sábado, abril 05, 2008

O Tempo Bidimensional

Tudo começa com uma página em branco.

Você tem uma idéia na cabeça e quer contar uma história. Daí, lá está a bendita página em branco, olhando pra você, esperando que você a possua, que faça com ela o que bem entender. Em sua passividade, a folha em branco se torna desafiadora. (Muitas vezes assustadora). Mas, à parte as questões do medo do branco, há uma série de coisinhas a se considerar quando se escreve uma história em quadrinhos, assim como quando se constrói qualquer tipo de narrativa.

Uma delas é a tal questão do tempo.

Há dois livros que servem de referência quando se fala da linguagem dos quadrinhos.

O primeiro é Comics & Sequential Art, lançado em 1985 nos EUA. O autor é Will Eisner, um dos nomes mais importantes da história dos quadrinhos. Eisner criou o personagem Spirit, em 1940. Com Spirit, Eisner realizou uma série de experiências com a narrativa dos quadrinhos, incorporando elementos de linguagem cinematográfica como close ups e enquadramentos sofisticados. A Eisner também é creditada a invenção do termo graphic novel, que se refere a histórias em quadrinhos especiais, com formato editorial e acabamento gráfico semelhante ao dos romances em formato de livro, com lombada quadrada, página de rosto etc. Comics & Sequential Art foi lançado no Brasil em 1989 como Quadrinhos e Arte Seqüencial.

(Como exemplos de graphic novel a gente tem as recentes Gemma Bovery, Pyongyang e a badalada Persépolis, que virou desenho animado e foi lançada num único volume pela Cia das Letras recentemente).

Scott McCloud é escritor, desenhista e teórico de quadrinhos e se tornou muito popular entre o pessoal que trabalha com quadrinhos ao escrever, em 1993, o livro Understanding Comics, o outro livro referência quando se fala de linguagem dos quadrinhos. No Brasil, esse trabalho ficou conhecido como Desvendando os Quadrinhos e foi lançado pela editora Makron Books.

Desvendando os Quadrinhos faz uma análise deliciosa sobre o que são e como funcionam as histórias em quadrinhos. O grande diferencial é que o livro todo é uma grande história em quadrinhos e se vale de todas as especificidades da própria linguagem em seu discurso, em um belo exercício de metalinguagem.

Já no primeiro capítulo McCloud sugere definir histórias em quadrinhos como:

“imagens pictóricas e outras justapostas em seqüência deliberada destinadas a transmitir informações e/ou a produzir uma resposta no espectador”.

Partindo do termo cunhado por Eisner (“arte seqüencial”) para construir essa definição, McCloud propõe que muitas peças de arte ao longo da história da humanidade, como obras egípcias, maias e tapeçarias medievais seriam um tipo de histórias em quadrinhos.

Assim, a maneira mais óbvia de construir a passagem de tempo em uma história em quadrinhos é a disposição de imagens em seqüência. Lado a lado, nós construímos uma relação entre as imagens e estabelecemos um significado.

Para Eisner, uma das principais questões diante da tal página em branco, na hora de construir a história em quadrinhos, é a escolha dos momentos que colocamos no quadrinho. A essa escolha chamamos edição.

Em 1964, Umberto Eco escreveu Apocalípticos e Integrados, um livro muito bacana sobre a tal cultura de massa. Em um dos capítulos, ele faz uma análise de uma página de Steve Canyon, HQ (história em quadrinhos) criada em 1947 por Milton Canniff. Nessa página, vemos o personagem chegando ao seu escritório e recebendo uma chamada telefônica. Eco disseca diversos aspectos da mensagem e constrói uma relação entre os quadrinhos e o cinema na questão da edição. Além da escolha do momento a ser representado no quadrinho, como Eisner aponta, a escolha dos enquadramentos (pontos de vista do observador e disposição dos elementos no quadro) também é importante. Eco compara a edição dos quadrinhos de Canniff com a do cinema, como o do cineasta Goddard. Segundo Eco, se Steve Canyon fosse transposta para o cinema exatamente como é nos quadrinhos, teríamos uma série de tomadas curtas de diversos pontos de vista, em uma edição frenética e alucinante. Hoje estamos acostumados com esse tipo de mudança bruta de perspectivas durante um filme, mas esse tipo de edição seria atordoante para o espectador daquela época (1947). Nesse sentido, os quadrinhos foram precursores de um recurso de linguagem na edição que o cinema adotaria mais tarde.


