sexta-feira, julho 25, 2008

Fim da Infância

O segredo da mágica está na suspensão da descrença. Aceitamos que um homem pode voar ou subir pelas paredes e a mágica acontece. O menino corre pela sala com um boneco de Homem-Aranha na mão. A mágica acontece.

Na última cena de Homem-Aranha (o primeiro filme), vemos o herói dançando entre os prédios com sua teia, à luz do pôr-do-sol. Para mim, foi algo mágico, emocionante. Era um daqueles heróis de papel da minha infância que de repente ganhava substância e pulsava vivo na grande tela.

Após anos acompanhando suas histórias em quadrinhos, esses heróis e seus mundos fantásticos se tornam familiares para nós, leitores. Ganham uma dimensão maior. Nós passamos a nos importar com eles, passamos a conhecê-los. Eles são mais do que um uniforme colorido e brigas fabulosas. Cada um encerra uma mitologia bem específica. Uma série de significados próprios que passa despercebida aos não-leitores (e, às vezes, a muitos leitores também).

Nós crescemos e os personagens também.

Aos poucos, percebemos que a roupa colorida é constrangedora. De repente, percebemos que o bandido é capaz de fazer coisas bem piores do que roubar um banco. A infância vai acabando e vamos nos dando conta de que não há superamigos nem soluções mágicas. Nem sempre vamos terminar o dia juntos e rindo.

Crescemos e nossos amigos imaginários desaparecem. Relações obscuras entre nossos parentes mais próximos tornam-se cada vez mais perceptíveis. Os silêncios de mamãe, as ausências de papai. Começamos a perceber as diferenças entre o café da manhã da família da propaganda de margarina e o nosso café da manhã. Já não estamos tão seguros. Nunca estivemos.

Na TV, Batman e Robin eram amigos e batiam em bandidos inofensivos. Um mundo colorido de Pow!, Soc! e Crash!, onde a maior ameaça era ser transformado em um sorvete de casquinha gigante pelo Senhor Frio. Ninguém saia ferido. O Batman do desenho dos Superamigos, o Batman dos gibis, o Batman barrigudo do seriado. Esses eram os personagens que eu conhecia. Eles eram o Batman Criança, correndo com seu amigo pela cidade, brincando de salvar o dia. Sendo importante.

De lá pra cá conheci muitos Batmans.

Mais ou menos em 1988 apareceu um gibi grosso, de várias páginas, chamado Batman:O Cavaleiro das Trevas. Naquele gibizão vi um Batman envelhecido e amargurado vivendo em uma cidade gigantesca corroída pela imundície e violência. Violência como nunca tinha visto antes em uma historinha de super-heróis: prostitutas desfiguradas por cafetões, indigentes assassinados nos becos, estupros, agressões. Em seu manto, Batman se transfigurava em um anarquista que se divertia espancando marginais e despistando a polícia. Era um Batman Punk, adolescente. Talvez ouvisse escondido Garotos Podres e Replicantes.

Foi a partir dali que uma certa “realidade” começou a impregnar aos poucos as histórias do Batman. Olhando lá de cima, do alto dos prédios, Gotham City parecia tornar-se cada vez mais suja.

Depois disso, houve uma multidão de Batmans que se espalharam pelas páginas de gibis, telas de cinema e tv. Muitos eram desinteressantes, quando não constrangedores.

No filme de Christopher Nolan, Batman Begins, de 2005, Batman dá os primeiros passos para uma realidade mais próxima da nossa. O novo Batman é, antes de tudo, Bruce Wayne, um homem impulsionado pela necessidade de tentar corrigir o irrecuperável. Conscientemente propõe-se a criar uma identidade, uma personagem com um propósito bem definido. Não só combater criminosos, mas tornar-se um símbolo. Em uma sociedade de espetáculo, tentar transformar o mundo num nível mais profundo, inspirando atitudes nas pessoas. Com essa linha de pensamento, Christopher Nolan começa a trazer o personagem de papel para o mundo real. Nesse começo, algumas coisas ainda funcionam como nos velhos moldes. Ainda há um pé no mundo fabuloso de vilões com planos mirabolantes e máquinas excêntricas (como microondas que afetam apenas a água dos encanamentos). Mesmo assim, Batman ganha uma maturidade, um ar um pouco mais adulto.

A continuação de Batman Begins chama-se O Cavaleiro das Trevas, exatamente como o quadrinho de 1988, mas está longe de ser uma adaptação. As duas histórias são completamente diferentes. Em comum, além do título, elas têm o fato de que jogam um novo olhar sobre a personagem.

O Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan é uma seqüência direta da história apresentada no primeiro filme. Traz para a “realidade” dois dos mais clássicos inimigos de Batman, o Coringa e o Duas-Caras. Ambos estão também na HQ O Cavaleiro das Trevas. São vilões icônicos e o modo como Nolan os apresenta é totalmente fiel à essência dos personagens.

Muito já foi dito sobre esse novo filme. O Cavaleiro das Trevas é praticamente uma unanimidade entre a crítica. Livre de excessos “fabulosos”, o filme extrapola os personagens dos quadrinhos em um roteiro que potencializa suas essências ao máximo. Os personagens tornam-se os símbolos plenos de seus significados.

O Coringa é aterrorizante e sedutor ao mesmo tempo, por representar a completa anarquia. Ele não tem planos a não ser corromper completamente o seu redor. Não quer dinheiro, não quer conquistar o mundo, não quer ser o chefe do crime. Ele só quer despertar o que há de pior em você, só quer que você passe por cima dos limites que você mesmo se impôs. Cegar crianças e matar velhinhas. O total desapego a tudo o que o sistema tinha para oferecer, incluindo a sua própria vida, é o que assusta e fascina no personagem. O Coringa vive num mundo sem regras e sem limites. Ele é o cara que realmente não tem nada a perder e isso faz dele alguém extremamente poderoso. Brilhante.

Duas-Caras, o Harvey Dent, é o promotor de justiça, o homem correto e inflexível que simplesmente quebra. De repente ele se dá conta que por mais que nos esforcemos em tornar o mundo melhor, em fazer as coisas certas, às vezes simplesmente não dá certo. Às vezes, o melhor que temos a oferecer não é o bastante. O mundo não vai te recompensar sempre. A vida pode ser bem ingrata. No fim, é o acaso que decide o destino de uma vida. Cara ou coroa e você vive ou morre.

No meio disso, Bruce Wayne começa a perceber as conseqüências de usar o manto negro do herói. Viver na marginalidade, conviver com a própria falibilidade, com a solidão auto-imposta, com o preço a se pagar pelo caminho escolhido. Bem-vindo à vida adulta, Batman. E ela é uma pedreira.

Falamos em sonhos de papel que ganham as telas, fantasias inocentes de voar pela cidade na ponta de uma teia. Mas é estranho ver quando os bandinhos da infância tornam-se pesadelos à luz do dia. O Coringa de César Romero, o Coringa de Jack Nicholson, eles parecem uma brincadeira infantil perto do Coringa de Heath Ledger. O Coringa anda matando gente, meu Deus do Céu... e para a platéia, um olho vazado por um lápis parece não ser mais motivo de choque.

É isso que nos faz adultos.

Ver o lado feio da vida e tentar conviver com ele, lutar com ele, transformá-lo. Não saber se vamos ver nossa menina no dia seguinte. Não saber se vamos ver o dia seguinte.

Nós crescemos.

(A foto que abre o post foi tirada do Blog do Universo HQ).

Nenhum comentário: