terça-feira, maio 12, 2009

... aonde ninguém jamais esteve.


A verdade é que estão se acabando os lugares pra ir.

Antes o mundo terminava no horizonte, em uma queda para o infinito. Ele era chato e o céu era um teto cheio de furos que só podíamos ver no escuro da noite. Vieram as caravelas, a Razão, o mundo deixou de ser chato, as coisas aconteceram.

Antes tinha duendes, bruxas, fantasmas e demônios. Nem faz tanto tempo assim que as montanhas do oriente ou aquelas selvas dos filmes preto e branco nos provocavam e a gente imaginva "o que será que tem lá longe?"

E hoje a gente usa o Google Earth.

Veja, uns séculos atrás e achávamos que o mundo era chato e terminava ali no horizone, ao alcance da vista. Hoje sabemos que ele se estende bem além, mas ele me parece bem menor do que era. Com menos segredos, menos desafios. Não há mais terra incognita.

Quando a série Jornada nas Estrelas (ou Star Trek, se preferir) começou na década de 1960, tinha na abertura uma voz em off que repetia sempre o mesmo discurso: "Espaço. A fronteira final..." E daí encerrava com "Audaciosamente indo aonde ninguém jamais esteve." Caraca, era um texto bacana e me arrepiei de ouvi-lo no novo filme. Mas esse discurso encerra um fato: aqui embaixo já não há mais pra onde ir.

Não há pra onde escapar dos satélites, no National Geographic, Discovery Channel e Globo Repórter.

Ou há?

O discurso de Jornada nas Estrelas estabelece uma nova rota pra aventura, mas a viagem ainda é a velha busca pelo desconhecido, pelas novas civilizações e coisas assim. Onde está a aventura do desconhecido hoje?

Ao viajar pra Nova York, um conhecido disse que era como passear pelo cenário de um filme. Nova York não parecia real, não parecia uma cidade. Parecia um cenário, uma mentira. Um sonho. Uma idéia plenamente vista e revista ao vivo e a cores um sem número de vezes.

Pulando pelo Google Earth, tv a cabo, Wikipedia, onde está o mundo real? Planejo minha viagem pra Paraty, visito o site, reservo a pousada e vou pra lá. Não há surpresa alguma. É tudo muito seguro. Está tudo lá. Controlado. Previsível. Estancado.

Em 1999 o filme ,Matrix propos outra trajetória para a aventura. Não o Espaço lá em cima, mas as profundezas de nosso íntimo. O que é real? É possível escapar da prisão do cotidiano?

Existe uma prisão do cotidiano?

E se antes um punhado de pessoas se enfiava em barcos de madeira pra atravessar um oceano sem saber exatamente o que encontraria do outro lado, o que nos resta hoje é palavrório e ego-trip.

Onde estão as grandes conquistas?

Que lugar restou pra gente ir?

Qual é o desafio?

Um comentário:

Anônimo disse...

Há sempre um desafio para o homem, que é a viagem para suas próprias profundezas. Essa "viagem" é inevitável e ele só pode fazer sozinho. Mas, gosto mais de chama-la simplismente de "caminho".