Saturday, May 02, 2009

Hellboy, o cramunhão camarada


Hellboy é uma daquelas criações indissociáveis de seu criador. Ou, nesse caso, de seus criadores. Porque, parando pra pensar bem, existem dois Hellboys. Um é o do cinema, que talvez você já conheça. O outro é o dos quadrinhos. A princípio era pra ser o mesmo personagem, mas existem detalhes sutis que acabam afastando as duas obras. E ambas são interessantes.

O texto que se segue não é sobre Hellboy, o personagem, mas sim sobre a criação desses Hellboys, um pouco sobre seus criadores e suas matérias-primas. São especulações, considerações e curtições sobre o barato que é criar algo insano e ver essa coisa tomar vida própria e começar a ditar seu próprio destino.

Aquelas coisas redondas que ele tem na testa não são óculos, mas chifres que ele serra e lima. E ele também tem um rabo e cascos. E cavanhaque.


Essencialmente, Hellboy é filho de um demônio com uma bruxa parido no Inferno e arrastado para a Terra por um experimento mal-sucedido de místicos nazistas. Encontrado por um pesquisador do sobrenatural, ele foi levado para uma base militar secreta onde passou sua breve infância. Adulto, tornou-se agente do Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal (BPDP) especializado em... pesquisa e defesa contra elementos paranormais. Tipo um Arquivo X misturado com os integrantes mais bizarros dos X-Men . No Bureau, Hellboy é o sujeito que cuida do trabalho pesado, o que freqüentemente envolve dar porrada em monstros, demônios e afins. Vivendo entre humanos, o vermelhão adquiriu uma série de hábitos mundanos: linguagem chula, senso de humor, moralidade, gosto por charutos e predileção por panquecas.

A vida de Hellboy ia muito bem até o dia em que descobriu que era, na verdade, Anung Un Rama, a criatura mítica de uma profecia, o protagonista do fim do mundo, libertador dos sereis abissais que consumiriam toda a vida no Universo. Ou algo assim, tipo, a Besta do Apocalipse.

Essa idéia toda saiu da cabeça do desenhista Mike Mignola e tomou forma pela primeira vez em 1993, na primeira série de histórias do Hellboy: Sementes da Destruição. Mais interessante pra mim do que o universo desse personagem, é o rumo que suas histórias foram tomando nos bastidores.


Pra começar, Hellboy foi surgindo, digamos assim, na cagada. A primeiríssima vez em que ele apareceu foi como uma ilustração de um folheto de um evento de quadrinhos qualquer. Mignola desenhou um diabrete qualquer e, no último momento, escreveu “Hellboy” em seu cinturão. “Só que o nome ficou gravado em minha mente e então o personagem começou a tomar forma”.


Mike Mignola é um desenhista de quadrinhos com um traço bem singular. Está entre meus desenhistas preferidos. Mas o que faz de Mike um bom quadrinista não é seu desenho belíssimo, simplificado e eficaz, mas também seu layout de páginas. O modo como ele utiliza os quadrinhos, como ele os dispõe na página, como decupa e escolhe os elementos e momentos de uma ação para construir a página... bem, tudo isso é único e muito bacana.

Para você ter uma questão do que significa essa história do layout, teve uma edição especial onde Hellboy encontrava-se com outra personagem, a Ghost, a fantasma de uma policial que seguia tentando fazer justiça. Ao folhear a revista, eu tinha a fortíssima impressão de ser um trabalho do Mignola, apesar do desenho ser algo completamente diferente. No fim da edição, entre os “extras” descobri que, além do roteiro, Mignola havia produzido esboços com os layouts das páginas, que o desenhista Scott Benefiel seguiu à risca. Esse layout característico de Mignola, com closes, sombras e ritmo de ação únicos é tão importante para o Hellboy dos quadrinhos quanto a arte e as histórias que o autor compõe.

