domingo, julho 19, 2009

Pixo


Essa é outra notícia velha. Mas tudo que não se repete permanece inédito, não?

Em 11 de junho de 2007 um grupo invadiu o Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e pichou todo o lugar. Era dia de abertura de exposição dos trabalhos dos alunos formandos em arte.

Da Folha de São Paulo:

Pichadores vandalizam escola para discutir conceito de arte

Colegas classificaram ação como terrorismo; coordenadora do curso de Artes Visuais chamou de "ato de vandalismo"

Aluno da Belas Artes convocou grupo para realizar prova de conclusão de curso


LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Cada um dos 37 alunos do último ano do curso de Artes Visuais do Centro Universitário de Belas Artes tinha de apresentar uma obra para garantir sua formatura. Três espaços foram reservados para a exposição dos trabalhos. Trinta e seis alunos preencheram esses espaços com sua produção. Um -Rafael Augustaitiz, 24-, não.

Pichador desde os 13 anos, Rafael resolveu apresentar um trabalho diferente. "Uma intervenção para discutir os limites da arte e o próprio conceito de arte", explicou.
Nos últimos dias, os locais de reunião de pichadores no centro da cidade tornaram-se focos de recrutamento de jovens para "a ação", como se chamou. Às 21h de anteontem, horário de intervalo das aulas, 40 deles, idades entre 15 e 25 anos, compareceram ao "ponto", na estação Vila Mariana do metrô (zona sul).

"Estamos todos muito ansiosos", disse um morador do Ipiranga, que assina suas pichações com o desenho de um monociclo. A maioria dos rapazes nunca pôs os pés em uma faculdade; sua estréia no ensino superior seria justamente em um trabalho de conclusão de curso.

Em cinco minutos andando a pé, o grupo alcançou a escola. Muitos vestiram máscaras improvisadas com camisetas ou daquelas usadas para pintura com compressor. Logo, as latas de spray foram sacadas de dentro dos moletons folgados.

Os jovens pichavam suas "assinaturas" nas paredes, nas salas de aulas, nas escadas, sobre os painéis de avisos, nos corrimãos. Uma funcionária da secretaria, Débora Del Gaudio, 30, quis impedir. Levou um jato de spray no rosto.

Usando a técnica do "pé nas costas", os pichadores formaram escadas humanas (com até três jovens "empilhados"), uma forma de atingir andares superiores da fachada. Assustaram funcionários da escola enquanto escreviam aquelas letras pontudas e de difícil decifração.

Os 30 seguranças da faculdade mobilizaram-se para acabar com a farra. "Deixa eu terminar a minha frase, pô", pediu um jovem. Tomou um soco. Revidou. Virou uma pancadaria.

"Abra os olhos e verá a inevitável marca na história" e muitos símbolos do anarquismo, além das letras pontudas já cobriam o prédio, quando cinco carros da polícia militar chegaram ao local, apenas dez minutos depois de iniciado o ataque.
Enquadrado pela PM, Rafael gritava ao entrar no camburão: "Olha aí, registra, isso é um artista sendo preso."

A maioria dos alunos não achou nada legal "a ação", "a intervenção", "a obra" de Rafael. "Terrorismo. O que aconteceu aqui é terrorismo. Se isso é arte, então o maior artista do mundo é o Osama Bin Laden e o buraco das torres gêmeas é uma obra-prima", disse Alan George de Sousa, 33, do curso de arquitetura e desenho industrial.
"Eu pago R$ 1.500 de mensalidade no curso de arquitetura porque trabalho e minha mãe também dá um duro danado para me manter aqui. Aí vem um filho da mãe dizer que fez essa porcaria toda porque a gente é tudo burguesinho. Ora, vai estudar, se preparar", gritava uma aluna.

Rafael amanheceu o dia de ontem em companhia de mais seis acusados de pichação no 36º Distrito Policial, no Paraíso. Duas estudantes de publicidade da Escola de Propaganda e Marketing, que fica em frente à Belas Artes, estavam lá também, exigindo: "Essa gente tem de se ferrar." As duas acusavam o grupo de pichadores de riscar o Honda Fit cor de champagne que saiu da concessionária "há menos de uma semana".

Ontem à noite, na parte interna da escola, já nem parecia que o aluno com 40 manos tinha estado lá. Tudo estava limpinho. Às 20h30, a turma dos formandos (menos Rafael) ia se reunir para "processar esse trauma", nas palavras da coordenadora do curso de Artes Visuais, a artista plástica Helena Freddi, para quem o que aconteceu na faculdade foi "um ato de vandalismo que extrapolou os limites da ação civilizada."

No texto que escreveu para justificar "a ação", 28 páginas encimadas pelo título "Marchando ao compasso da realidade", Rafael desafia: "Somos abusados? Que se foda! É um orgulho para vocês eu estar dentro dessa podre faculdade. Não sou seu filhote, não preciso do seu aval. A arte hoje em dia é para quem está na pegada. Para os bunda-moles ela morreu faz é tempo." O curso de Artes Visuais tem mensalidade de R$ 900. Rafael é bolsista integral.



