sábado, junho 07, 2008

As Paredes de Nossa Prisão


UOL Últimas Notícias: Leões escapam de jaula em zoológico de Bagdá
16h42 - 21/04/2003

Por Rosalind Russell

BAGDÁ (Reuters) - Enlouquecidos pela fome, quatro leões do zoológico de Bagdá escaparam de suas jaulas durante o fim de semana e foram mortos por soldados norte-americanos. Os leões, que não eram alimentados há quatro dias, saíram de suas jaulas após abrir caminho por um muro destruído. Dois deles teriam ameaçado os soldados norte-americanos, disse o sargento Matthew Oliver. "Dois deles ameaçaram nossos rapazes," disse Oliver da 3a. Divisão da Infantaria. "Tivemos que matá-los."

Em um almoço com uma colega, comentei sobre um cartaz que fizemos divulgando um evento. No cartaz, tomamos como base a imagem clássica do Tio Sam apontando o dedo e dizendo “Queremos você”. Minha amiga olhou perplexa para mim e disse: “Como vocês puderam fazer uma coisa dessas?”. Demorei pra entender do que ela estava falando.

Era sobre usar uma imagem norte-americana para divulgar um evento de estudantes brasileiros. Isso era absurdo, algo que jamais aconteceria na velha Federal. Daí me lembrei que ela fazia Filosofia na Federal. E mais do que de repente, me lembrei dos meus tempos de universidade. Dos meus colegas esclarecidos, cultos e engajados socialmente. E extremamente aborrecedores.

Eu pensava em fazer alguma coisa, qualquer coisa, e sempre tinha alguém pra me lembrar do compromisso social, da ideologia, da valorização da cultura brasileira. Fosse fazer uma história em quadrinhos despretenciosa até um cartaz ou um livro ilustrado, tudo tinha que ter um compromisso social. Tudo.

O que mais me enervava era a questão ideológica. Os norte-americanos queriam nos impor sua cultura, eles diziam. Tínhamos que questionar tudo que eles produziam através de filmes e livros e tal. Lógico que meus colegas tinham razão. Mas daí entrava outro problema.

Eu tinha me criado a base de desenhos animados e gibis. Todos feitos pelos ianques. Graças aos desenhos do coelho Pernalonga e seriados como A Feiticeira, aos cinco anos de idade eu era mais familiarizado com as figuras de George Washington e Benjamin Franklin do que com D.Pedro I e Santos Dumont. A cultura da alienação. Enfim... será que isso fez de mim alguém sem consciência crítica nenhuma? Eu me tornei alguém dominado, sem opinião própria, subserviente?

Será, véio?

Tipo um bicho no zoológico, que come só o que os tratadores servem e enxerga só até onde as paredes e grades permitem?


Quando li o álbum Os Leões de Bagdá (Pride of Baghdad) eu pensei muito nesse lance de domínio e subserviência. Porque, enquanto eu pensava em algo pra escrever sobre essa fantástica história em quadrinhos, não conseguia evitar tecer comparações com o Rei Leão da Disney ou Madagascar da DreamWorks. E isso me perturbava. Uma história bacana que nem Leões de Bagdá e a minha principal referência cultural de comparação eram apenas dois desenhos animados hollywoodianos? Esse era meu horizonte?

Depois, procurando na Internet, achei uma comparação com A Revolução dos Bichos, de George Orwell, que eu não li, mas que talvez seja um parâmetro mais adequado do que O Rei Leão. A história do leãozinho Simba era legal, tinha toda aquela relação com Hamlet e estava permeada dos episódios de amadurecimento e redenção que o cinema de Hollywood preza tanto. Já Os Leões de Bagdá é bem diferente.

É baseado em um episódio verídico, que aconteceu na época da invasão americana ao Iraque. Quatro leões fogem do zoológico após um bombardeio. Os leões Zill, Noor, Safa e Ali falam entre si exatamente como os leões e bichinhos dos desenhos da Disney. Mas o teor de suas conversas, suas lembranças e ações jamais teriam sido aprovados para aparecer em um filme “para toda a família”.

De certa forma, é pela tragédia que Os Leões de Bagdá acaba tornando-se muito mais próximo de Hamlet do que O Rei Leão. E há também toda uma questão ideológica e política que é colocada de maneira muito bacana pelos autores do álbum. Não há respostas, apenas situações que parecem evocar perguntas que não conseguimos formular. Há um questionamento político implícito, que aproxima o álbum de A Revolução dos Bichos. Ao mesmo tempo, há personagens que são tragados por uma situação assustadora e incompreensível, gerada por uma autoridade invisível. Nesse sentido, Os Leões de Bagdá tem muito a ver com os textos de Franz Kafka.

Os leões são como as pessoas comuns. Vivem suas vidas. Uns são acomodados, alienados, satisfeitos com a rotina. Outros sonham com a conquista de sua liberdade e planejam ativamente contra o sistema que os mantém cativos. Quando a guerra chega, os animais ficam perplexos. De repente estão livres e vagam por Bagdá. Passam por uma série de episódios que suscitam as mais diversas reflexões sobre a nossa natureza humana e o que fazemos com nosso mundo. A maioria delas é bem sombria.

(Os leões, ao caminhar pelas ruas da cidade, imaginam estar dentro de outro zoológico. Lendo essa historinha, fiquei pensando nesse grande zoológico em que nós vivemos.)

O problema de Os Leões de Bagdá, se é que isso constitui um problema, é algo na narrativa. Ela é muito parecida com a narrativa de um filme de Indiana Jones: há uma sucessão ininterrupta de episódios de aventura. Os bombardeios, a fuga, o embate com os macacos, o confronto com os tanques e assim vai. Se a história tivesse um pouco mais de páginas e talvez um ritmo um pouco menos alucinante, talvez fosse ainda mais favorável para incitar a reflexão. Ou talvez tudo isso seja só implicação minha.

De qualquer modo, esse fato só realça outro: ao fim das contas, Os Leões de Bagdá também é uma produção ianque. Por um lado, o álbum inspira questionamentos contra a guerra e a dominação, por outro, é produto do sistema que mantém essa mesma guerra e dominação. Inclusive, é um produto premiado dentro desse sistema. Mais ou menos como os bottons, camisetas e o filme de Che Guevara.

Alienação o cacete.

O texto de Brian Vaughan é ótimo e a arte de Niko Henrichon é maravilhosa. São dele os esboços e páginas de quadrinhos que ilustram esse post.

Os Leões de Bagdá é uma história, acima de tudo, sobre o Grande Absurdo. As situações inexplicáveis causadas por autoridades distantes que brutalizam a existência de seres comuns. É uma história sobre os crimes que cometemos contra os animais, a natureza e nós mesmos em nome da democracia, civilização e liberdade.

Uma história básica sobre a estupidez humana.

Mas essa são as minhas impressões. Vá lá ler você e tirar as suas próprias...

Os Leões de Bagdá foram publicados recentemente no Brasil pela editora Panini, que produziu um site promocional bem bacana, com bastante material sobre o álbum, incluindo uma entrevista com o autor Brian Vaughan.

Acima você vê uma foto do tigre Mandor, propriedade pessoal do filho mais velho de Saddam Russeim, com a pele colada aos ossos pela fome. Isso é o que mais me assombra. Os animais não entendem o que acontece. São sacrificados, morrem em sofrimento por algo que não compreendem.

E muitas, muitas pessoas também...

Um comentário:

Gafanha disse...

Cara!
Teu trabalho é incrivel!
Quer brincar com a gente?

www.guildadedesenhistas.blogspot.com