sábado, maio 24, 2008

As Pequenas Coisas







Cecília.

Eu chamava a menina Ciça de Poetinha Vudu.

Ela usava fiozinhos coloridos, de metal, tecido e plástico, e fazia esses bonequinhos. As “pessoinhas”, como ela as chamava. Cada uma tinha sua personalidade, cada uma tinha sua história. Na palma da mão cabia uma família inteira, daquelas famílias bem legais, cheias de crianças arteiras, tios festeiros e avós batutas. Na palma da mão cabia uma tarde de sábado, cheia de brincadeiras e riso. Cabia uma infância.

As pessoinhas de Cecília empinavam pipa, comiam algodão doce, passeavam, escutavam e contavam histórias. Talvez também chorassem e rissem.

Como eu às vezes a via rindo ou chorando pelos corredores da universidade.

Por anos, o grande relógio ficou no meio do corredor, parado, marcando sempre a mesma hora e estando certo duas vezes ao dia. Talvez ele ainda esteja lá. Os corredores eram frios, as paredes brancas e um ladrilho de pequenos quadradinhos de um verde pálido. Era como um grande hospital, silencioso, vazio, morto. Exceto quando nós estávamos lá. Nós, os estudantes de design. Produto e/ou gráfico, senhor, às suas ordens.

Foi no corredor que nos conhecemos. Éramos de turmas diferentes, períodos diferentes. Conversamos uma ou duas vezes e engatamos uma dessas amizades estranhas, que apesar da distância e das ausências, não desvanece.

Ela fazia as pessoinhas e eu ainda vadiava entre a fotografia e o desenho, procurando meu próprio idioma. Daí comecei a flertar com a tipografia.

Bem de leve.

Tipografia é um dos alicerces principais do design gráfico. Basicamente, refere-se às infinitas maneiras de trabalhar o desenho e a disposição de caracteres (letras) sobre a página. Ou, se preferir, tipografia é fazer letrinhas e amontoá-las em forma de texto no papel ou na tela. Basicamente.

A escrita é uma das bases da civilização, mas o lance da tipografia está na reprodução técnica dessa escrita. No século XV aparecem Gutemberg e a imprensa . Pouco antes disso, escribas e copistas produziam e reproduziam livros à mão. Não existia papel, então usava-se pergaminho, feito a partir do couro de animais. Imagine os mosteiros, as torres medievais, o silêncio na noite iluminada por velas enquanto o monge copiava de próprio punho palavras e palavras sobre uma página que já tinha servido de pele para um ser vivo.

Um exemplo é a Bíblia do Diabo, chamada assim pelo desenho peculiar encontrado em uma de suas páginas. Outra razão para ser chamada assim é a lenda de um monge que recebeu como castigo a tarefa de escrever um livro gigantesco. Ele não poderia sair de sua cela enquanto não o terminasse. Invocou o diabo, fez um pacto básico e, com a ajuda do cramulhão, escreveu o livro todo em uma noite. Lenda, é claro.

A Bíblia do Diabo foi produzida no século 13. Mede, fechada, 49 centímetros de largura por 89 de altura. Pesa 75 kg. Suas páginas foram feitas a partir das peles de 160 novilhos.

Depois de Gutenberg, passa-se a produzir pequenas matrizes de metal, cada uma representando o desenho de uma letra. Ajustando essas matrizes lado a lado em um aparelho apropriado, pode-se criar um texto e reproduzi-lo em diversas cópias. Muito mais rápido do que escrever a mão.

(Uma curiosidade: Gutenberg não teve um retorno por sua inovação e faliu. Ainda assim, muitos começaram a utilizar o princípio de seu invento e as primeiras impressoras começaram a pipocar pela Europa. Outra curiosidade: os verdadeiros inventores da imprensa foram os chineses, que, pelo menos uns mil anos antes do Guti, já utilizavam matrizes de madeira para reproduzir textos.)

Então, depois do século XV, o ato de escrever, ou melhor, o ato de reproduzir a escrita reforça sua proximidade com o ato de esculpir. As letrinhas, aquelas coisinhas, eram forjadas à mão. Cabe lembrar que, em civilizações anteriores, como no Império Romano, escrever e esculpir já eram atividades muito próximas, como podemos ver nos grandes monumentos, como a Coluna de Trajano.

