domingo, agosto 30, 2009

Um relato longo e tedioso sobre uma experiência mística e emancipadora em minha cozinha

Uma vez me disseram que a verdadeira independência é a independência financeira. Concordo. Mas não é a única. Quando vi aquelas panelas chiando em cima do meu fogão é que me dei conta de que era livre.

Livre mesmo.

E essa é a jornada do herói:

Eu era um analfabeto culinário. Sabia fazer o miojo e olha lá. Já tinha tentado seguir receita de livro e internet mas o resultado nunca ficava bom... Daí me deu na telha de fazer um curso de culinária. Curso com chef de cozinha e tudo. O curso chamava-se de culinária trivial, que implicava em fazer feijão, arroz, bife e outras coisinhas mais. Dessas "coisinhas mais", fiquei vidrado no tal Escondidinho.

Você precisa de meio quilo de charque, um quilo e meio de batata salsa, uma cebola grande picadinha, dois ou três dentes de alho picadinhos, um pouco de manteiga, um pouco de leite, queijo parmesão. Usei um tomate também. Daí você faz um purê usando a batata salsa, o leite e manteiga. Salga a gosto. Depois você prepara o charque com a cebola, o alho e o tomate picadinho. Reserve. Unte uma forma com manteiga e distribua metade do purê em uma camada que cobre o fundo. Depois coloque uma camada com todo o charque. Pulverize o queijo parmesão em cima e cubra tudo com outra camada de purê. Mais um parmesão por cima, leve pro forno a 180 graus por meia hora.

Falando assim parece bem simples.

Mas depois do curso, no primeiro dia que fui fazer o tal Escondidinho, entrei na cozinha às onze da manhã e fui almoçar às três da tarde.

O problema é ser solteiro, esse bicho livre, leve e solto. Chegar na cozinha não significa começar a cozinhar. Significa começar a limpar a bagunça de uma refeição anterior (ou de várias, no meu caso). Uma montanha de louça pra lavar, o cestinho de lixo transbordando, o caos, mas, milagrosamente, nenhuma barata. Ainda.

Quarenta minutos foi o tempo que levei pra deixar a cozinha em condições de ser pilotada. Depois disso, a primeira surpresa do dia foi o charque. O charque, ou carne seca, eu comprei no mercado em pacotinho fechado, do tipo industrializado. No curso aprendi que era necessário escaldar o charque pra tirar o excesso de sal. Mas quando abri o pacote, as instruções ali diziam pra deixar de molho em água por doze horas antes de preparar qualquer prato. Que fazer? Escaldei duas vezes, com medo de que no fim a carne ficasse salgada demais.

Descascar um quilo e meio de batata salsa teria sido um saco, se eu não tivesse comprado um prodígio do design moderno: o descascador! Uma peça de plástico com uma pequena lâmina que revolucionou a vida na cozinha. Pelo menos pra mim. Com esse fantástico trubisquinho, descasquei as batatas em dois palito.

O charque, depois de dessalgado, foi pra panela de pressão por uma hora, seguindo a receita. As batatas salsa ficaram cozinhando uns quarenta minutos. No meio tempo, preparei as cebolas, alho e tomate. Esse tipo de coisa devia se mais rápido, mas picar direitinho a cebola com a faca de chef, apesar de ser muito legal toma bem mais tempo do que se imagina.

Pronto o charque, espera a panela perder a pressão pra começar a desfiar a carne com as próprias mãos. Processo gostoso de fazer. Óleo numa panela, começamos a refogar o alho e a cebola (atenção, cuidado. Na bagunça da cozinha, procure deixar o frasco do óleo longe do frasco do detergente. No calor dos acontecimentos, trocas inesperadas e indesejáveis podem acontecer).

Então, óleo numa frigideira ou panela grande. Mais ou menos uma colher de óleo. Daí coloca o alho. Deixa refogar (fritar) um pouquinho. Não deixa o alho começar a torrar, tem que prestar atenção, porque isso acontece muito rápido. Antes do alho começar a torrar, joga a cebola picadinha. A umidade da cebola vai impedir que o alho torre. Refogue tudo isso uns minutinhos. Alho e cebola são a base da culinária brasileira. Alho, cebola, sal e cerveja, não deixe isso faltar em casa. Nunca.