A edição de momentos nos quadrinhos com mudança de perspectiva (ponto de vista) é muito utilizada principalmente nos quadrinhos de ação, o que resulta numa sucessão dinâmica e acelerada de cenas. É o caso dessa cena de Os Supremos, produzida pelo desenhista Brian Hitch com roteiro de Mark Millar em 2002:

Por outro lado, acrescentar mais quadrinhos para descrever uma ação rápida pode ajudar a construir a sensação de câmera lenta, com diversos quadrinhos decompondo um movimento que aconteceria dentro de um intervalo rápido de tempo. É com esse recurso que a seqüência de queda do personagem Diomedes, do álbum A Soma de Tudo (2001), de Lourenço Mutarelli, parece se estender no tempo, parecendo bem mais demorada e conferindo todo um aspecto expressivo para a seqüência.


A idéia de imagens seqüenciais de McCloud abre espaço para considerar como histórias em quadrinhos diversas coisas, como manuais de instrução e murais, mas exclui o cartum.

Cartum é um desenho acompanhado de texto, que faz graça com alguma situação do cotidiano. Uma piadinha de uma imagem só.

Só que se o cartum não é história em quadrinhos, Yellow Kid também não é.

Muitos estudiosos consideram Yellow Kid a primeira história em quadrinhos moderna, porque apresentava as características de produto de indústria cultural que viriam a definir as HQs no século XX (era publicado em jornal, tinha grande tiragem, era muito popular). Mas no seu começo, lá pelos idos de 1895, Yellow Kid se constituía em uma série de cartuns, como os dois exemplos abaixo:

E aqui temos uma coisa legal sobre o tempo dos quadrinhos. Quando vemos uma imagem, geralmente consideramos que ela contém um momento congelado no tempo, como uma fotografia ou um quadro. Mas olhando mais de perto, vemos que não é bem assim.

Yellow Kid por exemplo. Quando Outcault (o autor) introduziu o uso de balões nos painéis de Yellow Kid, (o balão é aquele desenhinho que contém a fala dos personagens), ele também inseriu o tempo. O tempo de uma fala, ou de um diálogo.

Ao discutir a questão do tempo, Scott McCloud também admite que o uso de balões acaba concedendo ao quadrinho uma duração temporal. Assim, o quadrinho que antes representava um momento congelado no tempo, ganha duração e transforma-se em uma pequena narrativa.

Verdade seja dita, bem antes de McCloud, o estudioso brasileiro Antônio Luís Cagnin já tinha tido essa idéia da construção do tempo com os balões. Em seu livro Os Quadrinhos, de 1975 (!), Cagnin escreveu:

“A posição dos balões no quadrinho, além da sua participação estética, já está convencionalmente estabelecida: a leitura se faz da esquerda para a direita; de cima para baixo. Isto tem uma conseqüência importante, porque se traduz em indicação de tempo narrativo: as falas da esquerda e do alto são anteriores às outras. Há então uma figuração motivada do tempo.”

Essas idéias podem nos fazer olhar de modo diferente para o painel abaixo, de 1896, um dos primeiros a apresentar balões dentro da série de Yellow Kid. Podemos ainda considerar que o excesso de personagens e situações dispersos pela página faz com que nosso olhar “viaje” pela imagem. Todos esses elementos fazem que com uma única imagem Outcault nos conte uma ou diversas historinhas que têm uma duração tão breve quanto o nosso tempo de contemplação.

Convém lembrar ainda que o tal balão não é uma invenção dos quadrinhos do século XX. A figura abaixo foi retirada do texto de Fabiano Azevedo Barroso, do livro Guia Ilustrado de Graffiti e Quadrinhos. Trata-se de uma imagem anônima do século XVI, de origem alemã, retratando alegoricamente uma passagem do Apocalipse”. Encontramos diversos exemplos como esse, em que um recurso gráfico como uma faixa ou uma nuvenzinha sai do fundo da garganta de um personagem desenhado, procurando representar sua voz e palavras.

