quarta-feira, dezembro 30, 2009

A última noite

Na verdade, eu diria (isso é coisa de psicanálise): só existe o presente. Existe o passado, mas o passado só é real quando tem um lugar no presente. O futuro existe? Pode existir. Não sei como vai ser, mas pela fantasia ele se torna presente.
Rubem Alves, Fomos Maus Alunos, p. 73.

A maioria dos dias de nossas vidas são irrelevantes. Acordamos, caminhamos pelo cotidiano e voltamos a dormir. Como hoje.

Acordar na madrugada do penúltimo dia do ano com um mal-estar e restos da noite. Levantar, enxaguar a boca do gosto ruim de sal e álcool, tomar algo para o fígado, tentar voltar a dormir. Abrir a janela pra ventilar um pouco, esperar o sono sentado pra evitar o refluxo.

Acordar no meio da manhã do penúltimo dia do ano, tomar a boa e velha levotiroxina e imediatamente ligar o computador pra trabalhar no novo layout do blog. Tomar um banho, lavar a louça, preparar a agenda do dia. Pagamento de conta de telefone (atrasada), retirada do novo RG para a viagem, almoço, café no Lucca e de repente uma sessão de cinema.

e a sala de cinema é como uma igreja silenciosa, as poucas pessoas que chegam conversam em sussurros que soam como preces ininteligíveis e depois perdem-se nas sombras para contemplar o altar da projeção

Voltar à luz do dia, caminhar, comprar cabo de rede, caminhar, comprar um livro, preencher e depositar o cupom pra talvez ganhar um carro, caminhar, esconder-se sob a marquise da loja de música e olhar a chuva passar, caminhar.

Chegar em casa e escrever, registrar um dia totalmente esquecível, mas presente enquanto durar.

E deitar para amanhecer em 2009 pela última vez. Imaginar como será esse dia final e já emendar e imaginar como serão os dias de 2010. E fantasiar, desejar, temer. Planejar. Resoluções para tentar ordenar o destino. Na escuridão da noite, só, ruminar sobre qual lei prevalece: a do Destino ou do Acaso? Haverá alguma diferença? Haverá alguma lei?

Remoer velhas mágoas e decepções, reviver bons momentos que agora parecem ainda melhores do que realmente foram. Olhar para o amanhã e especular, fantasiar, temer e planejar.

Adormecer.

A maioria dos dias de nossas vidas são irrelevantes. Acordamos, caminhamos pelo cotidiano e voltamos a dormir. Não abriríamos mão de nenhum sequer desses dias vividos, mas a maioria se perde na memória. E, muitas vezes, mesmo os momentos marcantes e cheios de significado são esquecidos pra de repente reemergirem cercados de maravilha e espanto. Como pude me esquecer de tal coisa? Como fui me esquecer disso?

E dentro de nossas cabeças é sempre reveillon e layers de passado e futuro se sobrepõem, mesclam-se, desaparecem e ressurgem. Novos olhares sobre o passado, planos e grandes esperanças para os possíveis futuros.

Mas em nossas mãos apenas o presente.

2 comentários:

Anônimo disse...

Uow.
e continua fazendo diferença...

Liber disse...

Muito obrigado.

:-)