sábado, outubro 18, 2008

Olhe bem, preste atenção.

E daí, outro dia, acho que umas duas semanas atrás, o Lourenço Mutarelli veio aqui em Curitiba lançar seu novo livro: A Arte de Produzir Efeitos sem Causa.

Foi o livro mais perturbador do Lourenço que já li. E se você conhece o trabalho do Lourenço, sabe que isso não é pouca coisa. Não dá pra falar muito sobre a história pra não estragar. Mas se você decidir lê-la, saiba que ela é realmente perturbadora e você precisa prestar atenção pra perceber o quanto ela é perturbadora. É o tipo de detalhe sutil que pode passar batido.

Enfim, daí o Mutarelli veio aqui pra Curitiba e a Mitie e o Chico da Itiban montaram uma mesa bem legal onde o cara pôde conversar sobre o livro, a vida, o universo e tudo mais. Era uma quarta-feira e até que foi bastante gente, considerando que na mesma hora estava tendo, ali pertinho, uma palestra com os caras do mega-boga-foda Estúdio Lobo. Particularmente, acho que quem foi ver o Mutarelli saiu ganhando...

Enfim.

No meio da conversa com o povo, o Mutarelli tocou em diversos assuntos e tal. Daí teve uma hora que comentei com ele sobre o livro e os quadrinhos. Há passagens que eu acho que podiam ter um outro efeito completamente diferente se tivessem sido desenhadas em vez de escritas. Isso sem contar que há algumas ilustrações e diversos "recursos gráficos especiais". Eu achava que no desenho detalhista do Lourenço poderíamos viajar mais dentro da atmosfera que ele criou no livro. Foi aí que ele me disse uma coisa que me fez pensar: "nem todo mundo olha pra uma história em quadrinhos como você. Você é acadêmico, procura as coisas no desenho. As outras pessoas só viram as páginas".

Catso.

A verdade é que eu já tinha pensado nisso. Sempre se reclamou aqui no Brasil do mercado de quadrinhos. A meu ver, a opinião pública está mudando e ficando mais favorável. Quadrinhos estão se tornando objetos de consumo cool. Invadem as livrarias e as páginas dos cadernos de cultura. São temas de concursos e trabalhos acadêmicos (teses e dissertações). As coisas estão mudando para os quadrinhos, pelo menos no que se refere à sua relação com o grande público.

Entretanto, o Lourenço está certo. A maior parte das pessoas ainda não sabe como ler uma história em quadrinhos. Caracas, eu mesmo só comecei a me dar conta disso uns meses atrás. A gente passa de uma página para outra e não vê detalhes de fundo, detalhes de desenhos que acabam construindo toda uma série de significados e complementos à narrativa principal.

Talvez esse lance de olhar os detalhes seja trabalho de uma crítica especializada. Talvez seja legal simplesmente ler e curtir nossos quadrinhos na paz e sossego de nosso lar, cama, ônibus ou acento de privada.

Discutir sobre como se deve ler quadrinhos é meio como discutir como se deve ler uma obra literária. Acho que envolve muita coisa pra se pensar.

E no fim das contas, quem liga pra isso?

Bem, eu ligo.

E provavelmente você também, senão não teria lido o texto até aqui.

Vamos nos falando...

2 comentários:

Patrícia Pirota disse...

Sim! Eu também ligo =)
E acho que, uma vez iniciados, jamais vamos conseguir ler os quadrinhos no "sossego de nosso lar". Não vamos conseguir simplesmente passar a pagina sem observar que lá no canto esquerdo do terceiro requadro tem uma capa de disco de uma banda legal. =)
Para o bem ou para o mal, seremos sempre assim =)

Saudades de falar contigo Sr. Tdaomesmotempoagora =)
Bjo.

José Aguiar disse...

Eu ligo. Ligo mesmo.