sábado, junho 14, 2008

Tons de Cinza

As lembranças são distantes, pouco confiáveis. As primeiras lembranças, sabe. Quando começamos a nos dar conta que existimos como gente. A perspectiva era diferente, o mundo era maior.

Meu mundo do dia a dia se limitava a nossa velha casa, ao quintal pequeno de chão acimentado, cinzento. E à tv. Uma tv preto e branco, desenhos animados da Hanna Barbera, episódios dos Três Patetas e outras coisas que hoje são um borrão na memória.

Começou com uma série de TV, em que o Bill Bixby interpretava o cientista Banner que virava o monstro Hulk, encarnado pelo fisiculturista Lou Ferrigno. Uma série jóinha feita no final dos anos 70.


Eu devia ter uns cinco anos quando assisti pela primeira vez. O seriado passava de noite e na hora que o doutor Banner ia virar o monstro eu fiquei com medo. Coisa de criança, claro... mas de fato, havia algo assustador nos olhos esbugalhados que ficavam quase brancos. Havia um terror nos olhos dele, um misto de raiva e medo. E daí ele ia inchando, a roupa rasgava, a humanidade aos poucos sumia. A transformação me impressionou muito quando era uma criança.

Olhando hoje, é engraçado lembrar que o que disparava as transformações do doutor Banner em Hulk eram frustrações das mais variadas. Desde ser humilhado ou agredido até um pneu furado ou a demora do atendimento de uma telefonista. Imagine só: o computador trava, você não consegue salvar seu trabalho, fica fulo, vira Hulk e destrói o escritório inteiro. Engraçado. (E tentador...)

Eu lembro também que eu tinha um álbum de figurinhas com fotos dos personagens da série de tv e desenhos dos quadrinhos do Hulk.

A primeira revista, de 1962

O Hulk surgiu nas histórias em quadrinhos da Marvel em 1962. Originalmente era cinza, mas por motivos técnicos de impressão, os caras acabaram usando a cor verde que era mais fácil de aplicar. Quando o vi pela primeira vez na vida, na minha tv preto e branco, o Hulk também era cinza.

Pela minha infância, curti os desenhos animados e os quadrinhos do Hulk. Tinha um boneco do Hulk de plástico, que deve estar lá no sótão em algum lugar. Era um dos meus brinquedos favoritos.

O Hulk era (e ainda é) um personagem relativamente simples: não leva desaforo pra casa e quebra tudo pelo caminho. Resolve as coisas no braço. Simples assim.

À primeira vista.

Lá pelo final dos anos 80, eu ia na biblioteca da minha cidade trocar gibis por outros. Foi lá que comecei a acompanhar uma nova fase nos gibis do Hulk. A versão verde que dizia "Hulk esmaga" tinha sido substituída por uma versão cinza. Explico: após uma complicada trama em que tentou pela milésima vez se "curar" do Hulk, o doutor Banner acabou tendo um efeito colateral e passou a se transformar em uma versão cinza do monstro, um pouco menor e mais fraca, parecida com a primeira versão de 1962.

Só que esse Hulk Cinza era bem mais esperto que o verde. E muito mais interessante enquanto personagem. Eu acompanhei todas as histórias desse novo Hulk durante anos. Durante esse período "cinza", o autor foi o Peter David, que fazia histórias bem sacadas, que misturavam humor, aventura e um certo suspense e brincavam com o jogo entre as personalidades de Banner e Hulk.


Acho que era esse lance da dupla personalidade que me atraía no personagem. Ao contrário dos outros super-heróis, Banner não podia dizer que "era" o Hulk. Na verdade, o Hulk estava mais pra alguma coisa que tinha surgido de dentro dele e ameaçava consumir sua existência. Mais ou menos como um câncer.

Outra coisa que me atraía é que, apesar de lutar com super-vilões, o Hulk não era bem um herói. Muitas vezes foi combatido como ameaça por heróis como o Homem-Aranha e o Homem-de-Ferro. O Hulk era um monstro e na sua fase cinza, foi um anti-herói. Posteriormente, o personagem teve outras fases, com modificações expressivas na sua personalidade e na sua relação com a identidade de Bruce Banner.

Em 2003 veio o filme do Hulk do cineasta Ang Lee. Minhas expectativas eram altíssimas e confesso que fiquei muito satisfeito na primeira vez que vi o filme.


Ang Lee tinha feito uma abordagem toda diferente do personagem. Discutia ali a relação entre Bruce Banner e seu pai (que Peter David havia apresentado em sua fase no gibi).

Banner, ao contrário de outros heróis como Batman e Homem-Aranha, tinha tido grandes traumas na infância causados por seu próprio pai. Muito violento, o homem batia no filho e na mulher. Numa das brigas, acabou matando a mãe diante do pequeno Bruce. Se o assassinato dos pais por um bandido criou toda a motivação de Batman, o que a morte de sua mãe pelas mãos de seu próprio pai causou em Banner? Com o trauma, um bloqueio dessas memórias.

Mais tarde, ele cresce para se tornar um personagem introspectivo, cheio de marcas emocionais graves, com grandes dificuldades de se relacionar. Banner se abriga no racionalismo e na dedicação completa ao trabalho. Daí vem o acidente e a transformação no monstro, que é também a extraordinária personificação de toda a frustração de uma vida.

