sexta-feira, abril 23, 2010

Livro de cabeceira


As Aventuras de Alice no País das Maravilhas foi publicada pela primeira vez em 1865 e tinha ilustrações de John Tenniel. Quando os direitos da obra se tornaram públicos, em 1901, surgiram diversas novas versões com ilustradores como Arthur Rackham (1907), Mabel Lucie Atwell (1910) e Gwynedd M. Hudson (1922).





Ao longo do século XX, muita gente passeou pelo País das Maravilhas. Salvador Dalí produziu uma série de imagens sobre Alice. No cinema, além da famosa adaptação da Disney, vários filmes homenageiam ou se referenciam à obra de Lewis Carroll: Matrix e Quero Ser John Malcovich só pra citar dois filmes.



Lá pelo começo da década de 90 eu fazia o curso técnico de eletrônica. Uma das coisas que me fez pular pro mundo do desenho foi o trabalho do fodástico Dave McKean e na época, ao lado do Grant Morrison, ele fez a graphic novel Asilo Arkham, uma história do Batman claramente calcada no livro da Alice.




Alice virou filme, jogo de computador, desenho animado, música, gibi. Tem até uma estátua de Alice no meio do Central Park, em Nova York.

E por que tudo isso?

Bem, Alice, antes de mais nada, é literatura. Ainda por cima é literatura revolucionária. Até o lançamento do livro, todo livro infantil tinha que trazer uma moral. Eram histórias educativas. E só. Alice instituiu o nonsense na literatura infantil, a despretensão, a liberdade de obrigações para com moral ou sentido.

Alice era loucura pura. Não tinha uma história, não tinha um roteiro. Era uma menina passeando sem rumo, encontrando-se com toda a sorte de criaturas.

As histórias e situações vinham de piadas e joguinhos que faziam sentido entre o pessoal de Christ Church. Um exemplo é o Gato de Cheshire, aquele gato que some no ar. Ele começava a desaparecer pela cauda até que só sobrava o sorriso. Acontece que na época, tinha um biscoito feito em Cheshire que era em formato de gato risonho. As crianças começavam comendo pela cauda e faziam o gato "desaparecer". Sacou? Se quiser saber mais dessas, leia o livro Alice: Edição Comentada, que traz uma análise bem bacana feita por Martin Gardener.

Lewis Carroll, ou melhor, Charles Dodgson, era matemático e escritor. Gostava de jogos de linguagem, paradoxos, quebra-cabeças. Satirizava poemas moralizantes e os costumes da época. Tudo isso espalhado e distorcido pelo sonho de uma menininha. Por causa dos jogos de linguagem e trocadilhos, traduzir Alice é uma tarefa muito complicada. Na minha opinião, a melhor tradução é a de Sebastião Uchoa Leite. Se você achar por aí, compre.



Alice era literatura porque não tinha intenção de passar nenhuma moral. Alice era literatura porque tinha um sentido que era construído por cada leitor a cada leitura. Alice era literatura porque não era óbvia e não tratava as crianças, seus leitores, como se fossem idiotas.

Eram dois livros. Um falava sobre um sonho numa tarde de verão, campos abertos, sol radiante, jogos de cartas. O outro era um sonho de inverno, numa sala fechada diante de um espelho, um tabuleiro de xadrez, vida e morte. Principalmente morte.

Os livros sonho.

E pense nisso: quando você sonha e alguém fala com você, se você está sonhando, quem está falando com você no sonho? É você mesmo?

Tem certeza?


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