sexta-feira, abril 23, 2010

Lewis & Alice


A vida de Charles Lutwidge Dodgson não foi lá muito emocionante. Aliás, segundo Virginia Woolf, "Dodgson não teve vida".

Ele era gago, tímido, surdo de um ouvido, tinha dificuldade com as mulheres. Filho de pastor protestante, adorava as artes e o teatro. Mas ser filho de pastor protestante e adorar artes e teatro não era uma combinação saudável na Inglaterra do século XIX. Repressão de todos os lados e rígidos códigos de comportamento, morais e religiosos. Pessoas como Dodgson, e não eram poucas, foram prato cheio para Freud.

Mas Dodgson não se tratou com Freud.

Dodgson sobreviveu a uma juventude complicada e tornou-se professor de lógica e matemática na Universidade de Christ Church, em Oxford. E a semente daquela coisinha chamada arte e criação não morria. Continuava martelando dentro da cabeça do homem.

Dodgson era um cara complicado, mas tinha seus talentos. Um deles era a fotografia. O outro, o trato com as crianças. "Adoro crianças, exceto meninos" ele dizia. De fato, dava-se tão bem com as pequenas que tornou-se um dos maiores fotógrafos infantis da Inglaterra no século XIX. Entenda que bater fotografias naquela época era algo bem complicado. Era preciso ficar imóvel longos minutos na frente da câmera para sensibilizar uma emulsão sobre uma placa de vidro. Para as crianças era uma grande tortura. Mas Dodgson transformava todo o processo em diversão. As crianças adoravam ser fotografadas por ele. Quando estava com elas ele não gaguejava.






A maior parte das fotografias de nu infantil que Dodgson fez foram destruídas pelo próprio. Oficialmente, ele jamais foi acusado de pedofilia.

Alice Liddell tinha cerca de quatro anos quando o pai assumiu a reitoria de Christ Church e se mudou para lá com toda a família. Ela era a filha do reitor. Era filha do chefe.



Foi a fotografia que acabou aproximando Dodgson dos Liddell. Logo, conseguiu permissão para fotografar as filhas do reitor e inevitavelmente acabou conquistando a amizade delas. Com o passar dos meses, essa amizade foi se estreitando, especialmente com Alice. De fato, a partir do diário pessoal de Dodgson, podemos ver que meninas enchiam sua vida de alegria. Ele adorava estar com elas.

Foi num passeio de barco que o livro nasceu. Dodgson sempre fazia brincadeiras e contava histórias para entreter as meninas. Eram histórias inventadas na hora, um monte de improvisos na maioria sem sentido, uma sequencia de piadas que fazia sentido só dentro da rodinha de amigos. Mas, nesse dia, ele contou a história da menina que seguia o coelho branco para os mundo subterrâneos. Alice tinha dez anos e fez Dodgson (que tinha trinta) prometer que ia escrever um livro com essa história para ela.

Dodgson era apaixonado por Alice. Coisa bizarra, você vai dizer, mas a Inglaterra do século XIX era um amontoado de bizarrices. A idade de casar das moças era em torno de 12 anos. Pense nisso.

Dodgson era apaixonado por Alice e deduzimos isso pelas passagens de seu diário. Ele nunca fez nenhuma anotação comprometedora, mas podemos perceber que os trechos narrados na companhia das meninas tinham uma animação sem par. Ele realmente estava feliz. Acontece que, de repente, no diário, topamos com três folhas que foram cuidadosamente removidas. E depois disso, Alice nunca mais é mencionada. Os dias tornam-se um relato insípido de rotinas.

Mistério.

Não se sabe o que aconteceu. Mas Dodgson cumpriu sua palavra e transformou a história em um livro. Um livrinho que ele escreveu e ilustrou de próprio punho e deu de presente à menina Alice. (Não diretamente, mas o mordomo veio receber na porta). Esse livro original está disponível online e você pode conferir em Alice's Adventures Under Ground.



E o livro fez sucesso. A menina Alice adorou e emprestou pras amiguinhas e todo mundo adorou e falavam "por que você não publica? por que você não publica?" e no fim Dodgson decidiu publicar.

Ele mesmo queria fazer os desenhos mas o editor o convenceu a contratar um profissional, o ilustrador John Tenniel, famoso na época. O livro foi feito e o próprio Dodgson custeou tudo, mas aconteceu que John Tenniel não ficou satisfeito com a impressão e mandou recolher e destruir toda a tiragem. Daí Dodgson teve que bancar outra impressão. Entenda, o cara era professor. Professores sempre ganharam mal e imprimir livros sempre foi caro. No diário, Dodgson escreveu:

"Reimprimir o livro custou-me 6 xelins para cada exemplar dos dois mil. Se eu arrecadar 500 libras com as vendas, terei um prejuízo de 100 libras; contando com o prejuízo dos primeiros dois mil, que provavelmente será de 100 libras, terei perdido no total 200 libras. Se conseguíssemos vender uma segunda tiragem de dois mil, ela me custaria 300 libras e renderia 500, saldando assim minhas contas: qualquer venda posterior representaria lucro. Mas isso seria querer demais".

E, SURPRESA!

O livro foi um sucesso. Com a história original expandida e agora chamada As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, publicado e distribuído em novembro de 1865, o livro vendeu que nem água. Virou mania. Dodgson ficou rico! Com o dinheiro, Dodgson comprou uma casa para suas irmãs. Foi o máximo de extravagância que se permitiu. Continuou como professor em Christ Church até o fim da vida.

Alice não voltou a falar com ele. Casou-se com outro homem, filho de um rico magnata.

Em 1871, Dodgson publicou uma continuação: Através do Espelho e o que Alice Encontrou por Lá. Também foi um sucesso de vendas e não fica nada a dever para o primeiro livro. Na verdade, há muita gente que considera esse segundo volume mais sombrio e melancólico.

Na capa dos dois livros, o pseudônimo com o qual ficaria conhecido pelo mundo: Lewis Carroll.

Charles Lutwidge Dodgson faleceu aos 65 anos, no dia 14 de janeiro de 1898. Jamais se casou. Até o ano de sua morte, o livro Alice no País das Maravilhas já tinha vendido mais de 180.000 exemplares só na Inglaterra.




Alice Liddel, agora Alice Heargreaves, teve três filhos ao lado de seu marido. Sua vida foi confortável e estável, até que perdeu dois filhos na Primeira Guerra Mundial. Seu marido faleceu em 1926. A herança deixada não durou muito tempo. Alice se viu obrigada a vender as relíquias que Charles havia lhe dado de presente, entre elas o famoso manuscrito de Alice no Subterrâneo. Em 1932 houve a comemoração do centenário de Charles Dodgson, celebrada no mundo todo e Alice, sendo a musa inspiradora do livro-sonho, foi convidada para uma série de eventos. Participou de todos a princípio e talvez tenha até se divertido, mas depois...

Certa vez, confessou a seu filho: “Estou cansada de ser Alice no País das Maravilhas. Isso soa ingrato? Que seja – pois o fato é que estou cansada!”

Morreu em 16 de novembro de 1934, aos 84 anos.

2 comentários:

PENA PRIDE-DF ZULU/SPRAY ATÔMICO disse...

gostaria de repostar seu texto sobre alice???parabens pelos posts!!!

liber disse...

Olá!
Pode repostar sim. Só peço que deixe meus créditos e o link pra acesso ao meu blog.

Obrigado pela visita e comentário!

abraço!