terça-feira, janeiro 20, 2009

O gume de um machado





Fiz as pazes com Ernest Hemingway.

Quer dizer, a vida toda eu tinha ouvido que o velho era foda e tal. Daí, ainda piá, peguei um livro dele pra ler. Nem lembro o título, lembro que achei insuportavelmente chato. Um cara que ficava se ensebando com uma enfermeira num romance água com açúcar que não deslanchava nunca. Ou algo assim. Abandonei o livro antes da metade.

Uns anos depois, fui com uns amigos ver o Animamundi em São Paulo e a grande atração era O Velho e o Mar, que tinha ganhado um Oscar de melhor curta de animação. Baseado num livro do Hemingway, esse desenho animado foi produzido por um russo, o Alexander Petrov, que usou uma técnica bem particular. Com a ajuda do filho, Petrov pintou a óleo sobre placas de vidro cada um dos mais de 29 mil frames da animação. Ele criava imagens belíssimas, fazia o fotograma e depois alterava sutilmente detalhes da pintura, batia outro fotograma e assim ia fazendo a animação. Trabalho do cão, mas com resultados impressionantes. De fato, a animação era espetacular, mas algo nela não me cativou. Não bateu, sabe? Daí, mais uma vez, achei que fosse culpa do velho Ernest.

E mais uns anos passaram.


Uma cena de O Velho e o Mar de Alexander Petrov

Aqui entra minha teoria sobre “O Momento Certo”, que na verdade não é exatamente minha, mas, vamos lá, me dêem um desconto. A “Teoria do Momento Certo”: tem idades e momentos na vida pra gente fazer certas coisas. Não quer dizer que não se possa fazer antes ou depois, mas se você fizer no momento certo, vai aproveitar mais, vai curtir mais. Por exemplo, meu momento de ler Ernest Hemingway.

Às vezes saio com os caras e começamos a discutir sobre livros e tal e o assunto dessa vez era que, segundo o camarada, ultimamente não tem aparecido nenhum grande trabalho de ficção nas livrarias. Pra tirar a teima, saímos do bar e passamos na livraria do aeroporto, que fica aberta 24 horas. O aeroporto às duas e meia da manhã é um local silencioso, deserto, mágico como uma igreja ou algo assim. Ótimo pra terminar a noite. (Tenho a impressão de que já escrevi sobre isso por aqui...). Enfim, estávamos na livraria 24 horas, um par de atendentes arrumando os livros e revistas e então encontramos A Boa Vida Segundo Hemingway, uma coletânea feita por um cara chamado Hotchner com fotos, citações e pequenas notas autobiográficas do escritor. Era um livro tentador e não sei como não o comprei.



Acontece que Hemingway teve uma vida espetacular, coisa de lenda. Foi motorista de ambulância no meio da I Guerra Mundial, esteve na Guerra Civil Espanhola, conviveu com monstros da literatura como James Joyce e Scott Fitzgerald, fez parte da “geração perdida”, ganhou um Nobel de Literatura, teve quatro esposas e várias amantes, viveu anos em Cuba, foi espião e, aos 61 anos, suicidou-se usando um fuzil de caça.

Sobre literatura, Hemingway dizia que, por serem usadas levianamente, as palavras haviam “perdido o gume”. Por isso considerava a escrita uma arte difícil. Seu estilo literário dispensava adjetivos, era seco e calcado em verbos e substantivos, como um relato jornalístico. Nas mãos dele, as palavras não só recuperavam o gume, como também pareciam se tornar o tal “machado para o mar congelado dentro de nós” de que falava Kafka.

Depois da livraria do aeroporto, Hemingway acabou voltando à minha mente. Dois dias mais tarde, acaso ou não, topei com um livro dele num sebo. Baratinho, baratinho, comprei O Velho e o Mar. Coloquei ele na mala e fui pra praia com a galera. Ler esse livro olhando pro mar teve um sabor especial.

Santiago é o velho pescador que está passando por uma fase ruim. Não conseguiu pegar nenhum peixe nos últimos 80 dias. O pessoal acha que ele está amaldiçoado e o evitam. Todos menos o menino Manolin, que aprendeu a pescar com o velho Santiago e o estima muito. Naquele dia, Santiago decide se arriscar nas águas mais distantes para ver se consegue pescar alguma coisa. Lá ele se confronta com um grande espadarte e por três dias luta para conseguir capturar o peixe. E essa é a história de O Velho e o Mar. Uma longa pescaria.

O que torna o livro uma obra-prima é a maestria de Hemingway no uso das palavras. É tudo que ele escreve e, talvez principalmente, tudo que ele não escreve. Nas entrelinhas emoções e pensamentos grandes demais para serem expressos com palavras. Comparando com a animação de Petrov, o livro sai ganhando de 10 a zero. Apesar de ser plasticamente impecável, o trabalho de Petrov não consegue captar muitos aspectos que me parecem fundamentais nessa obra. O livro de Hemingway fala sobre vitória e derrota, sobre a ousadia e os perigos de tentar algo extraordinário. O Velho e o Mar é a velha história do homem contra forças muito maiores que ele. E também é algo maior que isso. O livro transborda sofrimento, resignação, dignidade, força, caráter, orgulho, solidão, amizade. Santiago é um velho que já teve ótimos dias e esses dias passaram. Mora em uma casa paupérrima, de um só cômodo:

Dentro só havia uma cama, uma mesa, uma cadeira e um canto no chão sujo onde se podia cozinhar a carvão. Nas paredes castanhas do duro guano viam-se uma imagem colorida do Sagrado Coração de Jesus e uma outra da Virgem de Cobre. Ambas eram relíquias de sua mulher. Em tempos, houvera na parede uma fotografia da esposa, mas ele a tinha tirado porque se sentia muito só ao olhá-la todos os dias; agora estava escondida numa prateleira, debaixo de sua camisa lavada.

É a ausência de seqüências sutis como essas que me fazem achar que a animação de Petrov ameniza a questão do sofrimento que permeia o livro. A vida é dor, é um longo esforço angustiante, uma conquista de mãos ensangüentadas que pode nos ser tirada a qualquer momento. Petrov não consegue transmitir isso com um décimo da intensidade que o texto de Hemingway faz.

O Velho e o Mar é o mito do herói levado às últimas conseqüências. Santiago já foi chamado El Campeón, viajou pelo mundo e teve diversas aventuras e vitórias. Mas tudo isso pertence ao passado e não conta. O que importa é o agora, é pescar o peixe, é quebrar a corrente de azar, é provar algo. É vencer. “O homem não foi feito para a derrota”, diz Santiago. “Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado”. Ainda assim, ao final Santiago é derrotado. Será? Derrotado por quem? Pelo peixe? Pelo mar? O mar, o outro grande e silencioso personagem do livro. Algo enorme como a vida, que às vezes concede grandes favores e outras vezes é extremamente cruel e brutal. Hemingway não fecha as idéias, ele só abre as portas, as possibilidades. Ele amola o tal machado e deixa que nós o empunhemos para abrir o caminho.

Para mim, esse foi o momento certo de ler O Velho e o Mar. Um paradoxo me fascina: ao mesmo tempo em que Santiago parece ser derrotado, ele também parece ter uma vitória íntima, algo secreto e intangível cuidadosamente construído pelo que não é dito no texto. Vou remoer esse livro ainda por dias, pensando no que significa lutar, vencer e perder. Pensando na vida.

Pensando na imensidão do mar.



O Velho e o Mar de Alexander Petrov



Um comentário:

Thy Macson disse...

Petrov é um "doente".... hehehehe