sábado, maio 03, 2008

I am Iron Man


No fim, trata-se de uma questão de caráter.

Lá pelo começo da década de 1960, o Stan Lee, Jack Kirby e cia começaram a criar toda uma nova mitologia de super-heróis dentro da editora que se tornaria a atual Marvel.

Os tradicionais heróis da editora concorrente, a DC Comics, como o Super-Homem e o Batman, viviam em cidades fictícias (Metropolis e Gotham City) e tinham aventuras fantasiosas num universo completamente maniqueísta. Isso é, heróis eram do "bem" e vilões eram do "mal". O bem vencia e o mal era punido. Simples assim.

Stan Lee e seus camaradas fizeram uma pequena revolução no universo dos super-heróis ao criar personagens que não viviam em cidades imaginárias, mas sim em simulacros de cidades reais, como a boa e velha Nova Iorque. Mais que isso, criaram heróis cuja identidade civil (o rosto por baixo da máscara) era tão importante quanto a persona fantasiada.

Exemplo clássico disso é o Homem-Aranha. Estudante, nerd, órfão, cheio das nóias, ele ganha super-poderes num acidente. Mas ao invés de usar esses poderes para "manter a lei e a ordem e lutar pelas forças do bem", a primeira coisa que Peter Parker faz é tentar ganhar uma graninha nas lutas livres. Só quando seu tio morre por causa de sua omissão é que Peter decide usar seus poderes com responsabilidade e tal. Quer dizer, não é só o desejo de fazer o "bem" que move o Homem-Aranha, mas principalmente um sentimento de culpa do tamanho do mundo.

Daí surgem personagens mais interessantes, ambíguos, ricos. Outra coisa legal é que os personagens criados por Lee e cia tinham um vínculo muito forte com a realidade contemporânea. Muitos tinham sua origem profundamente vinculada a elementos da Guerra Fria, como espionagem, medo dos comunistas e teste de armas nucleares. O incrível Hulk surgiu no teste de uma bomba gama, arma para ser usada contra o inimigo comunista. Aliás, o acidente que deu origem ao Hulk também se deve a ação de um "espião estrangeiro inimigo".

Assim temos uma "receita" de super-heróis Marvel: personagens que a princípio não são "heróis", que possuem motivações mais complexas, que tem suas origens mais profundamente vinculadas com eventos reais e ideologias características do início da década de 1960. Mais ainda: ao contrário dos personagens da DC, cujos super-poderes vinham de esferas extraterrenas (fossem ET's ou sobrenaturais), os supers da Marvel eram pessoas comuns que eram transformadas por algum acidente "científico", como explosões nucleares, exposição a radiação cósmica ou picadas de aranhas radioativas. A Era Atômica e os Filhos do Átomo.

Enfim, após todo esse blábláblá introdutório, senhoras e senhores, o Homem de Ferro.



Quando se fala em super-herói Marvel, o Homem de Ferro não é o primeiro a vir a nossa cabeça. Ao contrário de seus colegas Marvel, o Homem de Ferro não tem poderes. E quando se trata de caráter, ele é beeeem mais ambíguo. E por isso, talvez, bem mais interessante.

No filme que acabou de estrear, a origem do Homem de Ferro é atualizada, mas ainda é surpreendentemente fiel à historinha em quadrinhos de 1963. Temos um genial engenheiro criador de armas, que é feito prisioneiro pelo exército inimigo. Numa corrida contra o tempo para salvar sua própria vida, nosso engenheiro desenvolve com os poucos recursos disponíveis um extraordinário traje de combate e consegue escapar de seus algozes.

Tony Stark é esse engenheiro prodígio. Tony Stark é nerd, do tipo que passa horas na garagem, em cima de fios e placas de circuitos impressos inventando coisas. Deve ter sido aquele aluno insuportável que não só entendia a parte mais complicada da matéria como ainda dava dicas para o professor. Pra ele, resolver problemas insolúveis é pura diversão.

Mas, ao contrário do que se crê, ser nerd não implica em ter dificuldades com as garotas. Taí o seu Tony pra provar.




Rico e playboy, canastrão, machista e pegador. Usa e descarta mulheres com a mesma facilidade que faz com as camisinhas. Nesse sentido, ele está muito próximo do James Bond dos anos 60. Um cara que usa e abusa plenamente de todas as suas potencialidades. Um sujeito de bem com a vida, que não está nem aí pra questões sociais ou éticas. Um egoísta de marca maior. Um babaca.


Pelo menos, é o que parece à primeira vista. Mas o bacana de Tony Stark é isso: ele é ambíguo e incoerente.

Em uma história, Stark é entrevistado por um documentarista que lhe pergunta sobre as armas produzidas por sua indústria. Citando um modelo de mina terrestre, o documentarista, no melhor estilo Michael Moore, mostra a Stark fotos de crianças que foram atingidas por essas bombas. Crianças mutiladas.