Alho e cebola refogando, joga o charque, dá uma mexidinha e deixa refogar. Joga o tomate picadinho e sem a semente e casca ali no meio. Quando vc achar que já refogou o bastante (não precisa deixar a carne torrar, é só um tempinho), coloca ali um pouquinho de manteiga e deixa dissolver. Mais ou menos meia colher de manteiga ou uma colher inteira, você que sabe. A manteiga dá um gostinho a mais. Refogou o que chega, desliga a parada e reserva. Agora você já tem o que esconder no Escondidinho.

O purê de batata salsa se mostrou um pouco mais complicado do que eu esperava. Depois de cozinhar uma eternidade, cutuquei com um garfo e achei que já estava no ponto. Tipo, o garfo entrou com facilidade na batata, saca? Mas na hora de fazer o tal purê, foi que percebi um erro: tinha batatas de tamanhos diferentes. Logicamente, as batatas menores cozinharam mais rápido e as maiores ainda estavam meio duras na hora de começar a fazer o purê. Pessoas chiques tem um processador pra ajudar a esmagar as batatas e fazer o purê. Eu tenho um garfo.

Fui amassando tudo com meu garfo, vendo batatas mais duras que as outras e imaginando no que tudo isso ia dar. Pra fazer purê, à medida que você amassa, acrescente um pouco de leite e continue amassando. O ideal é atingir um tipo de pasta viscosa, coesa, que mantenha uma consistência mais espessa sem ser muito líquida.

Depois de tudo isso, você tem o purê e o charque. Agora vamos esconder o charque no purê.

A essa altura, eram mais ou menos 2 da tarde. Eu fiz uma lista de músicas no meu Windows Media Player (Bem, se eu não tenho processador de alimentos, era de se esperar que eu não tivesse um Mac não é?). As músicas tocavam e tocavam. Faziam parte da lista a trilha sonora de Cidade de Deus, um disco do Cartola, o álbum Raro do Cuarteto de Nos, a trilha sonora de Little Miss Sunshine e um punhado de músicas do Queen. Dia lindo de sol, a música tocava e eu camelava na cozinha pra fazer um único prato.

Você cansou de ler tudo isso aqui? Sentiu-se entediado? Então o texto passa mais ou menos o que foi essa experiência pra mim. O sol lá fora e a comida passando pelas minhas mãos, sendo cortada, temperada, cozida, trabalhada. Eu já estava de saco cheio, jurando pra mim mesmo que nunca mais ia fazer isso de novo. Mas era que nem subir montanha: uma vez que comecei, tinha que ir até o fim.

Pegue uma forma ou vasilha pra levar tudo por forno. Antes unte a vasilha com manteiga. Pra isso, derreta uma colher cheia de manteiga numa panelinha. Daí espalhe a manteiga por toda a forma. Coloque uma camada de purê de batatas (cerca de metade de todo purê que você fez) cobrindo todo o fundo da vasinha. Coloque o charque como camada intermediária, acrescente queijo parmesão. Cubra tudo com uma camada final de purê. No meu caso, sobrou purê. Sugiro que se for fazer, use um quilo e 250 gramas, ao invés de um quilo e meio de batata salsa.

Pois é, coloquei a camada final de purê e daí pulverizei um queijo por cima. Levei pro forno a 180 graus por meia hora, quarenta minutos ou até ficar douradinho ao gosto do freguês.

Enquanto a obra-prima estava no forno, comecei a limpar a praça de guerra dos restos do combate. Lava louça, cata sujeira do fogão. Cansado, cansado, mas ao mesmo tempo pensando em todos esses detalhes que falei aqui: o modo de empunhar a faca pra picar a cebola e o alho, a textura das sementes do tomate em minhas mãos, a sensação do charque em meus dedos enquanto desfiava a carne.

E ficou pronto. Depois de uma eternidade, ficou pronto. Morrendo de fome, coloquei num prato e provei. Definitivamente, aquela não era a última vez que fazia escondidinho. Podia levar uma eternidade, podia dar um trabalho do cão, mas valia a pena. Jesus, não pensei que eu pudesse fazer algo tão bom.

Bem verdade que a fome é um ótimo tempero, mas aquilo realmente ficou bom.

Desliguei a música e fiquei ali, comendo com calma, numa tarde ensolarada de sábado.

Esses dias, descobri o trabalho do Paulo de Oliveira e companhia na produção do programa Larica Total que passa no Canal Brasil. O camarada ensina "culinária de guerra", culinária para solteiros, solteiras, bêbados e vagabundos. Logo no primeiro episódio, ele leva quase um dia inteiro pra fazer o almoço. Quando termina, ele come tranquilo. Fica quieto, saboreia a comida. Quase um ritual. O sol se põe.

