domingo, outubro 04, 2009

Espaços não preenchidos

Me ligaram dizendo que o Capitão tinha morrido.

Capitão era mestre. Meu mestre e de qualquer um ou uma que tivesse tido aula com ele.

O Capitão.

Eu estava a trabalho, lá no norte, fazendo foto e montando o livro. Naqueles dias chovia, eu não estava saindo pra fotografar. Ao invés ficava no quarto do hotel, brincando com notebook novo e tentando organizar o layout das páginas e fazer o livro funcionar. E aconteceu que Capitão ia ser enterrado em sua cidade natal, ali pertinho, cem quilometros de estrada da onde eu estava.

Arrumei uma moto e fui.

Dá-lhe chuva, águas de março e melancolia.

Junto com o asfalto e a chuva rolava lembrança de época de universidade, amigos que nunca mais vi, namoradinhas e, é lógico, a Dona Moça. Aquela malvada. De repente fiquei com medo de encontrá-la lá no funeral. Pior ainda. De repente eu tive certeza que, de todas as pessoas, se alguém poderia estar naquela cidadezinha do cu do mundo pra se despedir do homem, essa pessoa era a Dona Moça.

Verdade era que Capitão tinha viajado muito, muito mesmo, e amigo ele tinha em tudo que era lugar, mas minha terra é lá no sul e foi lá que o Capitão virou professor. Das gentes que tiveram aula com ele, das gentes que eu conhecia, eu achava difícil que alguém viesse. Porque entre o sul e o norte tem estrada demais nesse país.

Mas a Dona Moça... essa era capaz de vir. Ou nem vir. Simplesmente estar ali. A Dona Moça era assim.

Uma estrada interminável, chuva e frio.

A cidadezinha do Capitão era dessas com cadeia, igreja, puteiro, vendinha, punhado de casas e acabou. Montaram do lado da igrejinha uma tenda e o lugar estava cheio de gente. Muito mais gente do que poderia caber nas casas em torno. Parecia festa de Santo, o pessoal se empurrava pra caber na tenda, chegar perto do defunto, fugir da chuva. Pessoal velho, de marcas no rosto, calos nas mãos. Tudo de preto, chorando, rezando, cantando, rindo dos causos, lembrando das histórias do finado. Cheiro de vela.

Muita gente, muita gente e fui abrindo caminho até chegar no caixão. O filho da puta parecia estar sorrindo. Vai com Deus, Capitão e obrigado por tudo. Viro e vou me espremendo entre as gentes, tentando sair, olhando em volta, olhando em volta, procurando por ela.

Procurando por ela.

Eu imaginava.

Eu imaginava que a encontraria, que ela estaria lá com o namorado/noivo/amante da vez. Ela fica feliz, como sempre e puxa conversa. Como se nada tivesse acontecido. Como ela sempre faz. E ela pergunta da minha vida, das coisas que importam pra mim. E me ouve. E pergunto o que ela faz ali, como tem passado. E daí acaba a conversa, terminam os assuntos, ficamos eu e ela, espremidos entre homens e mulheres de preto, tão próximos, tão próximos e eu a beijo. Um selinho, uma bitoca, um beijinho de despedida. No tempo do estalo que durou o beijo, pensei isso é cagada, todo esse tempo e eu faço uma coisa dessas , todos esses anos e ela ainda me provoca me agita me move me consome. É loucura, ela vai ficar furiosa, constrangida, vai fugir, vai me bater. Mas ela não recua, toca minha mão, abre aquele sorriso lindo, aquele sorriso que só ela tem e

Eu imaginava.

Mas não a encontrei.

Sai da aglomeração e esperei, vaguei ao redor. A tarde foi se acabando, a chuva parou aos pouquinhos, a gentes foram caminhando para o cemitério. Ficou só o lugar, o grande pedaço de terra encharcada, nuvens se abrindo pra um por-do-sol. Um mundo de cores intensas, lama e poças d'água.

A tarde acabou, as pessoas se foram. O Capitão se foi.

E ela não estava lá. Nunca esteve, acho.

Vontade de pegar a estrada.

Dirigir de noite.

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