sábado, junho 20, 2009

Quadrinhos & Quadrados


Veja só, nas últimas semanas apareceram diversos casos de "livros inapropriados" distribuídos nas bibliotecas de escolas públicas. Os tais livros teriam palavrões e apresentariam situações de violência, pedofilia e vulgarização do sexo. Ah, e também eram livros de histórias em quadrinhos.

O caso começou com o álbum Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol. Coletânea de quadrinhos sobre futebol produzida por diversos artistas brasileiros, a obra foi distribuída para escolas públicas como parte do programa Ler e Escrever, que tem por objetivo incentivar a leitura. Dez na Área... seria distribuído para alunos da terceira série. O problema seria que o álbum está cheio de expressões feias como "cu" e "chupa rola".

(Ha! Lembro do que eu via escrito nas portas do banheiro da minha escolinha pública do primeiro grau...)

Daí a Globo, sempre zelando pelos interesses do povo brasileiro, fez umas reportagens dando destaque a esse caso escandaloso. O ponto alto desse episódio foi a entrevista ao vivo com o governador José Serra descrevendo o álbum como "de muito mau gosto" e garantindo que os responsáveis por sua distribuição às escolas seriam punidos. Se você quiser saber mais sobre esse caso, leia aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. Ou procure no Google.

Depois apareceram mais uns casos como esse, com histórias em quadrinhos sendo usadas como material paradidático e sendo marginalizadas por apresentarem elementos inadequados à formação das crianças. O episódio mais recente aconteceu essa semana, aqui no Paraná.

Um zeloso vereador está se esforçando em banir um livro pernicioso das bibliotecas das escolas públicas. Segundo o senhor vereador, “Esses livros não condizem com a realidade da educação. Os termos neles são vulgarizados e tem até trechos de pedofilia. Acho inadmissível gastar dinheiro público para colocar pornografia nas escolas públicas”. (Saiba mais...)

Pois é, o tal livro pornográfico é uma graphic novel chamada Contrato com Deus, de Will Eisner. Foi publicada pela primeira vez em outubro de 1978 nos EUA e é considerada pela crítica como um marco para as histórias em quadrinhos. Ali, Will Eisner conta quatro histórias curtas. Todos os episódios são ambientados no bairro do Bronx, na Nova York de 1930, onde o autor passou a infância. São histórias carregadas de drama, miséria e humanidade. Supostamente Contrato com Deus seria ser utilizado com alunos do ensino médio como parte do programa de incentivo à leitura.

Não vou discutir aqui o que é ou não adequado pra crianças ou pré-adolescentes lerem nas escolas.

O tal programa Ler e Escrever tem como objetivo incentivar a leitura. O problema é se nós realmente queremos incentivar a leitura. Ler de verdade implica em começar a pensar e discutir sobre o mundo, as pessoas, os valores que temos. É sobre isso que trata a boa leitura. Ela sempre nos faz pensar.

Ainda em maio a Editora Companhia das Letras lançou seu novo selo, Quadrinhos na Cia. Abriu com quatro obras superbacanas, das quais li duas.

Retalhos é a tradução brasileira para Blankets, obra super-premiada de Craig Thompson. Eu estava ansioso pra ler esse álbum. Tão ansioso que acabei de me dar conta que encomendei pra Fabi comprar pra mim, enquanto ela está de viagem pela terrinha do Tio Sam. Então, Fabi, se você ler isso, não compre o Blankets, que eu já comprei a versão brasileira. Mas se já comprou, eu não ligo, pode me trazer do mesmo jeito... ;-)

Então...

Retalhos é uma história carregadérrima de toques auto-biográficos, mostrando um pouco da infância e juventude do Craig Thompson. Não sei até que ponto eu considero a história auto-biográfica, porque pra mim tudo é ficção, inclusive as nossas memórias. De qualquer forma, em Retalhos, vemos Craig e seu irmão enquanto crianças, repartindo a mesma cama, morando com os pais em uma cidadezinha gelada largada em algum canto dos EUA.

Marcos da infância de Craig são a religião de seus pais, o frio dolorido, a companhia do irmão e a paixão pelos desenhos. Criado sobre uma rigorosa orientação religiosa, Craig teria se tornado pastor se não fosse por uma série de pequenos eventos. Os trechos que questionam a religião estão entre os meus favoritos do álbum e me identifico muito com eles. Embora a religiosidade não seja o foco principal, ela permeia todo o livro. O que se discute não é a fé, mas sim as estruturas religiosas, os dogmas, regras e repressão em cima do que pode se considerar "pecado".

Dormir com uma mulher por exemplo.

O principal foco de Retalhos é justamente o primeiro relacionamento, o primeiro contato entre um garoto e uma moça. A primeira vez que se dorme junto com outra pessoa, o desejo, o sexo e todo o peso de uma inflexível educação.

O modo como Craig Thompson trata o romantismo, a inocência e a nostalgia é muito bacana. Muito tocante. Já no primeiro capítulo, ao narrar a convivência com a "babá", Thompson me arrebatou com o modo brutal como a ingenuidade e boa fé das crianças é massacrada pela torpeza adulta.

Definitivamente um álbum maravilhoso, leitura belíssima.

Fico imaginando se um álbum desses fosse distribuído às escolas públicas. No próprio país de origem, os EUA, ele foi alvo de protestos e ameaçado de ser recolhido das bibliotecas. Mas não entenda como protestos públicos e sim protestos de autoridades zelosas pela educação das crianças.

Imagino como seria se eu, com 12 ou 14 anos, tivesse lido Retalhos. Quem sabe? Eu arrisco a dizer que teria sido maravilhoso. Que o livro teria me passado mais coisas do que Dom Casmurro ou Senhora. Teria me feito gostar mais de leitura, teria me feito pensar melhor sobre a vida. Teria me preparado para algumas situações.

Ou talvez eu simplesmente não desse a menor pelota. Quem sabe...

A leitura da escola devia ser literatura de verdade, aquela que pulsa, tem significado e te transforma. Deveria ser ensinada com paixão e não como uma obrigação maçante. O problema é que a verdadeira literatura te ensina a questionar e pensar. E questionar e pensar pode não ser muito interessante pra algumas autoridades zelosas.

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