sábado, agosto 15, 2009

Mais arqueologia dos sonhos



Qual é a sua lembrança mais antiga?

A minha é de uma casa que foi demolida há quase trinta anos. Lembro de uma janela e de uma mesa e tudo parecia tão grande. A perspectiva que se tem ao enxergar o mundo a 50 centímetros do chão.

A casa não tinha um jardim ou quintal, mas uma área cimentada nos fundos. O único verde era do musgo e mato que cresciam pelas rachaduras do chão. Lembro disso e da tevê. A boa e velha amiga tevê.

Era tudo preto e branco. Ou melhor, tudo cinza. E tinha o Globinho.

O formato do programa era bem diferente do atual. A apresentação era da jornalista Paula Saldanha e o programa tinha uma pegada bem cultural, com matérias jornalísticas e comentários sobre literatura infantil, cinema e tals. Disso aí, eu não me lembro nada. Lembro da Paula Saldanha e dos desenhos animados.

E um dos desenhos era A Linha.

Criada pelo cartunista italiano Osvaldo Cavandoli, La Linea mostrava esse fantástico personagem unidimensional. Na época, pra mim, era tudo extraordinário. As formas eram definidas com o mínimo de traços. Num universo completamente plano, definido por uma longa e versátil linha, esse narigudo passava por inúmeras situações. Tudo girava em torno do que ele ia encontrando em seu caminho. Ou às vezes não encontrava. Porque o mundo desse personagem era todo definido por uma linha e às vezes ela simplesmente acabava e ele quase despencava no... no... no vazio? No esquecimento? Pra mim aquilo era mágico, misterioso, fabuloso.

Você sabe as suas lembranças mais antigas? Quando você ainda estava aprendendo como funcionava o mundo? O fascínio e o mistério? Eu via esses desenhos, essas brincadeiras e me assombrava. Uma linha que cria mil coisas, mil histórias, mil ideias. E quando ela acaba, o que sobra? Pra onde vão as coisas? De onde elas vinham?

Assim eu via a Linha quando tinha uns três, quatro anos. Daí aconteceu de, numa conversa de bar com o Alquimista Digital, a gente relembrar da Linha. E hoje, meus jovens, nós temos internet. O santo Google e o maravilhoso YouTube. Hoje é tudo fácil.

E revendo a tal Linha achei sensacional. Relembrei daquele fascínio todo infantil, mas não teve aquele desencanto que muitas vezes acompanha a revisita dos velhos programas. A Linha é bacana e diz muito sobre esse lance do desenho e da grande brincadeira que é imaginar. O que faz toda a mágica não é só o ato de desenhar, mas também enxergar em uma linha pessoas, escadas, animais ou qualquer coisa. É fascinante.




Ah, ainda tem o inintelígivel sotaque italiano da Linha e sua voz grasnada, que, curiosidade nerd, é a mesma voz do nosso amigo Pingu, feita pelo Carlo Bonomi.

Pra encerrar, Mio e Mao. Animação stopmotion bem bacaninha que também aparecia no Globinho. Infantil, bem infantil, mas muito singela. Coloco aqui porque, confesso, em mais de trinta anos a musiquinha de Mio e Mao nunca saiu da minha cabeça... Adoro esses gatos.


2 comentários:

Rodrigo disse...

Eu também lembro da Linha e dos bonecos de stop-motion. Muito bom!!

Abraços!
Rodrigo Stulzer
transpirando.com

Unknown disse...

Eu lembro do Globinho, mas só lembro do stop motion de massinha. Era o que mais gostava. Não tem jeito de lembrar desse da linha.