sexta-feira, junho 26, 2009

Kohelet


Hoje, depois de duas semanas, ela começou a morrer.

Ficar com ela foi um ato de teimosia, um dar de ombros pra um sentimentalismo barato que sempre me toma e hoje parece mais um cacoete do que uma tristeza legítima.

Ela era presente pra moça. Era mais um elemento na lista do ritual: toalha branca, taças, duas garrafas de vinho, velas. E a rosa. Foi um daqueles encontros relâmpago bem-sucedidos, com sorrisos, beijos e nudez. Tudo bem bonito, orquestrado e vivido.

Mas, no dia seguinte, a moça não quis levar a rosa. Foi só um encontro, um só jantar e a moça não ia voltar. Algumas pessoas fogem da intimidade como se fosse uma doença. A moça foi-se embora e a rosa ficou.

Na tarde de sábado fiquei olhando pra flor, pensando no que fazer. Dá-la de presente pra outra pessoa ou jogá-la no lixo ou... bem. Fiquei com ela. Pra mim. Minha rosa. Linda rosa. Única como todas as outras.

O que me incomodava era vê-la morrer. Murchar, desvanecer, acabar-se. Mas, afinal... não é esse o rumo natural das coisas? Todos vão para um mesmo lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó. É isso não é? Sejam pessoas, flores, momentos ou lembranças. Todos vão para um mesmo lugar.

Coloquei-a num copo com água. Levou duas semanas antes que ela começasse a se desfazer. As pétalas caíram, o caule se curvou. Mais um pouco e ela não estará mais lá. E mais um pouco ainda e eu não me lembrarei por que ela estava lá.

Ou sequer que um dia ela esteve lá.

Essa semana conheci uma moça nova...


2 comentários:

Patrícia Pirota disse...

Putaqueopariu, que texto lindo Liber!
Tão lindo quanto seu baço ;)

Toda semana eu roubo uma rosa do quintal da vizinha [elas ficam pra fora do muro, beirando a calçada, o que torna o ato menos ilícito!] e coloco em minha mesa. Como para me lembrar que todas as belezas e as presenças são fugidias, e uma hora tomam seu rumo...

E é difícil admitir, mas eu sou uma das pessoas que foge da doença da intimidade. Quem sabe um dia eu encontre um remédio...Ou não...

Espero que a nova moça não lhe deixe com uma rosa, mas com sorrisos =)

Bom domingo!
Bjo procê.

Liber disse...

Valeu, Patricia!

Intimidade não é doença. Ela assusta, mas não é doença...

;-)

Bjs!