sexta-feira, março 12, 2010

E o Glauco?


Uma madrugada, era 12 de março, uns caras invadiram pra assaltar a casa do Glauco. Acabaram dando 4 tiros no velho. O filho dele também levou umas balas. Os dois morreram.

O Glauco era um de Los Tres Amigos, junto com Laerte e Angeli. Da mão do Glauco saiu o Geraldão, a Dona Marta e o Doy Jorge. Mas a essa altura do campeonato, você já sabe disso.

Vamos viajar no tempo.

Uns vinte anos atrás. Vinte cinco.

Peguei uma Chiclete com Banana, ou eu acho que era uma Chiclete com Banana, não lembro bem. Mas eu vi lá o Geraldão. Eu curtia quadrinhos e tal, mas ainda era moleque e meu repertório era Disney, Maurício e Super-Heróis. Daí vi o Geraldão, esse cara estranho, cheio de pernas e pinto de fora, que ficava espiando a mãe no banheiro pelo buraco da fechadura. Carambola. Fiquei bobo com isso. Com o desenho, o traço, com a ação do persnoagem. Não sei dizer se gostei ou não, mas mexeu com a minha cabeça de guri. Tinha o humor e tudo, mas também tinha uma jogada com o tabu do sexo, com a ordem certinha das coisas. Uma irreverência que chacoalhou minha cabeça.

Uns anos mais tarde, comecei a curtir o trabalho do Glauco. Acompanhar suas aventuras ao lado de Laerton e Angel Villa. Como te chamas? Miguelito! Bum! Chamabas. Isso era mania na turminha do 2º grau.


Pra resumir, nunca fui assim o fã número um do Glauco, mas ele tava por lá, no background da minha vida.

Então, voltando pra essa madrugada de 12 de fevereiro, mataram o Glauco.

Vinte, vinte e cinco anos atrás, você saberia da notícia pelo jornal do meio-dia. Hoje, você por pouco não acompanha o acontecimento ao vivo, via twitter ou o que seja. Alucinante.

E nessa manhã de 12 de fevereiro liguei o computador e dou de cara com a notícia. E chovem comentários e todo mundo quer falar algo.

Eu não conhecia o Glauco, nunca tinha falado nem visto o homem, acho que não vi ele nem dando entrevista, mas fiquei boladão com a violência, com o fato de que o cara das tirinhas do mural do café tinha sido assassinado. Assassinado, véio. Quatro azeitonas à queima-roupa.

E todo mundo quer falar algo.

Um fala em justiça divina, mas, na real, que justiça divina vai poder reparar uma barbaridade dessas? Mesmo que peguem os caras e façam o que quiserem, o que pode reparar um estrago desses?

Em seguida, no burburinho do twitter, aparecem aquelas discussões de sempre: a violência do país é um absurdo, brutalidade assim acontece com um monte de gente todo dia, a coisa é foda, culpa do governo que não dá segurança, muita revolta e tal. Sujeito escreve que enquanto tem gente que morre de câncer ou de aids, Glauco morreu de Brasil. (Bem, pensando assim, também tem muita gente que morreu de Chile ou de Haiti. Mas não vamos tirar o foco da indignação.)

Vem as homenagens bacanas (bem bacanas mesmo, veja no Blog do Universo HQ), as entrevistas, os documentários.

E daí, ao longo do dia, começam a aparecer detalhes.

De repente não era mais latrocínio, era um conhecido da família que participava da Igreja Céu de Maria. Igreja Céu de Maria? Sim, uma igreja que o Glauco fazia parte ou tinha fundado ou coisa assim. A igreja seguia a doutrina do Santo Daime. Santo Daime? Aparentemente sim. E o carinha que matou o Glauco teria feito por discussões relacionadas com a Igreja. Ou porque queria se matar e o Glauco não deixou. Ou porque era doido. Ou algo assim. Eu leio os sites de notícias e surge uma nova versão a cada minuto. Fique à vontade pra investigar. (Era da informação... era da informação desencontrada isso sim.)

A história se desdobra e o absurdo não parece ter limites. Acredito que jamais saberemos o que realmente aconteceu. É impossível. E também não faz diferença nenhuma.

O que realmente aconteceu? Um desenhista muito bom e seu filho morreram assassinados.

O mundo podia ter passado sem essa.

Ilustração de Ed Ferrara publicada na homenagem ao Glauco feita pelo Universo HQ

3 comentários:

Anônimo disse...

Salve,

O governo é culpado sim, desde que a Constituição do Brasil de 1988 outorgou para si o dever de alimentação, moradia, saúde, etc, etc, etc...

Em nome disso os impostos vão às nuvens. E os nossos governantes gargantas como o Lula e assemelhados têm responsabilidade, pois a lei lhes imputa isto, quer gostem, quer não.

E o brasileiro comum, normal, é culpado, pq aceita a situação como algo certo; que não é possível mudar...

Quanto à era da informação, seria melhor dizer era do grande irmão... Se lembrar de 1984, verá que a informação era (re)-produzida em nova versão diariamente...

[]´s
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LVR

liber disse...

Olá, LVR

Sabe, acho que não partilhamos das mesmas opiniões políticas.

Mas fica registrada a sua opinião.

Muito obrigado e volte sempre!

Abraço!

Anônimo disse...

Tá, tem razão.

Me excedi, em muito, no texto...

T+
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LVR