terça-feira, março 17, 2009

Mais coisas

A flauta é basicamente um tubo de latão cheio de furos. O ar entra com determinada pressão pelo bocal e rebate pelas paredes do latão. A combinação de chaves abertas ou fechadas fazem com que essa onda de ar rebata de modos diferentes ao longo do tubo. E esses modos diferentes da onda rebater produzem sonoridades diferentes e, conseqüentemente, música.

Eu estava satisfeito com o som da minha flauta até a aula da última segunda-feira.

Veja bem, não pretendo ser um músico profissional, mas sinceramente gostaria de, um dia, tocar um som bacana em algum lugar tipo um pub pra curtir com meus amigos. Então, eu me dedico com afinco moderado ao instrumento. Passei as férias estudando as notas e partituras com regularidade e estava bem satisfeito com meu desempenho.

Até a segunda-feira passada.

Na aula, a moça não conseguia tirar as notas graves, então a professora pediu que eu emprestasse minha flauta, pra ver se não era problema da flauta da moça. Com a minha flauta, ela ainda não conseguia tirar som. E a professora tomou minha flauta pra experimentar. Nenhum som. Nenhum som. “Essa flauta está uma droga!”.

Bem, ela parecia ok pra mim. Antes.

E daí descobri que a tal flauta estava com problemas seriíssimos de estrutura e funcionamento. A professora me passou um endereço e fui levar minha magrela pra uma revisão.

E que lugar bacana era aquela oficina, meu chapa.

As horas do dia não chegam pra mim, nunca dá tempo pra nada. Mas quando desci do ônibus e comecei a caminhar pela rua que levava à oficina, eu senti o bendito tempo parar. Era uma casa numa rua arborizada e dois cãezinhos vieram latir pra mim no portão. Não tinha campainha e bati palmas. Eu não ouvia carros, ouvia pássaros. Poucos pássaros. Tinha entrado em uma espécie de sub ou super realidade. Outro mundo.

O sujeito me recebeu com um sorriso calmo, entrei em sua casa. Enquanto ele me explicava sobre o funcionamento de flautas, os cães se trançavam em minhas pernas, disputavam um carinho, repousavam a cabeça em meu colo. O problema de minha flauta, disse o homem, era basicamente tudo: as molas estavam muito duras, parte do bocal estava torta, as sapatilhas (as coisinhas que fechavam os furos da flauta) não conseguiam vedar nada.

Minha flauta realmente estava uma droga. Eu só conseguia tirar som dela porque pressionava as chaves com muita força. Nunca tinha me dado conta, mas isso explica a dor nas mãos depois dos exercícios. Também explica a dificuldade de transitar de um som para outro.

Mas valia a pena restaurá-la afinal? Era uma boa flauta? E daí veio a surpresa: era uma flauta das antigas. Não se faz mais flautas robustas como essa há muito tempo. Segundo a avaliação do homem, minha magrela tem pelo menos uns quarenta anos.

Quarenta anos.

Naquela hora, naquela casa fora da realidade, fiquei fascinado por aquela flauta e seu passado secreto. A memória dos objetos. Por que mãos ela passou? Quem a ouviu? Quem expirou por ela?

Ela chegou pra mim uns 15 anos atrás por um amigo que me vendeu por um preço bem abaixo do valor real. Acho que ele não fazia idéia. E nem eu. Na época queria aprender a tocar sax, mas só tinha vaga na banda pra aprendizes de flautista. Assim a flauta veio pra mim. Acho que ela nunca esteve funcionando realmente bem.

Agora a magrela vai pra revisão completa. Segundo o homem, essa flauta foi feita pra durar pra mais de um século. Ela não é coberta de prata, mas de zinco. As flautas profissionais mesmo são feitas em prata ou ouro maciço. Melhora o som, eles dizem. Pelo preço, é bom que melhore mesmo.

Saí da casa do sujeito, voltando pela rua de árvores pro barulho dos carros.

Os pequenos objetos do dia a dia.

E suas histórias.

Um comentário:

Anônimo disse...

Putz, eu também queria aprender a tocar uma flauta. Mas preferia uma mais simples mesmo, tipo kena. Queria poder tocar algumas músicas celtas... :-)

Abraços!
Rodrigo
stulzer.net