quarta-feira, abril 01, 2009

Poisson d'avril


Como é feita uma ilustração?

É bem simples, se você souber algumas coisas. Primeiro, você deve saber tudo o que puder sobre a aparência da coisa que quer desenhar, seja ela um homem, um peixe, uma carroça ou uma folha. Você deve saber como essa coisa se move, se ela corre, rasteja, arrasta-se, nada ou voa.

Para muitos, isto basta.

Mas alguns seguem em frente e conseguem pintar as sutis variações de luz de um dia, o brilho da lua, o canto de um pássaro. Podem até pintar tristeza e alegria, medo e coragem. Poucos podem pintar o silêncio, o descanso ou até mesmo o cheiro e gosto de uma fruta.

Se você puder fazer todas essas coisas, então você deverá saber como fazer o texto e a ilustração complementarem um ao outro de modo a transmitir uma energia viva, como se fosse uma performance teatral, tudo acontecendo no tempo certo e na medida correta.

Józef Wilkón


Jamais mentimos.

Isso lá é uma coisa que todos nós temos em comum, não é? Quero dizer, nós, os atores, escritores, jornalistas, professores, amantes apaixonados e todo esse povo: todos nós fazemos ficção. Jamais mentimos. Fazemos ficção.

E ilustrar é isso. Fazer ficção.

Nós intepretamos. Ressaltamos alguns aspectos, amenizamos outros. Usamos cores, linhas, texturas. Apresentamos outras perspectivas, damos outras idéias. E talvez pintemos um mundo diferente do seu, mas tão real quanto.

Jamais mentimos.

Aquilo realmente não era um cachimbo.

Desenhar não deixa de ser um pouco como escrever. Ou talvez rezar. Podemos apresentar o mundo de um jeito que ele poderia ser, de preferência do nosso jeito. Podemos pedir por esse mundo e talvez torná-lo real. Pedir por uma caçada bem sucedida. Era essa a idéia quando pintávamos nas paredes das cavernas. Na parte mais profunda e escura...

a chama vermelha bruxuleante no muro da caverna
pintada de ocre, corante, carvão vegetal
fazendo o alce se mover,
fazendo o mastodonte respirar
fazendo o caçador correr e matar.

veja como procuram apaziguar
e entender o mundo acima
isso eles sabem
isso eles entendem
há escuridão por toda a parte lá fora

o escuro está em toda a parte; e embora o sol se levante,
e embora o fogo brote e seja domesticado,
a escuridão está ali
a escuridão está a espera

Neil Gaiman, em Os Livros da Magia


Ah, sim. Nós lutamos contra a Escuridão também! Temos boas intenções! Embora muitas vezes acabemos por propagar as trevas que combatemos, tornando-as mais fortes, mais intensas, mais opressoras... mais onipresentes.

Enfim, em nossas ficções buscamos dar forma ao transcendental, procuramos criar uma ponte entre nós e algum outro mundo que só podemos vislumbrar em sonhos. Ou às portas da morte.



Mas à parte isso, também registramos acontecimentos. Ou tentamos pelo menos...

Imagens pintadas, imagens em relevo, em monumentos e murais, procuram eternizar as lembranças de batalhas, conquistas, líderes, culturas.

Memórias.

Ou vestígios?



Em algum momento surgiu o livro e as pessoas acharam legal que ele tivesse figuras. No começo ele era feito todo à mão. Todo. Inteirinho. Então levava-se meses pra se produzir UM exemplar de um livro. Ah, e os livros também eram um pouco maiores dos que conhecemos hoje.


O Codex Gigas é um manuscrito produzido em meados do século XIII. Mede 92 cm de altura, por 50 de largura e 22 de largura. Pesa aproximadamente 75 kg. Mas, justamente por causa de uma ilustração, esse volume também é chamado de A Bíblia do Diabo. Seres reais e seres imaginários. Nunca vimos um diabo, um unicórnio ou um dragão, mas suas imagens são nítidas em nossas mentes. Por outro lado, nunca ninguém tinha visto um rinoceronte na Europa antes das grandes viagens marítimas começarem. Século XV e a ilustração servia agora como documento científico e base de informação.


Albert Dürer, autor da imagem acima, é um dos destaques em um momento chave na história da ilustração: a descoberta das possibilidades de reprodução da imagem. Primeiro veio a xilogravura, na qual Dürer despontou. A xilogravura já era velha conhecida dos Chineses desde o século 2, mas chegou à Europa só na idade média. A idéia da xilogravura é entalhar uma imagem em uma madeira, entintá-la como um carimbo e usá-la para imprimir diversas cópias de uma imagem. Sim, exatamente como um carimbo.



E essa foi a grande sacada. Não a xilogravura em si, mas a idéia de usar recursos técnicos que possibilitassem a reprodução de imagens. Era um grande passo para a Cultura de Massas. Além de rinocerontes, as imagens da xilogravura ajudavam a divulgar a história dos santos da Igreja Católica, reforçando seus ensinamentos e cultura. Abaixo uma das xilogravuras mais antigas, aproximadamente da década de 1470, apresentando São Cristóvão.



Ainda nessa época teve outra questão técnica importante pro nosso modo de ver imagens: a consolidação da perpectiva. Oras, perspectiva nada mais é do que uma técnica de representação. Uma dentre várias. Mas graças ao trabalho de Da Vinci e seus amigos, muita gente até hoje entende que só existe um jeito certo de desenhar e esse jeito é o jeito dos Renascentistas... Coisas para falarmos outro dia...



Voltando pra reprodução das imagens, depois da xilogravura, surge a gravura em metal (calcogravura). No século XIX, aparece a gravura em pedra (litografia). Essa era bem bacana. Você não esculpia, mas desenhava com um lápis ou giz gorduroso sobre uma pedra lisa. Devido à propriedades químicas, a pedra não retia tinta, mas o lápis retinha. Assim, ao passar tinta na pedra, ela ficava retida apenas nas áreas desenhadas.



Com isso não era mais preciso "esculpir" ou "cavar" a imagem. O movimento humano e o desenho solto e espontâneo eram valorizados. Com a litografia, uma nova possibilidade expressiva se abriu. Muitos artistas se destacaram criando peças publicitárias e cartazes de teatro, como Alfons Mucha.



Só que a litografia não prevaleceu como o meio de reprodução dominante. Ela surgiu quase que simultaneamente com outra técnica de produção e reprodução de imagens que revolucionou todo o conceito da coisa: a fotografia.

A fotografia permitia captar a "realidade" com mais rapidez e eficácia que os meios de ilustração (pelo menos, diante do senso comum). A partir daí, muita gente começou a repensar o ato de desenhar. Talvez buscar a "realidade" não fosse mais a prioridade de uma ilustração. Talvez nunca tenha sido. E daí a Imagem assumiu de vez sua relação com a Ficção.

Curiosamente, a fotografia tornou-se uma das muitas ferramentas da ilustração. Ao longo dos anos, muito antes dos Photoshops e Gimps, imagens fotográficas já serviam para tornar "reais" ideias impossíveis. De George Méliès às fotomontagens da década de 1970...




E daí para os efeitos especiais do cinema, ilustrações em movimento nas telas, as mais atordoantes e inebriantes ficções de luz.



É a foto de seu namorado que você olha como se fosse o próprio. É o filme na tv que você vive como se fosse verdade. É a história em quadrinhos, o romance, o jornal, a imagem.

Jamais mentimos.

Ceci n'est pas une pipe.


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