As influências de Mignola vêm principalmente dos romances de aventura e ficção pulp dos anos 20 e 30. Os monstros abissais que devorarão o universo no Fim dos Tempos são claramente retirados dos contos de H.P. Lovecraft. Aliás, Hellboy deve muito a Lovecraft e também a Edgar Allan Poe no que se refere à construção de seu universo ficcional. O sobrenatural no mundo de Hellboy é sombrio e ameaçador exatamente como nas obras dos dois autores. Não se trata do explícito, mas sim do sugerido, das sombras que nos ameaçam e que fogem à nossa compreensão. O “inenarrável”, como diria Lovecraft.


Além do terror, outra influência marcante em Hellboy são as ficções de aventura. Os investigadores e aventureiros dos pulps como o Doc Savage. Hellboy tem muito a ver com Savage, no sentido de resolver confrontos com as próprias mãos, dando surpreendentes demonstrações de força e resistência. Assim como Doc Savage, Tarzan, o Sombra e outros “heróis” das pulps, Hellboy é o tipo machão pra caralho, que arrebenta com os caras maus. (Se bem que o vermelhão apanha tanto quanto bate...) Os próprios títulos das histórias do vermelhão (Sementes da Destruição, O Despertar do Demônio, A Mão Direita da Perdição...) são inspirados nessas pulp fictions.

Todo esse background de cultura pop-nerd descartável fascinou o diretor Guillermo Del Toro.


Guillermo Del Toro é um cara divertido. O primeiro filme que assisti dele foi El Espinazo Del Diablo (A Espinha do Diabo), que tem um estilo muito parecido com o Labirinto do Fauno, a obra que o consagrou e que você já deve ter visto (eu espero...). O que se vê é que Guillermo curte o terror, esse lance de vampiros e monstros, mas também tem um olhar sutil, mais poético, sobre o fantástico. Nessas obras, temos como protagonistas crianças que lidam com as diferenças entre um mundo real e outro imaginário (ou nem tanto...) e é difícil dizer qual deles é o mais assustador.

Foi durante as filmagens de Mimic (filme de terror com baratas humanóides e Mira Sorvino) que Del Toro teve contato com os gibis de Hellboy. Tornou-se um fã entusiasmado e decidiu adaptá-lo para o cinema. E a partir daqui as histórias do Hellboy quadrinhos e Hellboy cinema correm paralelas.

Antes de Hellboy, Mike Mignola desenhava bastante histórias de super-heróis. E na época que Hellboy fez seu debut nos quadrinhos (1993), Mignola pensava em criar algo como um super-grupo especializado em combate ao sobrenatural. Peneirando melhor a idéia, ele optou por um protagonista que fizesse parte de uma força investigativa. Mas o espectro do gênero super-herói pesava bastante ainda sobre as primeiras histórias.

Essencialmente um desenhista, Mignola tinha medo de escrever, de por palavras nos balões de seus personagens. Daí chamou seu amigo John Byrne pra escrever os textos de Sementes da Destruição. John Byrne está para os super-heróis assim como Michael Bay está para os filmes blockbusters. Não se trata de qualidade, mas você sabe exatamente o que esperar desses dois e quais são os seus limites. Assim, Sementes da Destruição, a estréia de Hellboy, era uma estranha história de super-herói permeada de referências a O Chamado de Chtulhu (de Lovecraft) e A Queda da Casa de Usher (de Poe).

E quando digo “estranha história” expresso exatamente a impressão que ela me dá. Acho que Mignola ainda não tinha definido algumas coisas e essa primeira história parece bem deslocada em relação às posteriores. Pra começar, a narrativa em primeira pessoa feita por John Byrne é irritante. Hellboy conta a história exatamente como um típico super-herói contaria: com frases desnecessárias e comentários imbecis. Ele jamais cala a boca. Nas histórias posteriores, talvez pelo seu medo de escrever, Mignola faz histórias com texto bem mais enxuto. O que é uma excelente melhoria.


