domingo, março 15, 2009

Um sonho

Sonho acordado.

Chove o tempo todo. Há música. Há edição de cenas. O sonho é como um filme, como uma propaganda, como um vídeo clipe. The Sound of Silence. A música vem de lugar nenhum e parece estar em toda parte. Trabalho na marcenaria de meu pai. Tábuas brancas em minhas mãos. Deslizo a plaina por elas, fitas de madeira caem no chão. The Sound of Silence. Meus dedos deslizam pela brancura lisa das tábuas. Chove e eu estou fazendo um caixão na marcenaria de meu pai. Ela está morrendo, ela que eu amei tanto. E ela tem tantas faces, tantos cheiros. Ela é uma lembrança de rostos e sorrisos de Micheles, Cecílias e Taíses. Uma lembrança de um filme visto em uma tv preto e branco há muito tempo em alguma madrugada. A lembrança de um canção que ela me sussurava na cama, há muito tempo em alguma madrugada. Ela está tombada na lama, a cabeça em meu colo. Ela está velha e morrendo e seguro sua mão e a protejo da água dos céus com um velho e judiado guarda-chuva preto. Ela está morrendo em meu colo, na chuva. Estou fazendo um caixão na marcenaria de meu pai, ouvindo The Sound of Silence e imaginando que devia tê-la amado mais, devia ter cuidado melhor dela. Mas é tarde demais e o ritmo da música dita o ritmo do trabalho, um caixão é construído para ela que morre velha e sem forma no meu colo, em meio à lama, na chuva.

Eu devia tê-la amado mais.

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