terça-feira, outubro 06, 2009

Esta é uma história verdadeira


Aconteceu lá pelos idos de oitenta, comecinho de noventa.

Adriane Lebowski era uma garota como qualquer outra: única, apaixonante e inexplicável. Ela buscava aproveitar ao máximo cada pequeno prazer da vida. No seu caso específico isso significava bebida, sexo, artes e música.

Especialmente música.

Já tinha ouvido de tudo, mas tinha predileção acentuada pelo rock progressivo. Naqueles dias, Yes, Gênesis, Pink Floyd e congêneres representavam para ela o supra-sumo musical do século 20.

Então, numa madrugada dessas, Adriane estava em um fim de festa. Muita fumaça, garrafas, álcool e suor. Boa parte do pessoal já tinha ido embora, e os que ficaram estavam desmaiados pelo apartamento. Ela ronronava quentinha sobre um rapaz qualquer, quando ouviu a música.

Algo estranho e indefinível, totalmente inédito. Meio progressivo. Melódico, porém simples. Aparentemente muito antigo e, paradoxalmente, contemporâneo. E, de certo modo, familiar. O vocal era etéreo e profundo, o instrumental era característico dos anos 70, mas com algo diferente.

Curiosa, ela perguntou ao amigo dono da fita qual era a banda. Ele não soube responder. A banda não tinha nome e não tinha origem. A fita, sem identificação alguma, tinha sido encontrada no bagageiro de um trem, na Patagônia, um ano atrás.

Adriane emprestou a fita de seu amigo e esqueceu de devolver. Ela ouviu a gravação durante dias, inúmeras vezes, cada vez mais fascinada. Mostrou a amigos que eram verdadeiros experts em músicas alternativas e obscuras (o tipo de gente estranha que você não acreditaria que existe). Nenhum deles jamais ouvira algo parecido e não faziam a menor idéia de quem poderia ter gravado as nove canções. Alguns afirmaram que o idioma cantado era familiar, mas não era inglês ou alemão ou qualquer outra língua que conhecessem.

Ela se tornou obcecada. Nomes, produtores, datas. Adriane precisava dessas informações e a única coisa que tinha era a fita. Foi até uma rádio especializada em rock e mostrou a gravação. Ninguém soube identificar, mas convidaram a moça para participar de um programa muito popular. Ela foi ao ar naquela noite e tocou algumas faixas da fita ao vivo. Depois perguntou se algum dos ouvintes saberia identificar a banda. Os poucos telefonemas deram respostas erradas e diversas. Tudo totalmente inútil.

Dias depois, após as aulas, ela esperava o ônibus de sempre no ponto de sempre. Em frente ao ponto, um sobrado de paredes cinzentas encobertas por hera. Vinda de uma janela, a música a surpreendeu e a fez estremecer. Uma das músicas da fita. Ela tocou a campainha uma, duas, três vezes. Ninguém atendeu. Então ela arrombou e entrou.

Ignorou a mobília, os livros, a desordem, enquanto subia os degraus ruidosos de madeira. Uma atmosfera antiga, de sonho. Logo encontrou o quarto. Posters, livros, revistas e um cadáver ainda quente sobre a cama. O corpo quase tirou a atenção de Adriane do toca-discos e a capa de papelão ao seu lado. Uma capa sem nenhuma impressão sequer, além dos desgastes de anos de manuseio.

Mas ali, girando e girando, estava o disco com as músicas da fita. No centro do disco havia um rótulo amarelado e muito puído. E no rótulo, algo escrito. Nervosa, ela ergueu a agulha e a música silenciou de repente. Um silêncio sólido que pulsava em suas têmporas. Tomou o disco, trêmula, e leu:

“Não nos procure. Quando estiver pronta, nós encontraremos você.”


(Para minha querida e inesquecível amiga Adriane. Aos bons tempos de faculdade).

2 comentários:

Anônimo disse...

Buenas Líber,

Eu já li esta história em algum lugar. Mas, então é verdadeira ou não é ?

T+
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LVR

Liber disse...

Hi, Amigo (Amiga) Secreto.

A história é verdadeira. Faz parte de um grupo de músicos secreto que perambula pela terra desde os anos 50 espalhando canções secretas pela madrugada. Eles tem um modo bem peculiar de recrutar novos membros e não deixam rastros.

Publiquei essa história pela primeira vez em forma de quadrinhos lá na antiga revista "Entropia"...

Abraços