domingo, maio 11, 2008

Extravagâncias

Los Angeles, 2019.

A cidade dos anjos.


Abaixo de nós a metrópole se espalha infinitamente por uma vasta planície negra. Suas luzes são como um mar de estrelas e desse mar emergem torres que expelem grandes bolas de fogo em explosões surdas.

Avançamos pela cidade infinita sob um céu que parece congelado, morto na eterna espera de um alvorecer que não virá. A cada lampejo de luz de um relâmpago ou de um carro voador, estamos mais e mais próximos do Edifício. E, de repente, ele parece ocupar todo o horizonte, todo o espaço possível, como um templo erguido pela própria mão de Deus. Uma gigantesca pirâmide cercada por torres inclinadas numa angulação impossível, toneladas de concreto, aço e vidro que não poderiam estar em pé e, ainda assim, estão lá, ao redor da pirâmide, como os ossos de um grande animal morto há muito tempo.


E dentro dessa pirâmide, sob a luz de uma das pequenas estrelas que víamos lá de cima, há um ventilador de teto, fumaça e dois homens. Eles conversam sobre jabutis, tartarugas e desertos diante de um aparelho que vai confirmar se um deles é realmente um ser humano ou um produto industrial.

Tudo gira em torno de memórias e emoções. Emoções bem intensas, inexprimíveis. E morte, é claro.

Definitivamente, Blade Runner é um dos meus filmes favoritos.

Acho que devia ter uns 10 anos quando assisti pela primeira vez. Eu estava na casa de meus primos e o filme passou tarde da noite. "Um clássico da ficção científica" eu falei para minha prima. Sei lá onde eu tinha ouvido isso. Ela achou o filme muito chato e não terminou de assistir. Eu fui até o fim, mas confesso que não entendi muita coisa.

Não lembro quando revi Blade Runner ou como foi que ele se firmou no meu imaginário. Memórias são importantes. Na realidade apresentada pelo filme, memórias são como recursos opcionais, como implementos técnicos que melhoram a performance dos produtos. No caso, os produtos são robôs feitos de carne, ossos e sangue: os Replicantes. Criados artificialmente, os Replicantes simulam perfeitamente a aparência de um ser humano normal, só que são muito mais resistentes, fortes e ágeis. São feitos para o trabalho braçal e perigoso das construções das Colônias Humanas em outros planetas.

(Ah, sim. A Terra está se tornando inabitável e os seres humanos estão dando o fora).


Os Replicantes têm um período de existência muito curto, de três a quatro anos. Após esse período, suas funções autônomas cessam. Ou eles morrem, dependendo do ponto de vista. Isso é feito como medida de segurança, para evitar rebeliões, e também para fomentar a produção e comercialização de Replicantes. Três a quatro anos. A adolescência dura muito mais tempo que isso.

Acontece que os Replicantes acabam desenvolvendo consciência e uma certa personalidade, e começam a questionar sua condição. Mais que isso, começam a questionar coisas como o sentido da vida, do universo e tudo mais. Alguns se rebelam e fogem do jugo de seus donos humanos. Há confrontos sangrentos.

Daí surgem os Blade Runners, os caçadores de andróides. (O que é coisa da tradução brasileira, porque a palavra andróide não é usada no filme...). Os Blade Runners policiam a Terra e tem permissão para desativar (a bala) qualquer Replicante transgressor que pise em nosso planeta.


O filme Blade Runner foi lançado em 1982, com direção de Ridley Scott, e tem muita história pra contar.

É baseado em uma história do escritor Phillip K. Dick, chamada Do Androids Dream of Eletric Sheep?, que no Brasil foi traduzido como O Caçador de Andróides, já na cola do filme. O livro foi publicado nos EUA pela primeira vez em 1968. Convém dizer que o filme não segue à risca as idéias do livro, apresentando diferenças bem gritantes. Coisas do diretor Ridley Scott, que não queria usar termos como "andróides" ou "robôs" no filme. A intenção era criar uma ficção completamente nova, incluindo novos termos. Inclusive, o título Blade Runner foi tirado de um livro do William S. Burroughs, célebre escritor beat.

