domingo, agosto 17, 2008

E a vida continua...


Tarde chuvosa e eu não tinha como voltar pra casa. Às seis da tarde começava o outro turno. E eu estava cansado, cansado.

O cinema era do outro lado da rua, era quinta-feira, o ingresso era mais barato. Vou ver alguma coisa, qualquer coisa. E da lista de opções, escolhi Arquivo X: Eu Quero Acreditar.

Pipoca é importante. Comprei o pacote grande. Gastei uma nota absurda pra um pacote de pipoca, mas foda-se. Pipoca é importante.

A sala estava quase vazia. Sentei pensando em talvez cochilar ali. Daí escutei aquelas notas musicais. Sabe, aquelas notinhas musicais. Eram seis? Seis notas. “A verdade está lá fora” invadiu minha cabeça. Total Pavlov.

Onde eu coloquei minhas fitas VHS de Arquivo X? Eram seis episódios por fita. Tinham gravado pra mim, copiado de outras fitas, o som tinha ficado uma bosta. Mulder e Scully. Não posso dizer que fui um grande fã, mas não passei ileso pela época deles. Eram os anos 90 e a verdade estava lá fora. Pensando bem, não fazia muito sentido, mas era uma frase de efeito legal. Na época.

O primeiro episódio vi na tv Manchete (ou será que já era Record?), num domingo à tarde. Mulder preso numa delegacia sei lá por que. Eu estava na casa da minha avó e ela ainda era viva. Uma lembrança, uma tarde de domingo.

Meus amigos gravavam Arquivo X, discutiam Arquivo X, imitavam Arquivo X. Muitos dos roteiros de quadrinhos elaborados pelo nosso grupo nos anos 90 tinham todo jeito de roteiros para serem protagonizados por Scully e Mulder.

Será que Arquivo X foi o primeiro grande e bem-sucedido ataque do movimento nerd à cultura pop mundial? No meio de um monte de seriados de médicos e policiais, apareceu um casal nerd, completamente nerd: uma cdf carola e um especulador aloprado. Aliás, um casal tão nerd que demorou uma pá de tempo pra assumir sua sexualidade. Mas eram personagens nerds tão bem construídos, tão cheio de minúcias e detalhes, que você esquecia que eles eram nerds. Mais ainda, por muitos e muitos anos, milhares de telespectadores acharam esses nerds uns personagens bem cools.

E a série foi avançando e lá pelo quinto ano meus camaradas já não gravavam mais episódios, diziam que a coisa tinha descambado pra palhaçada, que tudo estava muito comercial. “Ah, agora Arquivo X é das massas! É pop! Todo mundo gosta! Bom era antes, quando só a gente gostava!” Essas foram as últimas palavras de uma geração obsoleta de nerds que foi silenciosamente extinta em algum momento dos anos 90. Era um novo tempo. Os nerds tinham tomado a Terra oficialmente. Resistir era inútil.

Arquivo X tinha se tornado um fenômeno.

E como todo fenômeno pop, como todo bom namoro e casamento e emprego, Arquivo X foi se tornando desinteressante e desinteressante e desinteressante. E após atingir diversos clímax e orgasmos conspiratórios alienígenas que já não impressionavam mais ninguém, Mulder e Scully desapareceram. Sem alarde. Sem deixar saudade?

Então, 10 anos depois...

Tarde chuvosa, cinema quase vazio, pacotão de pipoca. Musiquinha, seis notas, efeito Pavlov, “A verdade está lá fora” na cabeça.

E uma saudade desgraçada de uma época que não volta mais.

Na tela Scully agora é uma médica de hospital. Dá pra ver as marcas do tempo no rosto dela. Mas ela nunca foi tão bonita. E Mulder vive num sítio, isolado, ermitão. Com barba e tudo, total Urtigão. Acontece algum crime estranho, como sempre acontece, e os dois voltam à ativa.

O que mais me impressionou nesse filme é que eles deixaram o tom épico das super-conspirações de lado. Também não falaram em alienígenas. Nada de aliens. Nem de salvar o mundo de uma ameaça terrível.

Na verdade, Arquivo X:Eu Quero Acreditar é uma história simples e comum... para os termos do Arquivo X. É como um daqueles episódios do começo da série, despretensiosos, que simplesmente mostravam uma situação bizarra que, por sair do padrão “normal” do FBI, requeria os trabalhos de nosso casalzinho nerd favorito.

Vai ver por isso tanta gente xingou o filme. Ele não é apoteótico. É um filme sobre o cotidiano bizarro do mundo, que continua adoravelmente estranho.

E lá estão Mulder e Scully, não só mais velhos, mas mais maduros. O filme tem toda uma linguagem mais madura, tranqüila. Já não precisa provar nada pra ninguém, não precisa conquistar novos seguidores nem disputar espectadores com Lost.

Fiquei com uma sensação boa ao final. Uma mistura de nostalgia com a satisfação de uma conclusão digna para os dois. Após as crises épicas e momentos apoteóticos, a vida simplesmente continua. Estamos aqui, um pouco mais velhos, com toda nossa bagagem de vergonhas, vitórias e dores. E ainda temos uma estrada pela frente.

Arquivo X:Eu Quero Acreditar é um filme honesto e digno.

Muito mais do que se pode dizer de muita coisa por aí hoje em dia...

Um comentário:

José Aguiar disse...

Resisitir é inútil. Ainda mais oara mim, que era um daqueles colegas que gravavam e faziam histórias de Arquivo X. Tudo tem seu tempo.