E as letras têm diversificações em seu uso. Às vezes, uma letra, que ficava muito bem em uma página de livro, não funcionava tão bem em um cartaz publicitário. Essa demanda faz com que surjam novas maneiras de se desenhar a mesma letra. Com o passar dos anos, certos modos de se desenhar uma letra associam-se, no imaginário popular, a certos discursos e mensagens. A esses modos de desenhar, a essa unidade visual estilística que faz com que olhemos para uma letra “a” e a consideremos como integrante do mesmo alfabeto que “b”, nós chamamos de fonte. Família é como chamamos o conjunto de variações de uma fonte, incluindo seus itálicos (a letrinha inclinada), negritos (a letrinha mais gordinha) e etc.

A partir dos anos 1980, com a crescente utilização de computadores, o ato de fazer uma fonte ganha novas dimensões. Ainda utilizando muito do raciocínio da época das matrizes fundidas em metal, agora trabalhamos com softwares e criamos fontes utilizando ferramentas de desenhos vetoriais. Nosso produto final não é mais um conjunto de pecinhas de metal, mas um arquivo, um código de informações que será lido por uma máquina, visualizado em uma tela ou impresso no papel.

Anos depois de terminar a faculdade, topei com um dos melhores livros de tipografia: Elementos do Estilo Tipográfico, de Robert Bringhurst. O mais bacana desse livro é o estilo de escrita de Bringhurst, que além de tipógrafo e designer, é poeta. Ele relaciona constantemente o design de caracteres e layout de páginas com outras artes, como música e literatura. O modo como constrói seu texto está carregado de uma paixão contagiante pela tipografia. Bringhurst abre seu livro escrevendo:

Assim como a oratória, a música, a dança, a caligrafia – como tudo que empresta sua graça à linguagem –, a tipografia é uma arte que pode ser deliberadamente mal utilizada. É um ofício por meio do qual os significados de um texto (ou a ausência de significado) podem ser clarificados, honrados e compartilhados ou conscientemente disfarçados.

Repetindo, a tipografia é uma das bases imprescindíveis do design gráfico. Mas é também o veículo da literatura.

Em As Horas, Nicole Kidman interpreta Virginia Woolf. No filme, quando Virginia começa a escrever, há uma espécie de ritual, de evocação. Ela senta-se em sua poltrona. O olhar é febril. A mão dança sobre um pote, cheio de penas e canetas, tentando escolher a melhor arma. Depois da escolha, mais um momento, ela inspira, a pena entre seus lábios. E começa. A pena arranha o papel, deixando um rastro de letras úmidas. As primeiras palavras de Mrs. Dalloway.

A escrita é algo extremamente íntimo, feito dentro de seu quarto. Mas trazer o livro à luz, torná-lo palpável e reconhecível para as pessoas, isso deve ser feito na oficina. Uma oficina de letras, com tinta e sujeira, onde o marido de Virgínia, Leonard, faz seus livros. Leonard, o tipógrafo.

E os pensamentos, textos e paixões ganham substância diante da consciência de outras pessoas através das letrinhas de chumbo.

Hoje, também através de informações digitais, arquivos Post Script, pulsos de luz no monitor.

Tipografia.

Quando eu olhava para as pessoinhas da Ciça, eu pensava em letras. Em palavras.

Fragmentos de uma conversa telefônica perdida na madrugada.

Talvez pessoas sejam como palavras. Com seu significado, sua função, seus sinônimos e antônimos. Mas seu significado, todo seu significado, varia muito de acordo com as outras palavras ao seu redor, de acordo com o contexto. E de acordo com a tipografia. A Forma e o Conteúdo.

E existem dias em que as pessoas são escritas com a fonte “Melancolia Extra Light Condensed”, outros em que são escritos com “Felicidade Italic Extended”, ou “Rotina Normal BT”...

Às vezes há diferenças muito sutis entre as fontes. Pequenos detalhes nas hastes, travessões e serifas.

Pensando assim, há um conjunto de fontes básico que as pessoas usam para se escrever durante toda a sua vida, mas você sempre pode um dia acabar se vendo escrita em uma fonte nunca antes vista, uma fonte talvez surpreendente, equilibrada, bela, perfeita ou talvez ordinária, ridícula, de desenho kitsch e sem acentuação.

Ah, sim. Existem as frases. Sabe como? Quando colocamos uma palavrinha junto com outra. Palavras sozinhas tem significado, mas elas costumam andar em bandos, chamados frases ou sentenças. Daí elas formam outros significados. Às vezes tolices alegres e banais, sem muito compromisso. Outras vezes idéias intrincadas que se desdobram para além dos limites da palavra em si. É o que chamamos Literatura.

Ou Amor.

As Pequenas Coisas.

Letras.

Coisinhas pretas sobre fundo branco guardando a porta para outras realidades.

Um comentário:

Anônimo disse...

Então dê uma olhada no documentário Helvetica. Acho que você vai gostar.

Abraços!
Rodrigo
http://stulzer.net/blog