domingo, março 15, 2009

I Watch the Watchmen


Watchmen, o filme. A adaptação de uma das mais bacanas histórias em quadrinhos já escritas. E, afinal, o filme é bom? Bem... não sei dizer. Acho que sim, mas não tenho certeza...

Watchmen é uma das melhores histórias em quadrinhos de todos os tempos. Foi eleita como um dos 100 melhores romances em língua inglesa pela revista Time, ficando ao lado de obras de autores como Virginia Woolf, Jack Kerouac, William Faulkner e outros. Watchmen é uma história de super-heróis escrita por Alan Moore, desenhada por Dave Gibbons e publicada pela editora DC Comics em 1986. Trata-se uma obra de características complexas, que usa o tema dos super-heróis como base para explorar diversas possibilidades de caracterização de personagens, estruturas narrativas e temáticas diversas, que vão da Teoria do Caos à política da Guerra Fria.

O único super-herói com poderes em Watchmen é o Doutor Manhattan. Todos os outros são apenas aventureiros que usam um uniforme com ou sem máscara. Ainda assim, esses aventureiros mudam a história e o mundo em que vivem. Isso é mostrado em forma de clipe na abertura do filme, com a música The Times They Are A-Changin' do Bob Dylan. Por sinal, uma ótima abertura, mas não sei se o público que não leu Watchmen vai entender.

É o aparecimento do Dr. Manhattan que vai desencadear uma série de mudanças no planeta. Com seus poderes e conhecimentos, o Dr. Manhattan dá origem a uma série de produtos que mudam sutilmente o mundo. Em 1985, no mundo de Watchmen os carros são movidos a energia elétrica. O mundo de Watchmen é como o nosso mundo seria se existisse um Doutor Manhattan e os Watchmen.

Assisti o filme duas vezes. Na primeira não consegui formar uma opinião. Vi coisas que me fascinaram. Bateu uma nostalgia violentíssima daqueles dias em que li o quadrinho pela primeira vez. Lembrei dos amigos da época, das músicas, do Batman com o Jack Nicholson, das canções do Legião Urbana, do começo do segundo grau no Cefet. Cara, eu vibrava no filme. Fiquei pensando no filme três dias. As cenas assombrosas, a realização cuidadosa de cada imagem do papel. A maioria esmagadora dos meus amigos adorou o filme.

Mas tinha algumas coisas que me incomodavam e eu não sabia definir bem o quê. Decidi assistir de novo. Sozinho.

Foi um ritual completamente nerd. Levei a minha edição encadernada de Watchmen embaixo do braço. O moço da pipoca viu e falou “Cara, isso é do filme que tá passando?”. É sim, rapaz. “Deixa eu ver?” Ele folheia. “Ei! É quadrinhos!” Chama o colega, “João, olha, o filme é de uma história em quadrinhos!”. Essa singela ceninha mostra que, apesar da campanha do filme lembrar disso o tempo todo, a maioria das pessoas não faz a menor idéia do que é Watchmen. O fato dos pais levarem seus filhos de menos de cinco anos assistirem um filme em que há várias cenas de mutilação e sexo também é interessante. O que esses caras tem na cabeça? Pensam que por que tem um cara usando fantasia o filme é necessariamente infantil? Bem, é ÓBVIO que eles pensam isso. Anyway...

Entrei no cinema com a encadernada, folheei antes da projeção começar, as luzes se apagaram e lá fomos nós de novo. E foi engraçado. Tinha cenas muito bacanas, mas teve algumas que me fizeram sentir constrangido. E daí comecei a perceber o que me incomdova em Watchmen.

Me incomodava muito a cena da transa na nave no Night Owl por causa da música Hallelujah. Não sei o que quiseram com aquela cena. Acho que era pra ser engraçado, mas não vi graça. Também não vi graça em colocarem a Cavalgada das Valquírias enquanto o Doutor Manhattan desintegrava os vietcongues. Sim, era referência ao Apocalipse Now do Coppola, mas, essa referência mais parecia uma piada e então, mais uma vez, a intenção era achar graça no Manhattan assassinando os vietcongues?

As cenas de violência mostravam fraturas expostas e mutilações explícitas. A intenção seria chocar, mas as cenas eram feitas de modo tão explícito que mais parecia um filme de terror B. As pessoas não se chocavam, elas riam no cinema.