Cozinhar pra mim é isso. Ritual. É ser livre, é ter tempo. Transcender o tempo. Fazer alquimia. Viajar.

O máximo.





O Paulo é meu herói. Acho que todos os programas do Larica Total estão disponíveis no YouTube.

Divirta-se.

13 comentários:

Gabriel disse...

em algum momento do seu dia você já imaginou que pessoas que acham o seu por acaso passam minutos e mais minutos matando o trabalho e lendo um post inteiro enquanto se divertem com os detalhes ?

Anônimo disse...

Olá Liber!

Hummm! Olha que deu água na boca!

Estou descobrindo um blog de receitas bem legal. Tem muita coisa lá. Além das inúmeras receitas, das mais básicas até as sofisticadas, tem algumas dicas de bons produtos no mercado, quinquilharias, bons restaurantes (em S. Paulo, mas isso não é problema, não é? rsrs). Só não encontrei escondidinho...
:-(

Eu experimentei algumas e fizeram sucesso. Se tiver curiosidade, dê um pulo lá:
www.lacucinetta.com.br

Até!
ass.: Gelse

PS: antes tarde...: parabéns pelo seu HQ mix!
:-)

Liber disse...

Alou, Gabriel!

Obrigado pela visita e pelo comentário. Pois é, nunca parei pra pensar nisso que você falou. Mas dá uma ideia legal pra um post... heheh.

Grande abraço e volte sempre.

Liber disse...

Alou, Gelse!

Vai com fé e faz o Escondidinho que fica muito bom! Vou conferir a sua dica. Cozinha está virando um hobbie muito interessante. :-)

Obrigado pela visita e comentário!
Até a próxima!

Buhler disse...

Serio liber XDD de cada 30 postas em blogs, eu leio no maximo 1 XD e li o seu xDD

sua aventura culinaria me lembrou desse site q vc vai gosta

http://www.cookingbynumbers.com/

vc coloca oq tem em sau geladeira, e o site te fala oque vc pode cozinhar :D:D

Liber disse...

Valeu, Buhler!

Muito obrigado pela dica e comentário!

Grande abraço

Anônimo disse...

Apenas 1 reação, hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaah.
Estou te devendo algumas receitas, alguns dias de cozinha ai.
Talvez um macarrão (como aquele com brocolis, um de beringela desta vez) quando eu voltar, mas se quizer sofrer podemos tentar um bobó de camarão... ai sim vc escreverá um post inteiro de reclamação hohohohohohohoho (risadas realmente malignas).
Bem, lembrei dos post do layout, esqueça, jamais comentaria o que estaria acontecendo no episodio de house (nao era pra min né?), por pura maldade (pra roer as unhas de tanta curiosidade). E você só ganharia a discução se fize-se a sopa mesmo (pq ate os escondidinho ficar pronto, morreriamos de fome, eu ja teria pedido algo pelo delivery), e como eu sou uma visita, possivelmente a louça ficaria (como sempre) para você(fala sério... não deve existir alguem nesse mundo que goste de lavar a louça). Hahahahahaha, de qualquer modo, foi divertido.
bjs
S.

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Liber disse...

Oi, S!

S?

S?

Ah, o mistério dos comentários anônimos. Quem será vc?

De qualquer forma, obrigado pela visita e comentário! Fico no aguardo das receitas e de uma visita no mundo real.

Sim, eu cuido da louça.

bjs!

;-)

Liber disse...

Pensei um pouco...

"S" é de Sakura, né?

Sou lento, mas chego lá.

bjs!

;-)

AFAnonimos disse...

Ei Liber!! Tão logo do que imaginado, amanhã é o costelão!
Confere lá:
http://costelaoilustrado.blogspot.com/

garlig disse...

e ai Liber!
então quer dizer que se aventurou pela cozinha?!
anotei a receita e com certeza vou refaze-la!
alias, a prócima vez que o pessoal da minha turma for se reunir, e eu cozinhar pra cambada de folgado, você será diretamente convidado =D!
e se quizer ajuda na cozinha pra aprimorar as técnicas=D!

além disso aonde você fez o curso de cozinha trivial?! um lugar bom pra cursos rápidos e praticos era o gourmet e cia, não sei como é ainda.

Abraços
Thiago (aluno)

Liber disse...

Opa.

Fico esperando, Thiago!
Abraço!