domingo, junho 29, 2008

Mulher de Papel

Katchoo e Francine, de Estranhos no Paraíso

Durante minha infância e adolescência, li várias e várias histórias em quadrinhos. Praticamente todas eram protagonizadas por super-heróis ou animais falantes. Se eu não me engano, a primeira história em quadrinhos com “gente normal” que eu li foi Estranhos no Paraíso (Strangers in Paradise), do Terry Moore. Era uma publicação da Editora Abril, datada de abril de 1998. Havia um texto de apresentação da história que dizia:

Nada de homens de roupas colantes, nem de mulheres siliconadas. Estranhos no Paraíso é a história de duas jovens bem reais, tangíveis, ao alcance dos nossos olhos. Você estuda com elas ou mesmo encontra com elas andando por aí. Você pode até não enxergá-las porque às vezes se escondem no meio da multidão. Mas elas estão lá. Choram e riem, amam e odeiam, e sonham com um amanhã que talvez nunca aconteça.

Capa de Estranhos no Paraíso, Editora Abril, 1998

Gostei muito da história. Ainda estou esperando pelo fim da longa série de aventuras e desventuras de Francine e Katchoo, que são publicadas esporadicamente aqui no Brasil.

Pensando bem, antes mesmo de Estranhos no Paraíso eu já tinha começado a tomar gosto pelos quadrinhos com “gente normal” em Sandman. Na série de histórias Um Jogo de Você, o que movia a trama era uma crescente tensão entre o mundo do sonho e a realidade das ruas. Neil Gaiman fez de Barbie, Wanda, Foxglove e Hazel personagens muito convincentes, naturais. Pouco depois, nas mini-séries da Morte (Death: The High Cost of Living e Death:The Time of Your Life), Gaiman traria de volta essa abordagem do cotidiano. Lógico que existiam os tais elementos mágicos e seres fantásticos, mas a construção dos personagens “normais”, “mundanos”, era muito bem feita.

Página de Deaht: The Time of your life

Nessas histórias, o que mais me fascinava eram a noite, os bares, os encontros inesperados, os romances, as decepções. Tudo o que já acontecia na vida real, mas ainda assim era fascinante. Parecia material riquíssimo para se trabalhar em cima.

Sempre cultivei um desejo de criar ficções, de trabalhar com quadrinhos e fazer histórias como aquelas: que mostrassem as pessoas e suas relações umas com as outras dentro das entranhas da cidade. As festas estranhas com gente esquisita.

Mais tarde fui conhecendo outros artistas com outras abordagens do cotidiano.

O pessoal dos quadrinhos Undergroun norte-americano (Harvey Pekar, Daniel Clowes, Robert Crumb) e brasileiros como Laerte, Angeli, o DW, os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, o José Aguiar... Aliás, eu acho muito curioso que alguns trabalhos desses caras, (Mesa para Dois, dos gêmeos e Folheteen, do José) tenham como tema as aventuras cotidianas de moças. A mesma proposta do Gaiman e do Terry Moore. Estranho fascínio de autores homens por protagonistas femininas...

Ainda na lista de histórias de cotidiano, podemos contar os trabalhos online de Meredith Gran e Samanta Flôor. Ah, se considerarmos que Samanta faz um tipo de quadrinho autobiográfico, poderíamos incluir ainda nessa lista os trabalhos de Marjane Satrapi, Alison Bechdel e Guy Delisle.

Falo de toda essa gente porque o tipo de história que eles produzem é o meu tipo favorito. Histórias sobre o cotidiano, o ordinário cotidiano que parece ocultar um algo mais que intriga e fascina. E o modo de desnudar esse algo mais é coisa de cada autor, que tem seu olhar bem característico.

A mais recente história dessa linha que li é LOCAL. Trata-se de uma série de histórias que fogem da vertente “autobiográfica” e é provavelmente um dos melhores trabalhos que já li nesse estilo.

Ou talvez o melhor.

LOCAL foi feita por Brian Wood (roteiro) e Ryan Kelly (desenhos) e basicamente, conta a história de Megan McKeenan. (Olha aí a moça protagonista de novo!)