E lá está Tony Stark, olhando de frente para um de seus muitos demônios.

Esse é o tipo de situação pela qual a grande maioria dos "super-heróis" não passa. O investimento em outras áreas, como telecomunicações e informática, não seria suficiente para manter o porte das indústrias Stark, então o abandono da produção de armas é lento. Porque Stark também é um empresário e é responsável pelos rumos de sua empresa. Não há soluções simplistas do tipo "não faremos mais armas" porque isso teria outras conseqüências.

Daí o Homem de Ferro. Um traje espetacular, que vale por um exército. E não é comercializado. O único que utiliza a armadura é Tony Stark. Ela é seu brinquedo, sua jaqueta de rock star. Ser o Homem de Ferro é uma questão de vaidade e de marketing. Mas, por outro lado, estar no fronte, em combate, resolvendo ou tentando resolver problemas diretamente, é outro motivo para usar a armadura. Ser o Homem de Ferro é também tentar assumir parte da responsabilidade pelo que acontece. É tentar compensar diretamente, de algum modo, os danos causados pelas armas produzidas. Mais uma vez, a culpa.


E assim Tony Stark tenta consertar o mundo à sua maneira, um pouquinho a cada dia.

Ainda há outros senões com relação à "integridade moral" desse "super-herói". O alcoolismo, por exemplo. Stark tem problemas sérios com a bebida. Já teve que deixar de vestir sua armadura por longos períodos, enquanto lutava contra o vício. Entretanto, esse tipo de fraqueza parece tornar o personagem ainda mais interessante, ao mesmo tempo que o torna mais vil, mundano.


É por isso que a escolha de um ator como Robert Downey Jr para interpretar o Homem de Ferro no cinema é tão acertada. Há semelhanças extraordinárias nas "biografias" do ator e do personagem. A verdade é que o Homem do Ferro no filme acabou ficando com uma personalidade bem mais cativante que nos quadrinhos.



Aliás, a verdade mesmo é que tudo isso que discorri aqui sobre o personagem são mais observações pessoais minhas do que atestados de boas histórias. Se você for procurar histórias do Homem de Ferro, vai encontrar um monte de episódios enfadonhos e decisões narrativas desastrosas.

O problema com a Marvel é que ao tentar incorporar um nível de realidade e profundidade em seus personagens, ela ignorou o fator tempo. Não há uma evolução real e procura-se manter ao máximo o status quo. Para o bem ou mal, as coisas mudam e tudo que começa um dia termina. Esse fato é solenemente ignorado no mundo dos quadrinhos. Seria bom que personagens que morrem continuassem mortos. Mas enfim, essas são outras observações pessoais minhas.

Se você assistiu ao filme do Homem de Ferro e não conhecia o personagem dos quadrinhos, ao procurar uma hq atual vai encontrar um Tony Stark bem mais sério e noiado que o do filme.


Recentemente foi escrita uma grande série de histórias chamada "Guerra Civil". Nela, o governo norte-americano, por questões de segurança, decidiu cadastrar todos os super-heróis. Isso significava o fim das famosas identidades secretas e um registro de todos aqueles que pretendiam atuar no ramo. (O que, se você parar pra pensar, é algo que faz sentido.) O fato é que a decisão do governo divide as opiniões entre os super-heróis. Parte torna-se renegada, recusando-se a aceitar o registro. Por outro lado, aqueles que aceitam se registrar são liderados pelo Homem de Ferro.

Nesse momento, o Homem de Ferro passa a ser visto como um vilão na história. Um tipo de traidor fascista que quer submeter os colegas ao jugo do "sistema". Mas o empolgante com essa história é que é difícil tomar um partido. Tony Stark faz a sua escolha e luta pelo que acredita, mesmo que pra isso tenha que sentar o sarrafo em alguns de seus amigos mais próximos, como o Homem-Aranha ou o Capitão América. Muito bem escritinha, a história tem momentos dramáticos bem eletrizantes.


No fim, fico imaginando o quão extraordinárias são essas mitologias de super-heróis e o quanto nós mesmos, os leitores, acabamos contribuindo na construção desses personagens, preenchendo lacunas, questionando perspectivas, apropriando-se dessas figuras fantásticas.

Certo ou errado, bem ou mal, amigo ou inimigo, quem sabe?

Os quadrinhos já foram mais simples... (será mesmo?)


"Eu nunca me considerei perfeito. Sempre soube que haveria sangue nas minhas mãos. Eu estou tentando melhorar o mundo".
Tony Stark, o Homem de Ferro.

3 comentários:

José Aguiar disse...

ótimo ensaio! E eu achando que você ia discorrer sobre o filme! Agradável surpresa Mestre Liber!
Abs

Cinthia disse...

Cara... Você deixa qualquer crítico de cinema na sola do chinelo.

Parabéns pelo post.

Liber disse...

Muito obrigado, pessoas.

Abs!