Ao introduzir o pai de Bruce no filme, Ang Lee fez uma história sobre esses episódios de infância que nos acompanham e nos definem pela vida. Fez uma história sobre um homem que assombrado por lembranças inalcançáveis que volta a encontrar seu pai anos depois. Trata-se de uma história com ares de tragédia grega, sobre um homem que tem que enfrentar os demônios encarcerados nas profundezas de sua alma.

Ao final, o diálogo entre Nick Nolte (o pai, simplesmente genial) e Eric Bana (o filho) tem todo um ar de teatro. E o confronto final, com uma luta indefinível que atravessa os céus, entre nuvens e relâmpagos, rochedos e água, escancara toda a verve mitológica do filme. É um confronto entre forças divinas, primitivas e intensas.


O filme de Ang Lee me fascinou muito, por todas essas razões. O personagem de Bruce Banner dedica-se a seu trabalho, procurando inconscientemente por algo maior e indefinível e é seu pai que lhe revela o caminho para a descoberta. "Tudo que sua mente extraordinária procurou durante todos esses anos está dentro de você". Ao mesmo tempo, é somente pela destruição desse mesmo pai que Banner conseguirá cumprir com seu destino.

Muito legal.

Daí agora tem o novo Hulk, esse que estreou com o Edward Norton.

O fato é que, apesar de tudo, o filme do Ang Lee não agradou quase ninguém. E por razões bem válidas: não é o que as pessoas esperavam de um filme do Hulk. Afinal, ele é o Hulk. Tem que quebrar tudo, rosnar, apavorar a cidade. No filme de Ang Lee, ele parece uma bola de borracha verde. Parece não ter peso e o verde de sua pele é claro, quase fantasmagórico. Aliás, Ang Lee faz uma série de considerações sobre os significados da cor verde nos comentários do DVD. Havia toda uma associação até com a "Destino Verde", espada de seu outro filme, O Tigre e O Dragão.

Na verdade, o Hulk de Ang Lee é como um espírito ou a visualização de um turbilhão de emoções. Ao fim das contas, o público tinha razão de ficar decepcionado. Não era o Hulk que esperavam ver.

Já no novo filme do Hulk, as coisas mudam de figura.


Esse novo filme segue à risca a fórmula do recente filme do Homem-de-Ferro: histórinha bem simples, que evolui linearmente e não exige raciocínio quase nenhum. Mas apesar de simples, não é um enredo tolo ou ofensivo à inteligência do espectador, como foi Homem-Aranha 3.

Entretanto, é bom deixar claro que o filme do Homem-de-Ferro é melhor do que o novo Hulk por dois aspectos principais. Primeiro, a trilha sonora. Iron Man do Black Sabbath e todas as outras sonzeiras fazem do filme uma experiência extremamente empolgante. (No sentido de trilha sonora, o filme do Ang Lee contava com a ótima música de Danny Elfman, bem mais expressiva que a trilha sonora do novo filme). Em segundo lugar, de toda a leva de super-heróis, o Tony Stark de Robert Downey Jr é o mais carismático de todos. O ator construiu um personagem estiloso, ambíguo e interessante, coisa que ninguém até agora tinha conseguido.

Mais fiel à série de tv dos anos 70, o novo filme do Hulk mostra Banner como um fugitivo perseguido pelo governo. Em busca da cura, ele acaba se reecontrando com Betty Ross, grande amor de sua vida e filha de seu implacável perseguidor, o general Ross. Soma-se a isso a presença de Emil Blonsky, soldado que vai se submeter a uma série de experiências que o transformarão em uma outra criatura de força extraordinária, o Abominável. Daí os dois monstros se enfrentam.

Apesar de ter uma orientação mais para a ação e a pancadaria, o novo filme tem umas partes bem interessantes. Transformar-se no Hulk é uma maldição e esse tem uma passagem que representa isso melhor do que qualquer outra que já vi: após levar semanas para se instalar e começar nova vida, o Banner se transforma em Hulk. Quando volta ao normal, desperta em outro país a centenas de quilometros de distância de onde morava. Tendo apenas os trapos do corpo, ele caminha para uma praça de uma cidadezinha e começa a mendigar.

Quando vi a cena, o Edward Norton com seu corpo franzino, sentado de cabeça baixa e as mãos estendidas à espera de uma esmola que me dei conta do completo sentido da palavra "maldição". Transformar-se no Hulk era perder tudo e ter que começar praticamente do zero. Sempre.

Pra mim, apesar de tosco e bruto, o Hulk podia ser usado pra abordar assuntos bem mais interessantes sobre instintos reprimidos, mágoas, sexo, violência, culpa, tentação do poder, auto-conhecimento, solidão e outras coisinhas que todos nós carregamos lá no fundo de nossas cabeças...

Enfim, ao fim das contas, o clima de perseguição e a briga entre os monstros fazem o ingresso valer a pena.

Se assistirem o filme, reparem na semelhança entre a abertura do filme e a do seriado dos anos 70...

video

2 comentários:

Anônimo disse...

Eu via também o seriado. A maior tristeza era ver ele, no final do capítulo, pegando a estrada, camisa de flanela e mochila nas costas, com aquela musiquinha de fundo.

Dava uma tristeza...

Rodrigo
http://stulzer.net/blog

José Aguiar disse...

Genial! memoria afetiva e elucubrações muito boas sobre o verdão. Temos q debater o filme novo, velhao! Da uma olha em meiu blog que tem um post singelo sobre o Hulkices também!
www.joseaguiar.com.br/blog
Abs!