Nas palavras de Brian Wood:

LOCAL, pura e simplesmente falando, é uma série de histórias curtas sobre pessoas e os lugares onde elas vivem. Eu fiquei um pouco obcecado com a idéia de localidades e cidades natais por algum tempo, e até criei uma pequena empresa de camisetas dedicada a isso. A vida funciona de um jeito muito diferente quando você sai dos grandes centros populacionais, e alguns dos melhores que já assisti e livros que já li ocorrem em lugares que nunca teriam passado pela minha cabeça. No entanto, o lugar não pode ser a história. Entrar nos mínimos detalhes de qualquer lugar específico incorre no risco de alienar qualquer um que não more lá. As histórias de LOCAL são universais, quer você more em Portland, na região noroeste do Pacífico, nos EUA ou em outra parte do mundo. Mas, pros lugares, as histórias contêm marcos e referências que são instantaneamente reconhecíveis.

Cada edição apresenta uma história independente em que Megan ora é a protagonista, ora figurante. A cada episódio se passa cerca de um ano depois do episódio anterior e encontramos Megan em uma cidade diferente. Ao término das 12 edições, Megan, a moça que começou as andanças com 17 anos, será uma mulher com seus trinta anos bem vividos.

A presença constante da personagem Megan e a proposta de ambientar cada história em uma localidade diferente constituem a unidade temática que torna a série coesa. Entretanto, não se trata da “história de Megan”. As histórias de Brian Wood acabam desconstruindo a idéia de “protagonista” enquanto herói indispensável à trama. Em LOCAL, Megan não é o centro do universo. Há dois aspectos principais que acabam dando o tom das histórias: o tempo presente e o acaso.

Os capítulos são independentes entre si. Não há flashbacks ou outros recursos que forneçam qualquer informação sobre Megan, então vamos conhecendo a personalidade da moça a partir dos momentos apresentados no decorrer da série. O amadurecimento da personagem é mostrado a cada edição de modo fragmentado, porém coerente. O que interessa é o momento, o episódio vivido. Jamais fica muito claro o que aconteceu no tempo de um ano que separa uma história da outra. Ao leitor só cabe imaginar. Portanto, o único tempo que realmente importa é o presente. E esse tempo presente, o tempo vivido em cada episódio, pode variar de 15 minutos a dois meses.

O acaso é, provavelmente, um dos aspectos mais importantes de LOCAL. É o acaso do dia a dia, o surpreendente acaso que irrompe do nada e pode nos deixar marcas profundas para toda uma vida. Megan não é o centro do universo. A história de Megan não é mais importante que a de outros personagens. Os roteiros de Brian Wood enfatizam isso constantemente. Cada capítulo é uma surpresa e detalhar a trama de cada um deles pode estragar o prazer do jogo.

Mas são surpresas despretenciosas e coerentes. Portanto, não espere nada no estilo O Sexto Sentido ou Os Outros. LOCAL mantém seus dois pés bem firmes no chão. Não são “reviravoltas surpreendentes” que acontecem, mas é a passagem de tempo suprimida entre uma história e outra que nos faz pensar sobre como momentos de uma mesma vida podem ser tão diferentes.

LOCAL será publicado no Brasil pela Editora Devir em dois volumes. O primeiro, LOCAL: Ponto de Partida, contendo os seis primeiros capítulos da série, acabou de ser lançado e pode ser encontrado nas livrarias e lojas especializadas. Esse volume apresenta ainda uma seção de esboços e estudos do desenhista Ryan Kelly. Foi incluída também uma seção de comentários dos autores, que acompanhava cada edição original. Nesses comentários, eles falam sobre o tema da história apresentada, dificuldades e curiosidades na sua produção e ainda sugerem uma “trilha sonora”: uma seção de músicas que inspiraram o trabalho.

LOCAL é um conjunto de histórias sobre o cotidiano, o acaso, o amadurecimento, a solidão e mais um monte de temas que vão pulando aqui e ali. É também um trabalho extraordinário de roteiro e narrativa visual. Vê-se, nas histórias e nos comentários de fim de capítulo, que Ryan Kelly e Brian Wood envolveram-se com honestidade e paixão à elaboração dessa obra.

LOCAL é indispensável pra quem gosta de quadrinhos e, principalmente, pra quem pensa que não gosta.


Um comentário:

Anônimo disse...

Eu li várias do Strangers in Paradise. Gostava. Mas gostava mais ainda da Love & Rockets.

Agora esta Local deve ser muito legal. Vou ver se tem no Chico...

tks!
Rodrigo
http://stulzer.net/blog