terça-feira, janeiro 13, 2009

Estacionado


Tarde da noite, caminho pelo estacionamento a céu aberto. Meus passos têm o som das britas sendo pisadas. Som cadenciado. Como algo que é mastigado e remastigado. Sem pressa.

Eu olho praquele canto e ele sempre está lá. Parado, abandonado, largado. Estacionado. Pneus murchos, janelas opacas, cor irreconhecível sob o pó. O pó acumulado de anos. Imaculado. Intocado.

Era um casal feliz, mas não muito. Daí tiveram o primeiro bebê e as coisas mudaram. O menino (ou menina, não sei) encheu a casa de alegria, visitas e expectativas. E responsabilidades. Educação, brinquedos, roupas, saúde. Vai dinheiro nessas coisas, você sabe. Tem que trabalhar mais para receber mais. Os dois. O casal feliz, mas não muito.

Ele arranjou um segundo emprego. O dinheiro era bom. Dois empregos, cinco horas de sono por noite e o dinheiro era bom. Ritmo alucinado, correria, mil coisas por minuto pra pensar e resolver. Cabeça cheia, ele vivia anestesiado pela rotina.

Quem dirigia era ela. Todo o dia deixava o marido no escritório, o bebê na creche e a si mesma no trabalho. Todo dia, todo dia, todo dia e um dia ela precisou viajar. Ou ficou doente. Ou algo assim. E não foi trabalhar.

Naquele dia, ele dirigiu. Atrasado, cabeça cheia, anestesiado pela rotina, ele deixou o carro no estacionamento. E esqueceu. Ele sempre voltava pra casa sozinho, de ônibus, tarde da noite. Só foi lembrar quando chegou em casa. Madrugada, ele estava de volta ao estacionamento. Tirou a criança do carro. Tinha sido daqueles dias muito quentes e abafados. Sufocante. Longo demais. Se a criança chorou, ninguém ouviu.

Tarde da noite.

Tarde demais.

O casal se desfez. A mulher jamais perdoou nem aceitou o que aconteceu. O marido tampouco.

Ninguém jamais veio buscar o carro.

O carro...

Às vezes, se chegar bem perto da janela, a cara quase encostada no vidro, dá pra ver, debaixo da crosta de poeira, as mãozinhas abertas batendo no vidro, querendo sair.

Tarde da noite...

(Agradecimentos à Milena que embarcou na viagem dessa historinha. Beijos, Mi.)

Um comentário:

milena gogola disse...

Quanta riqueza, sentimento e realismo na sua narrativa, meu amigo! Esta estória acabou de se tornar uma ótima lenda urbana!
Deu-me arrepios!...

Parabéns, Liber!

(Ah, foi e sempre será um prazer viajar contigo... Em todos os sentidos! =D )

Beijos para você também!