia chacinando soldados. Honestamente, não sei se esses recursos são de responsabilidade só do Quitely ou se o Morrison tem algo a ver, afinal, ele é um dos bons roteiristas que usam e abusam do design da página para incrementar sua história.



(We3 é do caralho! Sério!)

Ainda de Quitely e Morrison tem a série Superman AllStar que está sendo publicada quase que simultaneamente no Brasil e nos EUA. Os atraso são constantes, mas é um belíssimo trabalho.

Na história de Morrison, o Super-Homem foi exposto a altos níveis de radiação do nosso Sol, que é sua fonte de poder. Como conseqüências, o Homem de Aço nunca esteve tão poderoso, mas suas células estão degenerando e ele morrerá inevitavelmente. Assim, a série mostra as tentativas de cura do super-herói e os preparativos para o caso de sua morte. E também é uma espécie de despedida.

A cada número são mostrados, despretenciosamente, diversos elementos de toda a mitologia do Super-Homem: seu romance com Lois Lane, o inimigo Lex Luthor, o amigo Jimmy Olsen, o mundo de Bizarro, a cidade engarrafada de Kandor. Tudo é mostrado de modo fantástico, absurdo e exagerado, como costumava ser nos quadrinhos de super-heróis décadas atrás. E por trás de toda essa hiper-sensacionalidade, existe uma suave melancolia que chega perto da poesia. Como se fosse uma despedida de toda a inocência dos quadrinhos de super-herói, que parece ter se perdido para sempre.

Morrison consegue criar uma empatia com o Super-Homem como poucos autores conseguiram. Ao mesmo tempo que o herói nunca esteve tão poderoso, nunca esteve tão frágil, tão próximo da morte. Será que ele morre mesmo no fim?

Bom, e tem os desenhos do Quitely. Ele conseguiu criar belíssimas imagens, mas pra mim, o principal foi a caracterização do Clark Kent. Ele consegue só com o desenho, dando ênfase na linguagem corporal, tornar Clark Kent tão diferente do Super-Homem que você realmente acredita que ninguém consiga descobrir que os dois são a mesma pessoa. Não é mais só a questão do óculos, mas de toda uma interpretação, de trejeitos e posturas que o Quitely consegue transmitir muito bem. Se tivéssemos um desenhista meia-boca aqui, a história ia perder. E muito.





E, pra encerrar, um trabalho que considero particularmente genial: o número 5 de Watchmen, com roteiro do bruxo Alan Moore e desenhado por Dave Gibbons. Cada número de Watchmen tinha um tema e essa edição em questão abordava reflexos.

Ao folhear a revista e chegarmos exatamente no meio, encontramos duas páginas com layout refletido. Elas apresentam quatro quadrinhos, sendo um longo vertical ocupando a altura da página. Essas duas páginas, 14 e 15, representam o encontro de todo um layout refletido que permeia a edição inteira. A disposição de todos os quadrinhos da primeira metade da edição é um reflexo da disposição dos quadrinhos da segunda metade. A revista é dividida em duas partes rigorosamente simétricas.


Assim, a página 14 reflete o layout da página 15, a página 13 reflete o layout da página 16, a 12 reflete a 17 e assim por diante.

(Clique para ver maior...)

Mas o mais fantástico não é essa simetria de layout, mas sim a simetria temática. Por exemplo, as páginas 10 e 19 possuem layout e posição simétrica na revista. Nas duas páginas vemos os personagens Daniel Dreiberg e Laurie Juspeczik interagindo.



Laurie acabou de se separar abruptamente de seu marido, o Dr. Manhattan (que tinha se exilado), foi despejada e não tem aonde ir. Daniel é um solteirão barrigudo que era seu amigo da época em que se vestiam de super-heróis. Num encontro, Dreiberg oferece a Laurie abrigo, enquanto ela não encontrar outro lugar.

Comparando as duas páginas, repare no longo quadrinho horizontal no meio da página. Na página 10 Daniel observa Laurie se afastando, indo embora. Vemos a mesma imagem refletida no espelho que está atrás dele. Depois, na página 19, já em sua casa, é Daniel que é visto no segundo plano, distante, refletido no espelho, enquanto Laurie distraidamente arruma suas coisas. As duas páginas mostram, principalmente através das expressões de Daniel e por sutilezas no texto do diálogo, sua solidão e o desejo de companhia por trás do convite à Laurie. Nos dois painéis horizontais das páginas, é mostrada a distância entre o casal através do espelho, como se ambos estivessem em planos ou mundos diferentes. Os três últimos quadrinhos das duas páginas são o inverso um do outro e transmitem uma idéia. Na página 10, Daniel e Laurie estão lado a lado e parece haver a promessa de que ficarão juntos. Mas eles estão lado a lado na imagem refletida no espelho, então essa união entre eles fica em outro plano, inacessível, do outro lado do espelho. Um reflexo, uma ilusão. É como se Daniel tivesse entrado nesse mundo de ilusão, como se sua esperança de companhia fosse uma ilusão. Já na página 19, vemos os dois refletidos em um espelho logo no primeiro quadrinho. Aos poucos Daniel vai "saindo" do espelho, voltando ao mundo real e percebendo que terá de passar a noite sozinho mesmo. É todo um jogo de narrativa através da imagem. Nos três quadros finais da página 19, Daniel está sozinho e sua frustração é expressada no último quadro da página.

Esse tipo de análise se aplica a todas as páginas da edição. TODAS. Alan Moore é um louco, gente. Fazer só o layout já ia ser interessante, mas extender isso para os temas e a narrativa da página é simplesmente genial.

O último quadrinho desse capítulo é igual ao primeiro: uma imagem de um letreiro luminoso refletida numa poça d'água. A história se encerra com o trecho de um poema de William Blake:
Tigre, Tigre,brilho flamejante nas florestas da escuridão. Que imortais olhos ou mãos poderiam criar tão espantosa simetria?

Fabuloso.

Simplesmente fabuloso.

2 comentários:

Eliel disse...

fabuloso foi esse post que começa com um flash back da produção de quadrinhos em um fundo de quintal ("naquele tempo" foi ótimo, rsrsrs...) e termina com a análise do trabalho de um dos maiores gênios de todos os tempos.

Coisa fina. Mandou bem.

Liber disse...

Valeu, Eliel!