Watchmen é sobre pessoas treinadas e muito habilidosas em luta que combatem o crime, mas as coreografias de luta no filme faziam a gente pensar que esse pessoal era sobre-humano.

Enfim, são coisas assim, esses pequenos exageros desnecessários que me incomodam e MUITO no filme. Curiosamente, acho que sou um dos poucos. A maioria do pessoal gostou e defende que “tinha que ser assim porque é um filme de Hollywood e tem que agradar ao público e blábláblá”. Bom, NÃO tinha que ser assim. Foi assim porque o diretor Zack Snyder fez questão de imprimir um glamour de “grandiosidade cinematográfica” que em alguns momentos são contrangedores.

Zack. Não precisa de Cavalgada das Valquírias. A gente saca a referência ao filme do Coppola só pela composição da cena. E, principalmente, NÃO precisa de Hallelujah tocando quando o Night Owl come a Silk Spectre. Isso poderia ficar legal em O Virgem de 40 anos, mas aqui... não.

Também não precisa mostrar em detalhes o Rorschach metendo o machado na cabeça do bandido ou o Night Owl fazendo uma fratura exposta no braço do criminoso ou o Manhattan forrando o teto com as vísceras de um gangster. Basta insinuar.

Veja só essa questão do sangue. Assisti O Lutador, com o Mickey Rourke. Um filme simplesmente espetacular dirigido pelo Darren Aronofsky (de Requiém para um sonho). Em determinado momento, um personagem se corta feio. Mas a cena é feita de uma maneira que, mesmo não vendo nada explícito (só sangue, não vemos o momento do corte) e sabendo que foi só um corte, ficamos chocados. Aronofsky é muito mais diretor que o Snyder.

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Aliás, o Snyder estava com a bola cheia depois dos 300, que eu acho um ótimo filme. Na verdade, acho que 300 é melhor que o quadrinho. Snyder acrescentou elementos legais, fez com que o Rei Leônidas parecesse mais humano, deu mais espaço para a esposa que nos quadrinhos era um mero adorno, inseriu um humor que aliviou o texto tenebroso do Frank Miller.

Ah, o filme de Watchmen tem ainda outro probleminha. O "vilão" da história. A questão de Watchmen é que não existe um vilão. Apenas um personagem que tem um plano insólito para salvar o mundo. Mas Snyder o caracteriza como vilão. Não curti isso, ficou óbvio demais. E também não gostei do Ozimandias ser tão parecido com o Pedro Cardoso, o Agostinho da Grande Família. Enfim...

Não é que eu não tenha gostado do filme de Watchmen. Veja bem, estou falando aqui de coisas que me incomodaram. Eu acho que esses exageros estilísticos do Snyder às vezes ultrapassam a fronteira do Kitsch e não combinam com o enfoque mais sério e sóbrio da obra original.

Olhe só: imagine uma mulher linda, apaixonante (ou um homem, se preferir). Essa pessoa ideal e maravilhosa sorri pra você. E tem uma folhinha de alface acenando dos dentes dela. Mais tarde você conversa com essa pessoa e de vez em quando ela peida. Um peido curto, mas perfeitamente audível. Isso é o filme de Watchmen: uma pessoa que tinha tudo pra ser perfeita, mas quando ela sorri tem aquele alface. E de vez em quando ela peida. Algumas pessoas relevam isso. Outras não.

Mas falando dos aspectos positivos, o filme tem uma direção de arte maravilhosa e uma trilha sonora sensacional (ainda que mal utilizada algumas vezes). Cenas da HQ são reproduzidas fielmente e ficam espetaculares em tela grande. Algumas coisas acontecem aos atropelos e outras parecem não ter sentido, mas acho que isso se deve ao fato do filme ter sido limitado a durar "apenas" 2 horas e meia. Estão dizendo que o dvd vai ter cenas acrescentadas e acredito que isso vai resolver as pequenas incoerências do filme.

Os personagens estão muito bacanas, principalmente o Rorschach (que, como sempre, rouba a cena). O Doutor Manhattan também está ótimo e o Coruja é o próprio. Só o Ozymandias (extremamente afetado e se parecendo com o Agostinho) é que incomoda.

