sexta-feira, maio 21, 2010

O Bem e o Mal


Eu assisti um desenho animado chamado Liga da Justiça: Crise em Duas Terras.

Você conhece a Liga da Justiça? Bom, tinha os Superamigos na tv. É praticamente a mesma coisa. Você lembra dos super-amigos? Eram o Aquaman (um bucha, só funcionava se tivesse água por perto), o Super-Homem, a Mulher-Maravilha, o Lanterna Verde, Batman, Robin, etc. Então, nessa seleção não entram o Homem-Aranha, nem o Hulk ou o Capitão América porque eles pertencem à outra editora, a Marvel. A galerinha citada dos Superamigos era da editora DC. Porque antes de ir pro desenho animado, essas figuras eram personagens de gibi, entende?

A primeira vez que uma super-equipe apareceu nos quadrinhos foi lá pelos anos 40. A ideia era enlouquecer a molecada colocando os personagens favoritos contracenando na mesma história. Algo como colocar o House, a Amélie Poulin, o Dexter e o Monk juntos no mesmo episódio. Mas nós estamos falando de histórias em quadrinhos e eu estou divagando demais.

O que interessa saber: grupos de super-herois coloridos existem desde os anos 40 e o público-alvo é a molecada (pelo menos de acordo com o senso comum). E daí a Liga da Justiça passou por uma série de modificações ao longo desses 70 anos. Modificações que iam dos temas (comédia, ficção científica, mistério) até os integrantes (nem sempre o Super-Homem, a Mulher-Maravilha e o Batman fizeram parte da equipe).

Lá pelo final da década de 1990, o maluco do Grant Morrison começou a escrever uma série de histórias com o grupo. Numa dessas histórias, chamada Justice League Earth 2, nossos herois descobriam que existia um mundo paralelo, um universo similar ao nosso, porém invertido. Lá existiam contra-partes dos nossos herois. Só que do mal. O desenho animado de que falei no começo do post é uma adaptação livre dessa história.



A ideia do universo paralelo e invertido não é original. Com a própria Liga da Justiça houve variações dessa história lá pelos anos 1960. Na série clássica de Star Trek, em De Volta para o futuro e em diversos outros filmes e seriados também encontramos essa coisa do tal universo paralelo.

E essa ideia do universo paralelo me fascina. Pense comigo. Se a vida é feita de escolhas, cada vez que dizemos um sim, num universo paralelo dissemos um não. Cada vez que ouvimos um não, num universo paralelo nos disseram um sim. Existe portanto, não só um lugar, mas infinitos lugares originados das escolhas não feitas. A terra do "mas e se...". Ou melhor, as infinitas terras.

(Adoro pirar em cima dessa ideia. Aliás, todo mundo adora. Quem nunca se pegou pensando no que aconteceria se... ?)

Enfim, nesse gibi, descobrimos que existe um mundo paralelo, invertido, onde o que é bom é mal e vice-versa. Dessa terra, o Lex Luthor, um heroi, cara do bem, foge pro nosso mundo e pede ajuda pros nossos herois. E lá vai a galerinha do bem combater seus reflexos do mal.

A grande sacada de Grant Morrison é brincar com o estereótipo do conflito do bem e do mal. No nosso mundo, a ficção dos herois, o "bem sempre vence no final". Mas no universo paralelo, não. Então, a galerinha do bem descobre atônita que não tem como vencer. Eles tentam e tentam mas não conseguem. Porque no mundo invertido, "o mal sempre vence no final". De uma forma ou outra, as coisas revertiam e o status quo permanecia o mesmo. A terra paralela não pode ser "salva".

Um gibi. Coisa de criança. Agora, pare pra pensar. Não é questão se existe um "bem" ou um "mal" ou se existem universos paralelos, mas, afinal, temos tantas escolhas quanto achamos que temos? E por escolha, entenda a possibilidade de realizar grandes e reais mudanças e não só "qual profissão devo seguir".

Já o tal desenho animado não segue bem essa linha. No fim, o pessoal do bem vence e a terra paralela segue pelo "caminho da justiça". Mas o que eu fiquei de cara mesmo são as ideias dessa animação. Tipo, os herois bonzinhos decidem invadir um universo paralelo para consertá-lo, deixá-lo do "jeito certo". E "o jeito certo" é o "jeito deles".