O primeiro filme de Hellboy feito por Del Toro segue essa onda super-herói também. O próprio Del Toro o define como um filme de super-herói. Mas o ponto é que o Hellboy não é a porra de um super-herói. Apesar de ser uma adaptação muito fiel, o filme toma rumos diferentes da HQ, o que é bem saudável.

Como o filme foi feito alguns anos mais tarde e muita coisa já tinha sido definida na HQ, ele conserta uma falha que particularmente me incomoda muito em Sementes da Destruição, que é a morte do professor Brum. Veja, esse velhinho era como um pai para Hellboy. No filme, vemos essa relação muito bem colocada e o vermelhão realmente sente a morte no pai.

Já nos quadrinhos, a reação de Hellboy ao ver o corpo do professor não é a que se poderia esperar. Após um ímpeto de fúria, ele age com total indiferença ao comunicar ao Bureau a morte de seu mentor. Nas histórias subseqüentes vê-se o papel importante de Brum na vida de Hellboy. Imagino que se tivesse pensado nisso desde o começo, Mignola não teria “simplesmente” matado o velho Brum.


As grandes diferenças entre o Hellboy do filme e o Hellboy dos quadrinhos estão em dois pontos principais: amor e livre arbítrio.

No filme Hellboy tem um romance com a personagem Elizabeth Sherman. Ele a ama e o sentimento é retribuído. No gibi, Hellboy e Liz são no máximo bons amigos. O vermelhão nunca mostrou até agora interesse romântico algum. Aliás, considerando que nem humano o cara é, isso não é tão estranho assim.

No filme, ao negar seu destino como Desencadeador do Apocalipse, Hellboy tem principalmente a ajuda de um humano, um amigo do BPDP. Nos quadrinhos, Hellboy renega seu destino de livre e espontânea vontade.

Existencialmente, o personagem dos quadrinhos é bem mais complexo que o do cinema. A ausência de um amor e de um vínculo com a humanidade faz de sua moralidade e livre arbítrio as únicas motivações para recusar seu destino. Acho isso um barato.

E são essas diferenças que fazem as histórias em quadrinhos subseqüentes e o próximo filme seguirem por caminhos paralelos. Ainda assim, tanto o quadrinho quanto o filme jogam pra longe a sombra do super-herói em suas continuações.


Nos quadrinhos, ao longo dos anos, Mignola vai amadurecendo seu personagem. O texto é usado na medida certa, a composição das páginas vai ficando cada vez mais refinada. Hellboy torna-se um andarilho, um sujeito vagando de lá pra cá sem saber exatamente qual seu propósito e sem se preocupar muito com isso. Em suas andanças, Hellboy topa com outros seres mitológicos e folclóricos. Alguns insistem em lembrá-lo de seu papel no Fim do Mundo e ele os responde com um singelo “vá se foder!”. Os lampejos de humor são constantes em um mundo fictício inacreditavelmente sombrio.

Em termos de personalidade, os Hellboys do cinema e HQ são muito próximos. Ambos são toscos. Um demônio renegado que torna-se um investigador paranormal com o temperamento e sutileza de um estivador. Simplesmente tosco. Não tem como não criar empatia com ele. É simplesmente ótimo.

No cinema, a continuação de Hellboy, Hellboy e o Exército Dourado, segue a tendência de se afastar do estilo super-herói. Embora Hellboy combata um príncipe renegado que quer incitar a guerra entre o mundo dos homens e dos elfos, não há personagem que possa ser caracterizado como um vilão. As razões do príncipe são claras e lógicas: ele só quer reconquistar o espaço de seu povo.

O Exército Dourado afasta-se ainda mais dos rumos dos quadrinhos, mas é muito melhor que o primeiro filme. A sensibilidade de Del Toro é tocante. Como na seqüência que Hellboy enfrenta o gigante elemental no meio da cidade. “Se você o destruir”, diz o príncipe, “nunca mais esse mundo verá outro ser como ele”.

O segundo filme ainda apresenta a deliciosa cena da bebedeira, em que Hellboy e Abe Sapien cantam bêbados. É o mundano e o extraordinário se tocando. Sensacional.