Não soube desse acontecimento na época em que ocorreu. Tomei conhecimento desse artigo hoje, depois que vi esse vídeo:



Durante o começo do vídeo fiquei assombrado. Aquele pessoal escalando o prédio... que loucura! Que perigo! O que faz um sujeito arriscar a vida desse jeito? Depois, ao ver a invasão da exposição e da faculdade, fiquei chocado. Chocado mesmo. Um mal-estar. A menina que tenta deter o pichador que pinta o painel em branco. Os gritos dela, a frustração. A agressão do ato. Ela expôs seu trabalho e o pichador expôs o dele, mas, como disseram no vídeo, a base do trabalho do pichador é a agressão, é a brutalidade. O trabalho dele é destruir o trabalho dela. E de repente, a moça está xingando, chorando. "É ódio, tá ligado?".

Se arte, como disse o funcionário do Centro Universitário, é o que "nos alegra no dia a dia", o que esses caras fazem não tem nada a ver com arte. É um grito, é um soco, é a agressão. Tem que ser ilegal, senão a gente não fazia. Isso é o verdadeiro tapa na cara. Arte, pixação, vandalismo. Falta de respeito pelo outro. Só que falta de respeito pelo outro pode ser feita de diversas maneiras e é sempre uma via de mão dupla.

Esse vídeo me virou do avesso, sabe?

Eu sou um cara acomodado. Assisto uns filmes tipo Clube da Luta, gosto de idéias anarquistas, mas essencialmente sou um cara acomodado. Gosto do meu colchão macio, gosto dos meus dvds.

Tyler Durden sentiria vergonha de mim.

E tem tudo a ver com Clube da Luta. Porque tudo nessa sociedade está encaixado dentro de um sistema. Falamos que é feio agredir o outro, mas só é feio agredir o outro se não jo fizermos dentro das regras do jogo. Não vale bater no outro, mas explorá-lo no dia-a-dia do trabalho pode. Não vale asfixiar o outro, mas expremê-lo numa lotação pode. Não pode xingar, mas tirar um sarro com a ironia sutil do doutor House pode (é até chique).

Clube da Luta é um filme que joga justamente com essas agressões "legais" que todos sofremos, mas que nem discutimos porque... bem, é normal você trabalhar a vida inteira e morrer com dívidas. Algumas pessoas dão certo, outras não. Isso é normal. E é esse discurso que o velho Tyler usa. "Não vamos ser como o cara bonito da propaganda de cuecas". Tudo o que nos prometeram nos filmes, seriados e escola não vai acontecer: não seremos os heróis vitoriosos. Não somos especiais. Somos massa. E isso é normal.

Brincando com essas frustrações, Clube da Luta acaba cativando seus espectadores. A proposta de Tyler Durden é a anarquia, o caos. Abaixo as convenções, o conforto e o consumismo. Mas essa é uma anarquia de mentirinha, pra ser comercializada e o próprio filme brinca com isso. Em essência, Clube da Luta é um filme inofensivo. Tem idéias anárquicas mas tudo dentro de uma linha aceitável.

No filme, Tyler Durden cria um verdadeiro exército dedicado a realizar o Projeto Caos, que visa instaurar uma anarquia generalizada. No filme é tudo bonitinho, divertido, excitante.

Mas quando vi a galera invadindo a escola no vídeo ali em cima...

Esses caras são o verdadeiro Projeto Caos. E são perigosos porque não querem jogar dentro das regras. Esses caras não vão entrar quietos nos ônibus...

Pra mim, do vídeo fica, acima de tudo, a pergunta do fotógrafo Choque: "Que sociedade é essa, que forma uma geração inteira de jovens que precisa se expressar através da destruição?"

*****

Se quiser, tem um artigo bem bacana sobre pichação aqui. Tá em inglês, mas isso não vai te atrapalhar, né?


2 comentários:

Anônimo disse...

Oi Liber!

Não tenho nada interessante a acrescentar, mas queria dizer que gostei bastante do texto. Acho que gosto de temas polêmicos. E gosto da minha cidade, por isso me dói muito ver isso.

Pra mim, existe uma diferença entre expressão, intervenção urbana e arte. O caso deles se encaixa nos dois primeiros. Minha intuição diz que a arte tem algo um pouco além... Não sei dizer o que é, mas tem...

E acho interessante como nós passamos fácil fácil dessa discussão do campo das artes para um discurso social, político, econômico,... Parece que nosso espelho está partido. Nossa sociedade não se reconhe mais, nossos rostos estão fragmentados, quase dilacerados.

Fica difícil ter esperança... (quem sabe, o palhaço...)

abraço,
ass: Gelse

Liber disse...

Oi, Gelse!

Oba, tenho uma leitora fiel!

;-)

Esse tema do Pixo deu uma boa controvérsia entre meus amigos. Pra uns é crime, é um desrespeito, é inaceitável e pronto. Pra outros, é crime, é um desrespeito, é inaceitável, mas... parece que tem algo mais aí... é difícil dizer. Agora falam em pixar a bienal de artes e outras exposições. Daí, já virou zona e perdeu a graça. Mas esse primeiro ato faz a gente pensar... sei lá.

Vamos para o próximo tópico.

Até

;-)