Sobre Phillip Kindred Dick, convém dizer que é um dos escritores de ficção científica mais cultuados do século XX. Teve uma vida bem tumultuada, lidando com uma suposta esquizofrenia e quatro casamentos mal-sucedidos. Inseriu em seus livros temas como manipulação genética e alterações da consciência através de químicos. Muitos filmes, como Total Recall e Minority Report, foram baseados em seus livros.

A
memória, a consciência e as noções de realidade e identidade são temas que permeiam a obra de Phillip K. Dick e que estão presentes no filme Blade Runner. Se a biografia de Dick mostra uma vida bem turbulenta, a história dos bastidores do filme também está cheia de revezes e crises de identidade.

Em uma série de trocas de roteiros e perspectivas de abordagem do filme, Ridley Scott acabou entrando em conflito com a equipe de filmagem e com os produtores do filme. Ao assistir a cópia final, os produtores acharam o filme muito pesado e difícil de digerir. Por isso sugeriram que Harrison Ford, (que interpreta Richard Deckard
, o Blade Runner), fizesse uma narração em off, ajudando o espectador a compreender melhor o que acontecia na tela. E quando os produtores sugerem, você faz.

O fato é que mesmo com as "sugestões" dos produtores, o filme foi um fracasso de bilheteria. Após alguns anos, porém, ele foi redescoberto nas fitas de vídeo-cassete. O bom e velho VHS. O problema com Blade Runner é que ele não era um filme pipoca e no ano em que ele estreou, competiu com filmes como Poltergeist e E.T., o ExtraTerrestre. Passou batido pelas bilheterias, mas ele criaria um público bastante fiel com o VHS e as exibições pela TV. Alguns cinemas passaram a fazer sessões semanais ou mensais de Blade Runner e as salas enchiam. O filme tornou-se cult.

Um dia, lá pelo final da década de 1980, um estudante de cinema, sabe lá Deus como, topou com os rolos do filme com a edição original do Ridley Scott, que estavam largados em um arquivo. No zum-zum-zum dos estudantes, espalhou-se a notícia de que tinha sido encontrada a "versão do diretor". O filme começou a rodar pelas universidades, fazendo o maior bafafá, sendo exibido de maneira informal. A Warner Brothers (estúdio proprietário dos direitos do filme), ficou sabendo, mas ao invés de recolher o filme e cortar o barato dos estudantes, decidiu incentivar a divulgação de uma "versão do diretor". Chamou Ridley Scott, que fez algumas alterações e relançaram em 1992 o filme como Blade Runner - the Director's Cut.

Daí em 2007 foi lançado ainda uma outra versão, a Definitiva. Acontece que Blade Runner tinha alguns problemas de continuidade e nessa versão eles foram, aparentemente, todos sanados. Mais ainda, as imagens foram tratadas com supervisão do diretor Scott e, segundo ele, somente com a tecnologia atual ele conseguiu dar a cor e a profundidade que queria às imagens.

Ao fim das contas, temos quatro versões do mesmo filme:
  • A Versão Para Cinema (EUA): com narração em off do Harrison Ford, explicando desnecessariamente o que vemos na tela.
  • A Versão Para Cinema Internacional: igualzinha à versão americana, só que com algumas cenas sanguinolentas a mais.
  • A Versão do Diretor: Sem a narração em off e com algumas cenas a mais que tornam o filme muito mais ambíguo e interessante, possibilitando interpretações completamente novas. A maior diferença com a versão de cinema americana é o final, mais sombrio e seco. (Na versão americana eles terminavam passeando por uma improvável paisagem arborizada... feita com os restos de filmagem de O Iluminado, de Stanley Kubrik).
  • A Versão Final: remasterizada, com algumas cenas refilmadas para eliminar os problemas de continuidade, com qualidade de imagem excepcional.
E todas essas versões foram lançadas em um DVD triplo, que inclui ainda um disco com um documentário de três horas e meia de duração contando todos os detalhes da produção e curiosidades do tipo: Al Pacino ia fazer o papel principal de Blade Runner. Os outros atores possíveis eram Dustin Hoffman e Tommy Lee Jones (!). Mas o mais legal é ficar sabendo dos detalhes sórdidos da produção, como o corte do roteirista que não estava em sintonia com as necessidades mercadológicas ou os atritos entre o diretor inglês e a equipe americana de filmagem.
Numa apologia desmesurada ao consumismo desenfreado, ainda foi lançada uma maleta contendo um origami de unicórnio (figura chave no filme), uma miniatura do carro de polícia voador, um cristal holográfico com uma cena do filme e uma pasta com artes conceituais do filme. Tudo junto, é claro, com o tal DVD triplo. O tipo de material promocional caça-níqueis que é lançado procurando fisgar esses fãs fissurados sem noção.