Ao assistir os filmes, é bacana escutar a faixa de comentários de Del Toro e assistir aos extras e documentários. Guillermo Del Toro é um sujeito que ama o que faz e isso se vê no modo como ele apresenta os extras de seu filme. É simplesmente empolgante!

Nos quadrinhos de Hellboy lançados aqui no Brasil pela Editora Mythos, podemos ver esboços e comentários de Mike Mignola sobre o desenvolvimento das histórias. Mignola participou das produções dos dois filmes e, curiosamente, parece ter sofrido de uma espécie de bloqueio criativo. No volume Paragens Exóticas (Mythos, 2007) Mignola publica esboços de histórias que não conseguiu terminar por causa do tal bloqueio. O último volume lançado no Brasil, O Clamor das Trevas (2008), não foi desenhado por Mignola, mas pelo competente Duncan Fegredo. Mas Mignola permanece responsável pelo roteiro.

Curiosamente, a respeito de desenhar Hellboy, Fegredo comentou: “A gente não pode simplesmente desenhar um par de chifres serrados e um grande queixo quadrado num crânio humano e achar que isso vai resultar instantaneamente no Hellboy. Simplesmente não dá certo!” É o tal do desenho, do traço, que está bem mais ligado ao personagem do que a gente poderia pensar.

Enfim, o grande barato é esse jogo da criação. Esse lance de se inventar algo que não se sabe direito o que é e ver essa coisa, esse personagem se desdobrar, se erguer aparentemente alheio à nossa vontade.

Não faça planos. Comece e deixe rolar. E se você quer conhecer o Hellboy...

Edições do Hellboy Publicadas no Brasil:
  • Hellboy - Sementes da Destruição (Mythos Editora, 1998)
  • Hellboy - O Despertar do Demônio (Mythos Editora, 1998)
  • Hellboy & Ghost (Mythos Editora, 1999)
  • Savage Dragon & Hellboy 1 e 2 (Pandora, 2001)
  • Hellboy - O Gigante Infernal e Os Lobos de Santo Augusto (Mythos Editora, 2001)
  • Hellboy, Batman e Starman (Mythos Editora, 2001)
  • Hellboy: A mão direita da perdição (Mythos Editora, 2004)
  • Hellboy - O Verme Vencedor (Mythos Editora, 2005)
  • Hellboy - Contos Bizarros Vol. 1 (Mythos Editora, 2006)
  • Hellboy - Contos Bizarros Vol. 2 (Mythos Editora, 2006)
  • Hellboy - Paragens Exóticas (Mythos Editora, 2007)
  • Hellboy - A feiticeira de Troll e Outras Histórias (Mythos Editora, 2008)
  • Hellboy Edição Histórica vol. 1 - Sementes da Destruição (Mythos Editora, 2008)
  • Hellboy - O Clamor das Trevas (Mythos Editora, 2008)
  • Hellboy Edição Histórica vol. 2 – O Despertar do Demônio (Mythos Editora, 2008)
  • Hellboy Edição Histórica vol. 3 – O Caixão Acorrentado (Mythos Editora, 2008)
  • Hellboy Edição Histórica vol. 4 – A Mão Direita da Perdição (Mythos Editora, 2009)


E a gente se vê!

3 comments:

Vini said...

caraca!vc sabe como elogiar um persongem,hein?tenho 13 anos e estou prestes a fazer 14.fiz um herói mais ou menos como mignola criou o dele.
passe no meu blog e deixe comentarios.

falou

p.s.todo mundo me chama de Bueno

Vini said...

caraca!!!vc sabe como elogiar um herói.sabe,eu tambem desenho e criei um herói mais ou menos como mignola criou o dele.
passa lá no meu blog e comente.


falou

Kurt Wagner said...

É um dos herois ou anti-herois mais bacanas dos quadrinhos é o filme é espetacular,talves se tivesse outro ditetor no filme não teria dado certo.