quarta-feira, janeiro 06, 2010

You can't always get what you want...

(Para Simone, Tex e Piuí. Para nós. Cheers!)

...

Eduardo Saldanha era o Eduardão Montanha.

Gigante, o cara enchia todo o palco e todo aquele tamanho era como se fosse uma enorme caixa de ressonância e sua voz era a voz do trovão, do próprio Metatron. E ainda tinha carisma, presença, espírito. Claro que tinha o Márcio Japonês na batera e o Cláudio no baixo, mas, em essência, o Eduardão Montanha era a razão das pessoas se acotovelarem no Empório pra ouvir os Teóricos.

Os três tinham se conhecido no segundo grau técnico de eletrônica, daquela prestigiada instituição de ensino federal a quem os alunos mais íntimos chamavam de "Masmorra". Das aulas incompreensíveis e angustiantes de cálculo e circuitos foi que o nome da banda surgiu. Nenhum dos três conseguiu o diploma de técnico mas permaneceram juntos como os Teóricos por anos e anos.

As apresentações eram simplesmente espetaculares, o público era fiel. Os Teóricos tinham seu próprio repertório de música mas flertavam muito bem com os covers, especialmente com Mutantes e Rolling Stones. Você tinha que estar lá pra ver, pra ouvir! Naquelas noites o Eduardão roubava as músicas dos Stones com uma maestria tão arrebatadora que se consagrava como o crime perfeito, a heresia perfeita: muita gente achava que o Montanha era melhor que o próprio Jagger. Sério. Juro por Deus.

Um dia deu de fazerem um contato com a MTV e fizeram um clipe e fizeram um DVD e tal. Era chance de ganhar o Brasil. Mas não rolou. Não dá pra explicar por quê. Os Teóricos simplesmente não funcionavam na tv. Montanha parecia todo contido, amarrado. Era triste de ver. Constrangedor. No entanto, talvez o grande problema tenha sido a platéia. Como as músicas foram gravadas em um estúdio em São Paulo, não tinha a galerinha pra fazer coro, embalo, gritar. Talvez a platéia fosse o quarto membro da banda. Ou talvez tenham coisas que simplesmente não possam ser registradas em vídeo.

De qualquer forma, o Eduardão ficou boladão. De repente ele já tinha 30 anos e esse negócio de tocar em bar podia não ser um bom plano de carreira. Mais ou menos nessa época o Eduardão conheceu a Mônica. Foi assim de repente. A moça era jornalista fazendo uma matéria sobre bandas fora do circuito Rio-São Paulo. Numa entrevista pintou o clima e depois pintou aquela tal certeza que os dois nunca tinham tido com mais ninguém antes.

Quando leu "Eduardo & Mônica" no convite de casamento, Cláudio riu. Não dava pra deixar de rir. O melhor amigo ia se casar e tal. "Ela é minha menina..." Felicidade, felicidade, felicidade.

Felicidade o caralho.

Eduardão estava saindo da banda. Não dá mais, cara! Tocar pra receber 200 reais por noite? Carinha ganha 3 mil pra tocar uma noite em bar country lá no Rio! Eduardão tinha feito novos contatos e se mudava pro Rio de Janeiro pra morar com a Mônica. A menina tinha feito um bem danado pro Montanha. Ele tinha se livrado de velhos preconceitos e tinha descoberto novos talentos. Pra sempre ia curtir o rock'n'roll, mas Mônica tinha lhe mostrado que pagode também era legal. Eduardão, agora Grande Dudu, já tinha composto até umas musiquinhas e tocado nas rodas de fim de semana e o pessoal do Rio tinha gostado. Hora de Eduardão virar uma página.

O último show dos Teóricos não foi diferente de qualquer outro. Casa um pouco mais cheia talvez. No meio dos gritos do público, deu pra ouvir umas duas vezes cagada, Eduardo! Os camaradas chegavam junto falando que pena, não vai não, Eduardo, e agora, o que vai ser?

E agora o que vai ser?

Cláudio tocou You can't always get what you want com Eduardo pela última vez pensando nisso. O que vai ser? O Márcio Japonês ainda trabalhava com o pai na oficina. Não era muito, mas era alguma coisa. Cláudio tinha a música. E só.

Ah, Cláudio também tinha a Lúcia.

Cláudio e Lúcia moravam juntos já tinha uns natais. Ela era quem tinha o emprego "sério". Trabalhava na ótica, era gerente. Lúcia era fã número um dos Teóricos, de tiete da banda passou pra namorada do Cláudio. Cláudio e Lúcia se curtiam muito, mas naqueles dias, quando lá foi o Eduardão pro Rio, Cláudio passou por aquele período de Inverno na Alma. Lúcia viu seu homem perder o brio, a luz. Cláudio ficou cinzento. O mundo não tinha mais cor.

Eduardão começava vida nova no Rio ao lado da Mulher, deixava Curitiba pra trás, uma lembrança menor, engraçadinha e feiosa. Eduardão foi um dos maiores amigos que Cláudio já teve. E foi embora.

Inverno na alma.

Os Teóricos acabaram e Cláudio se apresentava com outras bandas. Não era a mesma coisa. A grana era minguada. Mas ele nunca tinha estado nessa por causa da grana. Nunca foi pelo dinheiro.

Um dia, sentado no meio fio, tomando uma cerva na frente do Torto, Cláudio ficou sabendo da Psychodália. Coisa insana. Um bando de gente que vinha de todos os lugares pra ouvir bandas de música, mas não era um festival ou coisa assim. Era uma nação. Uma nação imaginária construída ao redor da música, com governo, sistema de saúde, educação e moeda própria. Uma nação não registrada na internet, que existia apenas 7 dias por ano, nunca no mesmo lugar. Ainda assim, corriam histórias de gente que tinham se mudado pra lá, conseguido cidadania e nunca mais voltado. Nunca mais voltado.

A Psychodália daquele ano ia ser no interior de Santa Catarina.

Vamos Lúcia?

E ela disse sim.

...

Sinto saudades dos shows dos Teóricos.

video

And you can't always get what you want, honey,
You can't always get what you want,
You cant always get what you want,
But if you try sometimes, yeah,
You just might find you get what you need

2 comentários:

Fer disse...

ha ha ha só um conselho... NÃO vá pro psicotráopito ai. céus...

liber disse...

Ahn...

O que é um psicotráopito?