domingo, janeiro 25, 2009

Gato

Guadalupe. Creio que estou carmicamente vinculado a esse terminal. Agora vou me mudar e não precisarei mais esperar o ônibus lá, mas ainda assim os vínculos permanecem.

Semana passada perdi o ônibus das 23:35 e tive que esperar o da meia-noite e dez. O terminal do Guadalupe é um lugar trash a qualquer hora do dia, mas à meia-noite ele ganha um ar ainda mais... como direi... terminal. São poucas pessoas, muitas encerrando a jornada de trabalho e esperando o último ônibus da noite. As lojas fecham, os mendigos perambulam, os vendedores passam tentando o último trocado pelos docinhos que sobraram no fundo da caixa. E os animais.

Sei lá por que os animais me sensibilizam mais. Tipo aquela cadela preta enrodilhada sobre si mesma, sozinha numa das plataformas. O terminal cada vez mais vazio e ela ali, sozinha. 40 minutos de espera pelo próximo ônibus e você se distrai com cenas como essa.

Daí comecei a ouvir os miados. Aqueles miados que parecem pios. O gatinho corria pela plataforma. Miava, miava, corria pras pessoas na fila. Junto dele um mendigo, com barba longa, preta. De pé, ele olhava pro gatinho e cofiava a barba. As pessoas olhavam pro gatinho e só pro gatinho. O ônibus chegou, elas subiram, o ônibus saiu, o gato continuou lá, miando.

Em dez minutos meu ônibus chegaria. O gatinho devia ter o tamanho da minha palma da mão. Não tinha sinal de outros gatos, sei lá como ele foi parar lá. Em dez minutos meu ônibus chegaria e eu deixaria o bichano pra trás. O mendigo diante dele tinha aquele olhar de bêbado, de drogado. Em dez minutos eu deixaria tudo isso para trás.Mas enquanto isso ele miava. Ô, desgraça.

Caminhei, cheguei junto do mendigo: "Opa! Tudo bem? O gatinho é teu?" Ele olhou pra mim. Seus olhos não estavam daquele jeito por causa de bebida ou droga. Eram olhos atordoados, como se ele tivesse acordado agora a pouco. Ele balbuciava coisas incompreensíveis num fio de voz. Do que pude entender, ele disse que o gatinho era um tigre e que ia crescer e "ficar desse tamanho" e ele mostrava a altura com a mão.

"Quer vender o gato tio?". "Não, não. Não vendo, não vendo." Eu ofereci dez reais. Os olhos dele brilharam, o rosto se iluminou. Fechamos negócio. Dei ainda um sanduíche que eu tinha na mala. Peguei o bichano. Ele cabia na palma da minha mão.

Voltei pro ponto. O ônibus ainda não tinha chegado. Passou um tempinho, o mendigo chegou pra mim. "Cuida bem dele. Dá carinho. Dá carinho."

Pode deixar tio.

O gatinho veio quietinho no ônibus. Eu o afagava e tranquilizava. Ele passou a primeira noite no banheiro e as outras na lavanderia. Está crescendo rápido. Meu pai o chama de Visconde. Os nossos outros gatos estranharam no começo (eles sempre estranham, gatos são ciumentos), mas vão se acostumando aos poucos.

E como ele cresce rápido.

Essa semana eu me mudo e pensava em levá-lo comigo para o apartamento, mas acho maldade colocar um bicho vivendo sozinho dentro de um apartamento. Ele vai ficar melhor com meus pais, junto dos outros bichanos. E também me livro da responsabilidade sobre ele.

Essas são as últimas vezes que passo pelo terminal antes da mudança. Tenho visto o mendigo. Com aquele olhar atordoado, dolorido, cofiando a barba, fitando o vazio. Pegar um gato da rua é fácil. A gente dá comida, põe o bicho na lavanderia e faz carinho nele. Mas cuidar de uma pessoa é mais difícil. Pessoas precisam de mais coisas. Precisam de educação, precisam de um trabalho, precisam de respeito e dignidade. E precisam de carinho e de outras pessoas que se importem com elas de verdade.

Eu vejo o tio da barba preta e fico pensando que fim ele vai levar. Onde ele vai passar essa noite? O que eu poderia fazer a respeito? Eu deveria fazer algo a respeito?

Subo no ônibus.

O gatinho Visconde vai bem.

Ele cresce rápido.

4 comentários:

fabíola disse...

esse aí é ele? muito, muito lindo!
vc podia levar dois pro apartamento, daí um faz companhia pro outro.

Anônimo disse...

Então, "velho amigo"...

Eu odeio o Terminal do Guadalupe, mas não consigo me livrar dele. Apesar de não morar mais lá na terrinha...

Vc não vai sair do daqui do c* do mundo (CWB e região), vai ?

Surpreendente, como temos sentimentos semelhantes... Mesmo sendo razoavelmente diferentes!

T+ Líber
8-(

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LVR

Anônimo disse...

Sua ética e sua estética me emocionam! Ter fé no ser humano. Não é fácil. Temos muito mais perguntas do que respostas. E mais uma vez, nos sentimos impotentes...

Mudar de casa é fácil. Mudar o mundo é difícil. Acho às vezes que o mundo não quer ser mudado.

Lindo seu gatinho. Lindas suas palavras.

Anônimo disse...

Ei "velho amigo",

E o gato sobreviveu ?

T+
---
LVR