domingo, outubro 05, 2008

Senhor Prefeito



Coincidentemente, hoje é dia de eleições.

Li nessa sexta e sábado dois volumes da série Ex Machina, escrita por Brian Vaughan e desenhada por Tony Harris. Conta a história de Mitchell Hundred, um engenheiro que trabalhava para a prefeitura de Nova York e após um misterioso acidente (sempre há um misterioso acidente), adquire a singular capacidade de "conversar" com máquinas. Desde um boing 747 até um palmtop ou uma .45 automática. Uma espécie de doutor Dolittle de engenhocas.

Junto com a capacidade de conversar com máquinas, Mitchell também passa a ter uma facilidade extraordinária em inventar equipamentos singulares, como um jato-mochila que dá ao cidadão a capacidade de voar. O mais interessante é que esse dom de "Professor Pardal" manifesta-se esporadicamente, quando Hundred está dormindo ou semi-consciente.Então, Hundred e seus dois amigos, Kremlin e Bradbury, decidem elaborar um uniforme e dar início a uma carreira como "super-herói".

Poderia ser mais um título do gênero nas bancas, se não fosse pela proposta dos autores. Mitchell Hundred supostamente vive no nosso mundo "real". Ele é o único ser do planeta a ter um "super-poder". Batman, Super-Homem e Homem-Aranha são mencionados exatamente pelo que são: personagens de quadrinhos.

Nessa perspectiva, a carreira de super-herói de Hundred não vai muito longe. A cada problema que ele soluciona, surgem outros. Por exemplo, ao desativar um trem do metrô para salvar uma vida, ele causa uma paralisia de onze horas no transporte coletivo de Nova York. Assim, diante da cidade, ele fica com uma imagem mais próxima do "Superpateta" do que do "Super-Homem".

Embora não se desse muito bem no negócio de super-herói, Mitchell realmente nutria um sentimento de ajudar as pessoas, de melhorar as coisas. Então decide tentar outra abordagem. Desiste da carreira de super e se candidata à prefeitura da cidade de Nova York. E ganha.

E é aqui que a história realmente começa. É sobre isso que ela fala. A origem e episódios da breve carreira de Hundred como super-herói são mostrados em flashbacks. Muito parecido com a estrutura narrativa de Lost. A narrativa principal é seu trabalho como prefeito.

Hundred precisa resolver toda uma diversidade de problemas, alguns sérios outros nem tanto, e conciliar essas soluções com as exigências e expectativas de republicanos, liberais, democratas e todo o tipo de gente e ideologias. Daí Brian Vaughan, o roteirista, dá um show. Escreve diálogos ótimos e cria situações muito bacanas. Acompanhar os quadrinhos de Ex Machina é um prazer. A cada página tem uma situação nova, uma surpresa mesclando humor e suspense.

E o bacana é que os "dons" de Mitchell não são deixados de lado. Pelo contrário, são integrados à trama e são a base de muitas situações intrigantes que acontecem aqui e ali. O "acidente" que lhe deu os poderes parece esconder bem mais coisas e esse mistério vai permeando o dia a dia do prefeito e de sua cidade.

Outra característica legal do trabalho de Vaughan é a construção dos personagens de apoio. Todos bem resolvidos e importantes para as histórias. No final do primeiro volume, vemos que Tony Harris se baseou em amigos e familiares para elaborar o elenco de Ex Machina. Há uma série de fotos e making ofs das páginas.

Como eu disse, Ex Machina procura se ambientar em nossa "realidade". Mas uma diferença fundamental entre o mundo de Hundred e o nosso está no que aconteceu no dia 11 de setembro. Em Ex Machina, Hundred consegue impedir que um dos aviões atinja seu alvo. Assim, uma das torres permanece em pé. Já tinha lido muita coisa sobre o 11 de setembro, mas é de Ex Machina uma das seqüências que mais me tocou: Hundred voa tentando salvar as pessoas que se atiram da torre condenada. E é lógico que ele não conseguirá salvar todas. Essa seqüência é inserida na história como um rapidíssimo flashback, que mostra todo o desespero e trauma de Hundred.

De polêmicas sobre obras de arte com teor racista expostas no museu até assassinatos sangrentos nos túneis do metrô, Hundred e seus assesores vão lidando com a "grande maçã". Ex Machina é uma mistura de política e super-poderes muito bem escrita, o tipo de quadrinho que surpreende a cada edição e que parece ter muito a dizer. O tipo de quadrinho que estava fazendo falta.

"Deus ex machina: Literalmente, "deus da máquina". Uma pessoa ou força que vem providenciar uma solução improvável para uma situação impossível, batizada assim devido aos dispositivos mecânicos usados pelos dramaturgos gregos a fim de fazer descer no palco atores que interpretavam divindades".

Um comentário:

Patrícia Pirota disse...

ótimo texto Líber! Como já é sempre esperado =)
Isso me pareceu idéia pra artigo de CTS hein =)
Bjo!