Tipo eu.

Enfim...

(Em uma pesquisa na internet descobri que a Wikipedia lista um total de SETE versões de Blade Runner. Nem quis olhar, mas se você quiser, pode ler mais aqui).

Cheguei a escrever um artigo no mestrado sobre o filme Blade Runner. O modo como ele aborda as relações tecnológicas, o futuro distópico apresentado, a presença maciça das marcas, a mistura de culturas nas ruas...

Em Blade Runner, os produtos, os tais Replicantes, acabam desenvolvendo uma humanidade desconcertante. São mais apaixonados pela vida do que seus próprios criadores. São intensos, desesperados e incrivelmente inocentes.

A interpretação de Rutger Hauer como o replicante Batty é muito bacana. E é dele a mais célebre cena do filme: a morte do replicante sob a chuva, após salvar a vida de seu próprio algoz. Gente, é ducaralho. All those moments will be lost in time, like tears in the rain. Tudo isso embalado na sensacional trilha sonora de Vangelis em, talvez, o melhor de todos os seus trabalhos.

É curioso pensar Blade Runner em um mundo de perfis de orkut, msn e tals. Em um Orkut, alguns fabricam máscaras para serem exibidas para outros. São fotos posadas, escolhas de textos e comunidades que tentam construir uma imagem que provavelmente não corresponde a realidade, mas que apresentam uma identidade que a pessoa provavelmente almeja exercer. Por outro lado, há os que escancaram detalhes de sua vida cotidiana aos olhos de completos desconhecidos. O que tudo isso tem a ver com Blade Runner? Bom, acho que enquanto no filme produtos industriais (os Replicantes) adquirem traços humanos através de "opcionais" como implantes de memória, nos dias de hoje, alguns de nós, seres humanos, parecem cada vez mais assumir a idéia de se tornar um produto sensacional, exposto nas vitrines virtuais da internet. Algo para ser consumido.

Claro, são só divagações...

Gosto de Blade Runner pelo clima onírico, pela sensação de irrealidade que parece permear o filme inteiro. Mas, ao mesmo tempo, há toda uma intensidade emocional, uma busca por um sentido, talvez por uma felicidade inalcansável. Ao fim de tudo, simplesmente morremos. Todos nós. E todos aqueles momentos, reais ou não, se perdem.

Memórias, desejos, afetividades. Solidão. Tudo se desvanece, mais cedo ou mais tarde. Mas a busca vale a pena.

Há uma tristeza e uma certa beleza por trás disso tudo que me atingem bastante...

4 comentários:

Aleverson Ecker disse...

Então, me lembro também de ser pequeno e ver Blade Runner na Globo. Se não me falha a memória passou na Tela Quente em 1989. O sentimento é o mesmo "poxa, um filmão de ficção científica", não entendi bulufas, mas marcou... hehe!!!

Abração!

Patrícia Pirota disse...

Nossa...Talvez nem os caras que fizeram Blade Runner saibam escrever sobre ele tão bem quanto você! Ótimo texto Líber! Deu até vontade de ver de novo...=)

Ps:qt ao seu comentário...talvez não é que nos acostumemos com a solidão...tlavez ela já faça parte de nós..=)

Bjo.

Patrícia Pirota disse...

Hey! Se você quiser te empresto o cd...=)
Posso levar na semana que vem, aí tomamos um café e vc já pega o cd. Que acha?
Anyway...

Anônimo disse...

Dos livros do Phillip K. Dick eu adoro os filmes! :-)

Sério mesmo. Os filmes são bons, mas não consigo gostar dos livros. Já li uns 3 ou 4, e a sensação é sempre a mesma: trama enrolada e chato do ler, infelizmente.

Rodrigo
http://stulzer.net/blog