Bem, tudo isso tem a ver com as ferramentas para se construir o tempo nos quadrinhos: justaposição de imagens, edição dos momentos a serem representados, quantidades de quadrinhos, utilização de balões e tal... mas o que mais podemos fazer?

Daí entram os modos de contar histórias, o modo como podemos apresentar os acontecimentos. Flashbacks e flashforwards são recursos utilizados para apresentar acontecimentos do passado e do futuro em uma história. São muito utilizados em diversos filmes e seriados, como Lost e Heroes. Mas não se trata só de uma questão de contar a historinha, às vezes misturar passado e presente pode virar literalmente um recurso estilístico, como nos filmes do diretor Cristopher Nolan O Grande Truque e, principalmente, Amnesia.

Nos quadrinhos, temos diversos exemplos de histórias e personagens que brincam e subvertem com o tempo linear.

Watchmen é uma das melhores histórias em quadrinhos de todos os tempos. Foi eleita como um dos 100 melhores romances em língua inglesa pela revista Time, ficando ao lado de obras de autores como Virginia Woolf, Jack Kerouac, William Faulkner e outros. Watchmen é uma história de super-heróis escrita por Alan Moore, desenhada por Dave Gibbons e publicada pela editora DC Comics em 1986. Trata-se uma obra de características complexas, que usa o tema dos super-heróis como base para explorar diversas possibilidades de caracterização de personagens, estruturas narrativas e temáticas diversas, que vão da Teoria do Caos à política da Guerra Fria.

O único super-herói com poderes em Watchmen é o Doutor Manhattan. Vítima do clássico acidente de laboratório que confere super-poderes ao transeunte inocente, o Dr. Manhattan tem três habilidades básicas: onipotência, onisciência e onipresença. Ele pode reconfigurar a estrutura material de si mesmo e de qualquer coisa, pode criar réplicas conscientes de si mesmo, pode se teleportar, tornar-se intangível e é virtualmente imortal. Mas a característica mais bacana do doutor é que ele parece ter criado uma relação toda especial com o tempo. Ele têm noção do que aconteceu e do que vai acontecer. Para ele, todos os momentos são um só. Isso gera situações bem bacanas, como o diálogo da página abaixo:


Outra história bacana é Skreemer, escrita por Peter Milligan e desenhada por Steve Dillon e Brett Ewin em 1990. Inspirada no livro Finnegan's Wake, de James Joyce, Skreemer é uma história de gangsters passada em um futuro apocalíptico. As 166 páginas da história cobrem um espaço de tempo de 15 minutos, o período da contagem regressiva para o lançamento de um vírus sobre a cidade, mas devido aos recursos de flashback utilizados pelo autor associados com uma edição caprichada da história, o leitor tem a sensação de acompanhar simultaneamente diversos momentos dos quase quarenta anos de história que precedem aqueles 15 minutos. Também guia a história o extraordinário protagonista Veto Skreemer, que conhece detalhadamente a predestinação de toda a sua vida. O futuro é pré-determinado? Há como escapar do seu trágico destino?



Com as características próprias de sua linguagem utilizada de maneira inteligente por seus autores, os quadrinhos são um meio expressivo tão rico quanto a literatura ou o cinema, cheios de possibilidades narrativas instigantes e empolgantes, para serem descobertas tanto por autores quanto leitores. Se você não está familiarizado ainda com esse universo dos quadrinhos, comece procurando por títulos que abordem temas que lhe chamem atenção. Consulte sites especializados na crítica e resenhas de quadrinhos, como o Universo HQ e o Blog dos Quadrinhos. Vale a pena. Tem muita coisa legal sendo escrita e desenhada por aí.

Aquele abraço.

(Texto baseado em uma palestra que fiz no Paralelo, no dia 06 março. Foi bem legal, teve direito a debates e apresentação de besouros amestrados. Quem foi, sabe do que estou falando. Hehehe...)

2 comentários:

hiroshi disse...

Bacana... Realmente deu uma geral em vários tópicos dos quadrinhos..., Interessantíssimo.

Marcelo disse...

espetáculo esse texto, Liber. abs

Marcelo