A cena do funeral, a origem do Doutor Manhattan, a reconstituição de época, as inúmeras referências visuais, a espetacular seqüência de abertura, as cenas de Rorschach na prisão... cara, tudo isso ficou bom demais.

Aliás, outra coisa espetacular é o trailer com a música do Smashing Pumpkins.

Acredito também que algumas coisas foram melhor resolvidas no filme que no quadrinho. Por exemplo, na cena da fuga do Rorschach da prisão, no filme dá pra entender melhor por que o gordão é morto por seus colegas na porta da cela. Mas, de modo geral, ao comparar o filme com o quadrinho, o filme perde.

De certa forma, acho que V de Vingança foi uma adaptação mais feliz que Watchmen. V de Vingança é baseado em outra obra de Alan Moore e o filme é muito menos fiel à obra original do que o filme de Watchmen. Entretanto, V de Vingança é um filme mais coeso e fácil de ser compreendido. Por outro lado, poderíamos dizer que Watchmen é um filme mais ousado.

Bom, isso aqui não é uma resenha ou uma crítica. É um apanhado de opiniões bem pessoais sobre esse filme. Se você não leu o gibi e não sabe se vai ver o filme, eu recomendo que veja. Se você leu o gibi e é um fã "xiita", também acho que devia dar uma chance pro filme. Ele é bacana. Ele é pop. Ele é polêmico. Ele é espetacular.

Mas discordo do pessoal que diz que esse vai ser um novo Blade Runner ou Matrix e vai se tornar um cult nos próximos anos. Acho mais fácil que isso aconteça com V de Vingança, pelo que escutei o pessoal comentando por aí...

Bom filme pra você.

(Agora, se for pra escolher, vá ver O Lutador ou O Leitor ou Quem quer ser um milionário? Pode valer mais pelo seu rico dinheirinho...)

Uma atualização:

Eu continuo fuçando na internet atrás de resenhas e opiniões sobre Watchmen. Daí encontrei essa, feita por Maurício Saldanha do Cabine Celular. Dá uma olhada:


Nossa. O filme é bom, mas será que é uma obra-prima? Será que ninguém mais se incomoda com essas coisinhas que eu fiquei resmungando ali em cima? Será que eu tô ficando velho e chato? Eita. Depois dessa declaração inflamada, até eu fiquei com vontade de rever o filme. Enfim, assista a bagaça e tire suas próprias conclusões.

7 comentários:

Anônimo disse...

Putz, e eu que ainda não fui ver! Estou chocado com a minha negligência agaquística!

Rodrigo
stulzer.net

Anônimo disse...

Putz, e eu que ainda não fui ver! Estou chocado com a minha negligência agaquística!

Rodrigo
stulzer.net

Anônimo disse...

Salve "Velho Amigo",

Não fui/sou aficionado por quadrinhos, porém discordo veementemente da tua visão, é claro que o filme tem as suas hiperbóles.

Vc já deveria saber, mas...

Já percebeu que na chamada Era da Informação, as pessoas pensam que sabem muito, quando na verdade sabem quase nada de quase tudo ?!!!

Se não escancarar, tornar óbvio mesmo, quem entenderá ? Além, é claro, dos "convertidos" ?

T+

PS. Simpatizei muito com o Rorschach!
---
LVR

Anônimo disse...

Tb vivi época de Cefet/86 e as graphic novels da vida rsrsrsrs concordo na analogia da mulher perfeita com alface nos dentes e o probleminha de gases audíveis! O filme podia ser melhor em todos aspectos ja mencionados. Mas que a nostalgia bateu firme isso é inegável!Parabéns pelas suas observações que traduziram o que senti do filme!

Johannes disse...

Sinto, mas para mim o Agostinho Veidt e o final trocado fuderam com o filme. Outra coisa, são muitos personagens para apenas duas horas, então para quem nunca leu a HQ deve ser meio complicado não perder o fio da meada.

Buhler disse...

Dae Liber :D

Jesus here ;)

Faz tempo que não vejo um filme profundamente e não pesquiso algo nerdtisticamente, vou me aprofundar e me viciar no watchman :D

Anônimo disse...

Hello there! I know this is kind of off topic but I was wondering if you knew where I could locate a captcha plugin
for my comment form? I'm using the same blog platform as yours and I'm having trouble finding one?

Thanks a lot!

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