Mais coisas interessantes: na terra paralela, os super-herois do mal só não dominam o governo legítimo porque este tem a posse de "armas nucleares". Sim, isso é citado no desenho animado como a única coisa que impede os malvados de dominarem o mundo. Armas. Aliás, o que move toda a trama é a disputa pelo "gatilho detonador", necessário para os vilões montarem sua própria bomba nuclear. Isso está claro e evidenciado em um desenho cujo público-alvo primário (segundo o bom senso) são as crianças. Armas nos protegem dos caras maus.

Daí...

Daí que não é sobre o que as crianças vão aprender desses desenhos, mas sobre o que os caras que produzem essas coisas realmente tem na cabeça. No que esses caras acreditam?

Não pude deixar de pensar naquela história com o Irã. O Irã não pode ter armas nucleares. Por isso, os protetores do mundo vão mover sanções contra o país. Mas Israel pode ter armas nucleares. Porque Israel é do bem e o Irã é do mal. E as tentativas do Brasil e da Turquia de negociarem uma alternativa ficaram nisso: tentativas. É isso. Deu na Globo.

Nosso mundo não é um gibi. Supostamente não existem soluções simples para nossos problemas. Não há "bem" ou "mal", mas uma vasta gama de opiniões, posicionamentos políticos, ideológicos e culturais. Em nossa democracia, muitos alguéns terão de engolir uma Dilma ou um Serra depois das eleições (alguém conhece bem os outros candidatos? Vai votar neles?). Mais de um terço da população vai ficar insatisfeita, qualquer que seja o resultado.

O que me fascina nessa bobagenzinha toda da Liga da Justiça e suas terras paralelas não é a questão do "bem" e do "mal" ou as elocubrações sobre "o que aconteceria se..."

O que realmente me fascina é aquela sutil ideia lançada pelo Grant Morrison. Sobre se nossas escolhas realmente fazem diferença. Além da nossa satisfação pessoal, além do nosso conforto, além do nosso umbigo, nossas escolhas realmente fazem alguma diferença? Uma coisa que você poderia me responder é: "Além da nossa satisfação pessoal, além do nosso conforto, além do nosso umbigo, o que mais importa?" Um ponto de vista válido. Você vai dormir tranquila à noite. Mas não deveria.

E o mundo? Estamos satisfeitos com ele? Mesmo?

E se não estivéssemos, poderíamos mudá-lo?

Será?




4 comentários:

Silvestre disse...

Essa história me lembra a mini-série "elseword", em 3 edições, do Superman, que se chama "Entre a Foice e o Martelo". Nela, a nave que carrega o Superman quando criança não cai nos Estados Unidos, mas sim na União Soviética.
Bem a coisa do "e se...". Desenvolveram a ideia e fizeram uma história incrível.
Aqui vai um link do review da história: http://orbitalcomics.blogspot.com/2008/05/superman-entre-foice-e-o-martelo.html

Abraços!
Escreva mais, grande Liber.

liber disse...

Oi, Silver!

Obrigado pela visita e coments. Eu adoro a história "A Foice e o Martelo". Acho uma das melhores coisas já feitas com o Super-Homem.
Só lamento ter só o scan. Essa valia a pena ter na estante.

Abração!

Buhler disse...

"o que aconteceria se..."
Resumi todas as historias que eu consideram realmente boas XDD

a minha materia favorita da super interessante sempre foi a "E se.."

eu nunca fui de ler quadrinhos liber, mas uma coisa semana passada me fez me viciar um pouco no mundo marvel

Marvel Zombie XD Zombie são sempre bem vindos, e eu to lendo (ilicitamente mas lendo)

sou facinado por realidades paralelas, logo vocÊ acabou de me OBRIGAR a ter que baixar ILICITAMENTE o quadrinho da crise nas 2 terras que eu ja ouvia falar mesmo sem ler quadrinhos XD

se eu for preso, vou culpar você sorry

liber disse...

Oi, Buhler!

Obrigado pela visita e comentários. O pior é que essa história, ao que me consta, nunca foi publicada aqui no Brasil. Pra comprar, só via Amazon e olha lá. Nesse caso, acho que a disponibilidade do arquivo na web não é ilícita, mas sim uma maneira de garanti às pessoas o acesso à cultura.

;-)

Abraços!