domingo, agosto 24, 2008

Deixar de ser o que se é

E o Sandman morre.
De novo.

Cada vez que releio a história, ele morre de novo. Ainda cultivo alguma esperança de escapar. De que, magicamente, numa nova leitura, as palavras escritas mudem, de que as coisas tomem novo rumo. Mas não acontece. É tinta impressa no papel. Ele está morto.

São personagens, lógico, figurinhas de faz de conta, sonhos de papel ou luz projetada. Mas nos conquistam de tal modo que às vezes esquecemos que não são reais. Ou, às vezes, acabamos nos enxergando neles, vendo-os como extensões de nós mesmos. Você sabe o que quero dizer.

Dos muitos nomes que tinha, Sandman era mais conhecido por Morpheus entre nós, os aficcionados. E Morpheus era um cara noiado. Esquisito, imaturo e despreparado pra vida. Ainda assim, gostávamos dele. Ele também tinha uma idade extremamente avançada, poderes extraordinários e ocupava um cargo importantíssimo na ordem cósmica. Ele era um dos Sete.

Vivia falando em responsabilidades, vivia organizando seu dia em tarefas de administração do seu trabalho, que conduzia com zelo invejável. Já sua vida pessoal era uma bagunça.

Teve muitas amantes e namoradas, mas nenhum relacionamento que terminasse de maneira feliz. Sempre era doloroso. Aliás, não apenas doloroso, mas o mais doloroso possível.

Por exemplo, com Calliope ele foi se tornando frio e distante a partir do momento em que seu filho, Orpheus, nasceu. Ele visitava e gostava do garoto, mas simplesmente foi se afastando da mulher. E quando aconteceu aquela tragédia familiar, ele negou a ajuda que o filho precisava.

(Ok, vamos ser justos, ele não negou ajuda. Ele avisou Orpheus de que as coisas não iam dar certo se ele seguisse aquele rumo, mas o garoto ainda assim insistiu. Depois, a única ajuda que poderia dar a Orpheus seria o tiro de misericórdia, mas se o fizesse ia ter que agüentar as conseqüências. E no fim das contas, foi o que acabou acontecendo. Anyway...)

E teve o episódio com aquela princesa africana. Morpheus e Nada se amavam, mas não ia rolar. E quando ela lhe deu o fora, ele ficou magoadinho e trancou a menina nua numa cela forrada de cacos de vidro num canto do Inferno. Por tempo indeterminado (o que, no Inferno, é tempo demais).

Lógico, se você nunca leu Sandman, já deve ter se ligado que o tal Morpheus não é exatamente um "cara comum". Ele era algo como uma entidade responsável pelos sonhos de todos os seres desta existência. E também era o protagonista de uma série de histórias em quadrinhos lançadas ao final dos anos 80 e que ainda hoje fazem muito sucesso.

O principal responsável por Sandman era o inglês Neil Gaiman, que teve toda a idéia e escreveu as 76 histórias mensais que o personagem teve. Mas o bacana era que, apesar de toda a marcadíssima característica mística e folclórica das histórias, o lado humano sempre se sobressaía. Morpheus era sim um personagem fabuloso, algo como um grifo ou um deus desconhecido de uma civilização esquecida, mas, ao mesmo tempo, era como um pós-adolescente cheio de nóias que usava o "trabalho" e as "responsabilidades" pra preencher todo um vazio dentro de si. Ele era incapaz de lidar com relacionamentos, incapaz de lidar com pessoas que amava e que o amavam.

E incapaz de lidar com mudanças, principalmente com as próprias. Incapaz de mudar, mas mudanças são inevitáveis.

Numa linda manhã de sol, você acorda, olha-se no espelho e se dá conta da mudança. Não falo de marcas no rosto e fios de cabelo branco. A tal mudança pode ser uma pergunta: "que estou fazendo da minha vida?". Ou "por que não troco de emprego?".

Ou "Como posso ser tão mesquinho? Por que não sigo em frente e esqueço o que aconteceu?".

Entre seguir em frente e aceitar as mudanças, acho que Morpheus preferiu morrer. Mas, enfim, até que ponto a gente tem escolha? Escolha de verdade?

Eu lembro de outro personagem. A Tartaruga sábia do filme do Kung Fu Panda. E, em toda sua sabedoria, ela dizia (e reiterava aquilo que ouvi milhares de vezes em toda a minha vida):

Acidentes não existem.

Filme bacana o Kung Fu Panda.

Frase legal "Acidentes não existem". Tartaruga maldita.

Ontem, relendo Sandman, achei uma citação feita por um conselheiro chinês, senhor idoso condenado ao exílio pelo imperador. Diz Mestre Li:


Embora os deuses escutem e respondam todas as preces, não é incomum que a resposta seja não.


Não. E daí você continua em frente. Todo mundo continua em frente. Não adianta olhar pra trás.

Não adianta reler as histórias. O Sandman vai continuar morto. Tinta impressa no papel. Já foi escrito.

Hora de procurar novos livros.


2 comentários:

Anônimo disse...

Lindíssima sua leitura de Sandman. Também acho ele encantador. Há mais de dez anos que li ele (no meu saudoso tempo de Cefet) e lendo seu post me deu vontade de voltar ao seu reino onírico. Obrigada! E bons sonhos pra vc!

Mauricio Perin, Pirin disse...

Então eu te recomento Jonathan Strange & Mr Norrell de Susanna Clarke. Não é quadrinho, nem é pequeno, mas vale muito a pena.
E além disso é ilustrado e tem uma das melhores capas que eu já vi.

Pois bem,
um abraço!