sábado, fevereiro 27, 2010

História real. Os nomes foram alterados para proteger os inocentes.

Toca o telefone.

Olho no identificador de chamadas. Não é o número da minha mãe. Fico curioso.

"Alô?"

"Bom dia. Aqui é a Melissa da Gazeta. Com quem eu falo?"

Telemarketing. Claro.

"Liber."

"Perdão?"

"Liber".

"Senhor Liberty, temos uma promoção especial para São José dos Pinhais. O senhor mora na região, não?"

"Não. Eu me mudei."

"Ah, mudou?"

"Sim. Já faz um ano. Estou morando na Visconde de Guarapuava. Na verdade, posso ver o prédio da Gazeta daqui."

"Bom, mas o senhor costuma se manter informado?"

"Sim, claro."

"E como o senhor se mantém informado?"

"Internet, né? Passo o dia inteiro fuçando páginas de notícias, blogs, tuíter, reader, essas coisas."

"Ah, o senhor é analista de sistemas?"

"Não, sou professor."

"Ah. Geralmente quem passa o dia inteiro na frente do computador é analista de sistemas."

"É que eu tenho bastante tempo livre."

"Ah. E o senhor dá aula do quê?"

Adoro essa pergunta. Elas geralmente ficam impressionadas.

"Leciono computação gráfica, edição de imagens, rendering e geometria descritiva."

Os três primeiros querem dizer que ensino photoshop e o último aconteceu só uma vez.

"Nossa, computação gráfica?"

Viu?

"Sim. Escute, você está no prédio da Gazeta?"

"Por quê?"

"De repente eu consigo te ver. Meu prédio é verde, estou numa varandinha mais ou menos no meio do prédio."

Gostei da voz da moça.

"Eu trabalho numa sala sem janelas, senhor."

"Sério? Que deprimente! Já trabalhei pra Gazeta. Eles parecem que mantém os funcionários em cativeiro."

Ela ri. Ou eu acho que ela ri. Vai ver ela segurou o riso. Talvez a conversa esteja sendo gravada e ela filmada e ela esteja segurando o riso. Ou talvez ela não tenha achado engraçado.

"Bem, temos umas promoções de assinatura senhor."

Ah, é.

"Fale mais".

Ela fala das promoções, que eu não vou repetir aqui porque não vou trabalhar de graça pra Gazeta. Basicamente, pagar pra derrubar árvores e recebê-las retalhadas e cobertas de tinta na porta da minha casa. Aos sábados e domingos.

"E tem os descontos em eventos culturais, senhor Liberty. O senhor costuma ir ao teatro?"

"Já fui esse ano. E eu já tenho desconto. Sou professor, lembra?"

"Ah, é."

Adoro minha profissão.

"Bem, com o Clube do Assinante o senhor pode conseguir descontos pra mais um acompanhante. E descontos especiais. O senhor assistiu o Circo de Soleil?"

Eu fiquei tirando sarro da Ju um mês porque ela queria assistir o Circo de Soleil.

"Não, não vi".

"O Assinante ganhou uma entrada para ver o Circo. E agora vai ter apresentação do Nelson Freitas e também daremos um convite."

"Quem?"

"Nelson Freitas. Do Zorra Total. Ele faz o Leozinho."

"Eu não assisto Zorra Total."

"Então, o Nelson Freitas vai se apresentar e como assinante você pode ganhar um convite. A entrada do show custa uns 100 reais".

"Bom, eu também posso ficar em casa e ver o cara na tv, não é?"

Não que eu vá fazer isso, peloamordedeus.

"Ah, mas ao vivo é mais legal."

"Então, você quer ir comigo?"

"Oh, bem... não posso."

"Ah, podemos ir a outro lugar... Um cinema, restaurante."

"Qual plano o senhor vai assinar?"

"Bom, eu não vou assinar."

"Não?"

"Não."

"Por quê?"

"Veja, esse começo de ano andei contraindo muitas dívidas, a grana tá curta, a coisa tá feia... essa assinatura pode pesar no meu orçamento."

"38 reais pesam no seu orçamento?"

"Sim. Realmente, são tempos difíceis."

E eu prefiro gastar esse dinheiro com cerveja.

"Mas você podia me passar seu número. Daqui a uns meses eu me reequilibro economicamente e de repente, né?"

"Ah, sim. Nosso número do atendimento é 3332-xxxx."

"Peraí, peraí. Vou anotar."

Sério. Parei pra anotar.

"Repete?"

"3332-xxxx".

"Beleza."

"Muito obrigada então, senhor Liberty. Um ótimo fim de semana pro senhor."

"Ora, pra você também. Qualquer coisa me liga pra gente bater um papinho. Você tem meu número".

Ela riu. Agora ela riu. Eu acho.

"Uma boa tarde, senhor Liberty."

Final anti-clímax. A vida tem dessas coisas.

7 comentários:

Rodrigo disse...

Seus textos estão ficando Mutarellianos :-)

Abraços!
Rodrigo Stulzer
transpirando.com

José Aguiar disse...

Genial, Mr. Liberty...

liber disse...

Obrigado, amigos.

Quanto ao Mutarelliano, sabe que eu não tinha reparado, Rodrigo? Mas vc tem razão. Parece mesmo. Vamos trabalhar nisso.

Vamos nos falando, pessoal.

Obrigado pela visita e pelos comentários.

Abraço!

Buhler disse...

as historias boas sempre terminam assim, ninguem tem um final amoroso de verdade, ao fim de um telefonema.. eu acho.

eu gostei, só queria saber, se o aviso de "Os nomes foram alterados para proteger os inocentes" é um EasterEgg de que na verdade a historia não tenha acontecido com você.

liber disse...

Buhler

Mais ou menos isso...

obrigado e grande abraço!

Adriana disse...

Adorei Líber. Pra mim, que sou muito mais pop que seus outros comentadores, tá bem Luis Fernando Veríssimo. Acho que vale a pena ligar pra ela e convidar pra uma peça (de teatro). O Festival tá aí !

liber disse...

Ih, Adriana, não vai rolar. Hoje sou um rapaz comprometido. :-)

Obrigado pelo comentário!
Bjs!