quinta-feira, maio 21, 2009

Persona


Definitivamente, eu sou uma pessoa melhor quando estou bêbado.

Isso é triste.

Triste o caralho.

É fantástico.

É como se minha mente fosse uma tela e diversas janelas abertas com diversas informações, pensamentos, idéias, abertas ao mesmo tempo, todas visíveis, todas claras. Todos os momentos são um só, todos os problemas são insignificantes, tudo faz sentido...

A primeira vez que assisti Dr. House foi na festa de uma amiga nerd. Ali comecei a associar o doutor com pessoas solitárias.

Ali comecei a pensar que só pessoas solitárias assistiriam House e se identificariam com o pobre manco e sua língua mordaz. Como se pudessem se identificar com o desgraçado e sua solidão e a muralha de ironia e mordacidade que o cerca.

Em um episódio de House ele diagnostica um paciente por estar feliz demais. O cidadão estava em sua maca, simplesmente feliz, sorridente, e House percebeu que toda essa felicidade deveria ser um sintoma de alguma doença. Simplesmente porque ninguém deveria ser tão feliz assim.

Curiosamente, no extremo oposto, seus colegas começam a achar que o próprio House deveria ter algum problema, pois se ninguém pode ser tão feliz, então ninguém pode ser tão irrascível e tratante quanto ele. Examinam o sangue do doutor House e acabam descobrindo que ele tem sífilis. E isso seria a causa do temperamento único do doutor. Ele poderia ser curado e então ele deixaria de ser quem é. Eles se perguntam se seria certo curá-lo...

Mais tarde todos ficam sabendo que era tudo uma grande pegadinha do próprio House, que havia substituído a amostra de sangue por uma contaminada.

Mas a felicidade do paciente realmente era sintoma de uma doença...

E daí?

Daí que agora, enquanto escrevo, estou bêbado. As palavras fluem, tudo faz sentido. Estou feliz por estar vivo. Posso ouvir a água fervendo da cozinha, posso compreender tudo ao meu redor com uma clareza que não tinha antes.

E se House tivesse sífilis e toda sua personalidade e tudo aquilo que faz dele o que ele é fossem fruto de uma doença? E se eu só fizer sentido como ser humano enquanto estiver bêbado?

A lucidez.

A esperança.

A alegria de viver.

São só estímulos químicos?

Tudo que sou e o que poderia ser cabe em uma garrafa ou em um frasco de comprimidos?

Ou um livro. Ou um texto.

Um personagem inventado.

Interpretado.

E real.

2 comentários:

Ani_lein disse...

adoro seus textos!! :)

Liber disse...

Obrigado, Ani!