terça-feira, janeiro 05, 2010

STRIGOI!

Um homem ama uma única mulher em toda sua vida. Só que ela tem muitas encarnações.

Em 1990 Francis Ford Coppola estava passando por uma crise financeira foda. Pra sair dela, ele fez dois filmes. Um foi o Poderoso Chefão − parte 3. O outro foi uma nova versão de Drácula. Bram Stoker’s Dracula.


Com um visual impressionante, o filme foi produzido utilizando técnicas de ilusão e efeitos especiais dos primórdios do cinema. Isto quer dizer que tudo que você vê na tela foi filmado realmente, foi criado “ao vivo”. Como a cena do diário e do trenzinho. Os efeitos eram de responsabilidade do filho, Roman Coppola. O figurino, da designer japonesa Eiko Ishioka. A ideia era homenagear toda a cinematografia de Drácula, mas ao mesmo tempo criar algo novo e único.

De todos os filmes produzidos, o roteiro dirigido por Coppola era o mais fiel à obra de Stoker. Daí o título Bram Stoker’s Dracula. É o único filme que apresenta todos os personagens do livro, como o vaqueiro Quincey, um dos três pretendentes de Lucy. Mas o roteiro acrescentava algo mais à trama. A motivação de Vlad Tepes, a razão que o fez renegar a seu Deus: a perda de sua amada Elisabeta. Hohoho. Sim, o suicídio de sua amada. Oh, a traição, a perfídia... Hohoho.

Era 1992 e vi o filme três vezes no antigo cinema Plaza, que hoje é Igreja Universal. Coisa de adolescente, coisa de moleque acreditar nessa paixão, nessa loucura que deforma, corrompe, corrói a alma. Coisa de moleque.

Um homem ama uma única mulher em toda sua vida. Só que ela tem muitas encarnações.

E a vida de Vlad foi longa. Longa a espera, de 1492 até 1889, quando seu caminho cruzou o de Mina Harker. É então que o conde abandona seu castelo e parte para Londres, em busca da possível reencarnação de sua adorada.

Esse fio de paixão e exagero permeia toda o filme de Coppola e acaba dando à história de Stoker uma nova dimensão. Some a isso o talento do diretor, suas influências teatrais, a direção de arte, a trilha sonora nada convencional do polonês Wojciech Kilar.

Drácula é uma maravilha desgraçada, um milagre negro que atravessa eras e alimenta-se de sangue. Corruptor, herege, miserável e patético. Magnífico. Imagine acreditar que se pode amar alguém desse jeito. Imagine...

Um eterno delírio rubro. Bestial.

Quero acordar de meu sono e dizer que está tudo bem. Quero dizer a ela que está tudo bem, que acabou. Mas ela nem se lembra mais de mim. Nem se lembra...

Bram Stoker’s Dracula foi um filme dirigido por Francis Ford Coppola e lançado aqui no Brasil em 1992. Junto com ele, foi lançada uma magistral adaptação em quadrinhos desenhada por Michael Mignola, que muita gente acha ainda melhor que o filme. Você pode conferir os quatro capítulos dessa adaptação aqui. Ao assistir o filme, experimente a versão com comentários do diretor. É extremamente enriquecedora.

Na época adorei o filme. Curti ao lado de garotos que hoje são pais de família. Alguns anos parecem séculos, mas quando nos reencontramos é como se tivéssemos nos visto ontem.

E eu?

Ainda estou esperando.

Várias encarnações e ainda estou à espera.


2 comentários:

José Aguiar disse...

Você é atemporal, meu velho! Parabéns pela reformulada no blog!

liber disse...

Grande José, muito obrigado!

Aquele abraço!