sexta-feira, julho 10, 2009

Revirando gavetas

Teve uma época que meu programa de tv favorito era o Provocações.
Daí um governador assumiu e bagunçou toda a programação da TV Cultura aqui no Paraná e nunca mais vi o Provocações. Quem apresentava era o Havengard, mas ele usava o nome de Antonio Abujamra. Domingo de noite eu assistia o velho bruxo entrevistar pessoas e declamar poesias. E o que eu mais gostava eram as poesias.
E teve um texto que colou na minha cabeça, me chacoalhou mesmo. Parecia que tinha sido escrito pra mim, parecia que era a MINHA canção. Me fez pensar "Porraaaaa, é isso aí! A minha vida nunca mais vai ser a mesma!"
E daí os anos passaram e eu esqueci dela. Simplesmente esqueci.
Ontem acabei achando ela dobrada, no fundo de uma gaveta. Reli, relembrei, senti novamente o mesmo lampejo de antes. A mesma emoção. E agora? A minha vida nunca mais vai ser a mesma? Sei lá.
Acho que descobrir ou inventar um sentido pra vida não é muito difícil. O problema é mantê-lo vivo na cabeça, na alma, no sangue. O sentido não é uma fórmula, uma poesia ou uma prece. Acho que é mais como um perfume indescritível que nos preenche. Ou algo assim. E, às vezes, esse perfume simplesmente devanece e nem nos damos conta. Ficamos vazios, ocos, mortos e nem nos damos conta.
Loucura.
O texto?
O texto era esse aqui:

Quando eu era jovem, eu pensava que com a arte seria possível mudar o mundo.

Eu buscava constantemente um espetáculo que pudesse despertar no coração do público uma esperança.

Eu queria mostrar uma maneira diferente de viver, com mais amizade, criatividade, sem a obrigação de perseguir o dinheiro e o poder. Ilusão fútil que eu nunca consegui alcançar. Não só a revolução não chegou, como as pessoas se tornaram cada vez mais loucas e materialistas.

Quando eu me dei conta disto eu vivi momentos difíceis pensando, pensando inclusive que minha vida era um fracasso e que todo esforço era inútil.

Mas um dia eu tive uma revelação: se não se pode mudar o mundo, pelo menos é possível mudar a si mesmo, encontrar algo em seu coração, um desejo, uma necessidade e entregar-se totalmente a ele, sem olhar para trás. Isso não é para a sociedade ou para os outros, não, é para você mesmo.

E eu fazendo esse palhaço que eu sou, eu encontrei essa coisa. Provocar, burlar e fazer o público rir. Isso era tudo o que eu buscava em minha vida. Por certo eu não mudava o mundo, mas os palhaços nunca mudaram o mundo, passam o tempo tentando sem nunca conseguir, por isso são palhaços.

Os palhaços gostam do fracasso e das ações ineficazes, são perdedores alegres e isto é a verdadeira força que têm, nunca se cansam de perder. Desfrutam de cada fracasso e voltam em seguida a fracassar de novo, diluindo assim as certezas das pessoas sérias e que nunca duvidam.

Então, esse sangue que pareço ter na minha cabeça, esse sangue que tenho sobre a minha camisa, esse sangue que tenho no meu coração, esse sangue que está todo em mim é tão patético e inútil em seu simbolismo porque é sangue de um palhaço. Um sangue que não vem de uma grande luta ou em nome de uma causa heróica. É sangue de brincadeira, ao mesmo tempo verdadeiro e pouco importante.

O Autor é desconhecido.

2 comentários:

Anônimo disse...

Olá Liber!

"As pessoas todas possuem em excesso.
Somente eu aparento estar perdendo.
Sou como um ignorante que tem o coração puro.

Os medíocres vivem lúcidos.
Somente eu aparento estar confuso.
Os medíocres vivem lúcidos.
Somente eu estou introspectivo.
Indefinido como uma infinita noite silenciosa."

Esse é um pequeno trecho do Tao Te Ching, um dos grande livros de sabedoria chineses numa tradução do Mestre Wu Cherng. Achei que tinha alguma coisa em comum com o seu texto...

Que lindo esse palhaço. Que grande sua alma! Imitando Hillman, tomara houvesse mais palhaços no mundo! Acho que ele seria mais humano.

:)

ass: Gelse

Liber disse...

Obrigado, Gelse.
;-)